segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Uma Noite em Valadares


Uma Noite em Valadares

Nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé.

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Valadares, ou melhor, Governador Valadares é uma importante cidade localizada às margens do Rio Doce em Minas Gerais. O calor é insuportável durante todo o ano e principalmente no verão. A cidade formou-se ao pé de uma pedra gigante chamada Pico do Ibituruna. A pedra se aquece ao sol durante o dia e à noite radia o calor sobre a cidade. Nada mais abafado e quente do que aquele cobertor de pedra escaldante.

A Ilha dos Araújos é um de seus bairros. Uma ilha dentro do Rio Doce. Só há uma entrada e uma saída: a Ponte da Ilha. Na esquina da Rua Seis com a Rua Trinta e Quatro morava Eugênia. Formou-se na Escola Estadual Nacle Miguel Habib e estava noiva de Estácio, um jovem formado em engenharia de minas. Trabalhava no comércio de pedras preciosas e semipreciosas. Percorria todo o vale do Rio Doce e do Jequitinhonha, regiões propícias para negócios concernentes a riquezas minerais.

No sábado haveria um baile na ilha. A irmã de uma das amigas de Eugênia faria quinze anos. Um baile de debutante! Grande evento para o bairro. Estácio trabalhou até às quatro da tarde, foi para casa, descansou um pouco e se aprontou para o baile. Por volta das sete foi encontrar-se com Eugênia. Foi a pé. Desceu a Rua Trinta e Seis e parou por um momento na Praça Caparaó. Respirou o ar quente que emanava do rio e seguiu pela Av. Rio Doce até a Rua Trinta e Quatro. Dobrou à esquerda e chegou à casa de Eugênia na Rua Seis. Estava muito quente. A grande pedra irradiava todo o calor que havia recebido do Sol. Não havia refrigério. Até a Av. Rio Doce que margeia o rio estava escaldante, parecia que a água do rio fervia e exalava vapor. Era verão, e neste horário a tarde mistura-se com a noite.

O pai de Eugênia, sentado em sua poltrona, assistia à televisão. Estava só de calção, suava muito e o som do aparelho era excessivo. Duas crianças brincavam no canto da sala e seus gritos eram atordoantes. A mãe de Eugênia passava várias vezes pela sala: do quarto para a área de serviço e da área de serviço para o quarto. Eugênia e mais duas amigas se aprontavam e a mãe as auxiliava. O calor não cedia à noite; a pedra era um aliado poderoso que atuava na ausência do sol.

A porta da sala aberta e Estácio em pé sob o marco aguardava em vão uma brisa e sua noiva. Arriscou uma conversa com o sogro que não tirava o olho da televisão. O calor parecia não incomodá-lo. Uma aparência repulsiva! Quem foi Nacle Habib? Perguntou Estácio. O homem respondeu: Habib é o nome da escola em que Eugênia estudou. Respondeu secamente sem desviar o olho. O volume da televisão estava já aborrecendo Estácio. A gritaria dos dois meninos continuava. Os decibéis subiam e desciam atingindo picos ensurdecedores. Eugênia não ficava pronta. Da sala era possível ouvir o murmurinho das mulheres se enfeitando. Muxoxos e mais muxoxos!

Estácio fez outra pergunta: por que não constroem outra ponte de acesso à ilha? Para que outra ponte, rapaz? Uma já é demais. Só fossem barcos seria melhor. Atreveu-se com uma terceira: por que os nomes das ruas da Ilha são somente números pares? O que há aqui contra os ímpares? O pai de Eugênia desta vez olhou para Estácio, fixou o olhar e respondeu: número ímpar não forma par, moço. Onde já se viu! A mãe passa novamente pela sala. Apavorada e apressada murmura: para essas meninas nada fica bem, só eu mesmo para aguentar! Neste momento, Estácio, já muito irritado, foi dar uma volta na Praça Caparaó.

Quando voltou, Eugênia ainda se aprontava. Não é possível, gritou Estácio, não aguento mais esta espera, que coisa mais fútil, tanta demora apenas para colocar um vestido! O pai continuava sentado vendo televisão e os meninos fazendo barulho. Foi então, que Estácio, em um relance, olhou para o homem sentado na poltrona e viu uma mosca que passeava sossegadamente em seu rosto. Isso foi demasiado para o comedimento de Estácio. Pegou o paletó e foi embora subindo a Rua Trinta e Quatro em direção à ponte. A ideia do casamento estava adiada.

sábado, 7 de setembro de 2019

A Purificação de Irene


A Purificação de Irene

Eliseu enviou um mensageiro para lhe dizer: “Vá e lave-se sete vezes no rio Jordão; sua pele será restaurada e você ficará purificado”.

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Na Avenida Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal, fica o suntuoso prédio do Conservatório de Música da cidade de Belo Horizonte. Embrenhado nas árvores frondosas do parque encontra-se o complexo arquitetônico que leva o pomposo nome de Palácio das Artes.

A adolescente Irene Tecla estudava violino no conservatório e todo domingo pela manhã assistia a concertos no Grande Teatro do Palácio das Artes. A instituição promovia a série Concertos para a Juventude com entrada franca. Esta iniciativa era coordenada pelo maestro Sérgio Magnani e trouxe a Belo Horizonte eminentes músicos internacionais como, por exemplo, o flautista Jean Pierre Rampal com sua inusitada flauta de ouro. A série permaneceu por vários anos e foi o maior evento cultural do Brasil. A orquestra sinfônica não era das melhores, mas incentivou e produziu grandes instrumentistas. Com o tempo se tornou uma competente orquestra.

Os estudos de Irene avançavam. Começou a ter aulas com professores especializados e desde então sua técnica aprimorou-se bastante. Havia um quê de virtuosidade em Irene. Adquiriu um ouvido absoluto, sabia o piano com primor, ótima leitura à primeira vista, ditado e solfejo de primeira vez. Tornou-se uma musicista completa e não só uma instrumentista desprovida de conhecimento musical.

Uma bolsa de estudo custeou sua estada em Berlim por três proveitosos anos. Neste período Irene teve a oportunidade de atuar em duas grandes orquestras de vulto técnico e artístico. De volta ao Brasil foi aprovada em concurso e se tornou membro integrante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

Irene Tecla estava então em um bom trabalho. Poderia expor toda sua habilidade artística musical. Ministrava aulas particulares de violino e piano. Atuava como solista em alguns espetáculos.

Podia-se dizer que Irene era uma profissional bem sucedida e realizada. Casou-se com um colega de orquestra e o casal teve duas filhas. Gostavam de estudar partituras do barroco mineiro e divulgar essas composições do século XVIII, mesmo não sendo elas de grande qualidade. Juntamente com as esculturas, pinturas e a arquitetura revelavam o espírito barroco da cultura das Minas Gerais. Ambos estudavam e ensaiavam muito: a orquestra exigia ensaios constantes.

Irene trabalhava com paixão, envolta por uma esfera cultural nobre. Encontros, saraus, reuniões e estudos formavam o cotidiano de sua família. A sinfônica tinha suas atribuições e cumpria anualmente uma agenda de concertos por todo o estado. Algumas vezes em outros estados e até internacionais. A orquestra atuava regularmente e discretamente como deveria toda atividade artística. A indústria da arte é o que mais a empobrece.

A orquestra, soberba, e sob a batuta de seu regente, escolhia com rigor primoroso o repertório. Irene Tecla, com orgulho, compunha a comissão que determinava o repertório de cada apresentação. O maestro, sempre admirado, apreciava e levava em conta seus argumentos que com grande propriedade e pertinência embasavam a escolha do “répertoire”. A qualidade de uma orquestra depende da qualidade de seu repertório, sem dúvida alguma!

Chegou o ano em que a orquestra completaria 50 anos. Em setembro haveria uma grande apresentação que marcaria a expressiva data. O governador do estado acatou o patrocínio de uma empresa sem escrúpulos e muito deselegante. Uma empresa avarenta da pior espécie. Fez da orquestra um de seus muitos haveres. Que horror!

Irene Tecla não pôde mais opinar sobre o repertório. O maestro não se conformou e foi substituído pelo maestro assistente. O repertório foi escolhido pela empresa que visava um grande público. Cunhou o título para o evento: Música de Cinema. O repertório virou um menu, um cardápio, acreditem! O menu consistia em trilhas sonoras de Harry Potter, Star Wars, Superman e outras como Jurassic Park, Indiana Jones e A Lista de Schindler. Extensa lista de contribuições do compositor John Williams à sétima arte.

Para Irene, John Williams era apenas um mercenário da música. Como poderia ela, uma musicista de verdade, mergulhar neste submundo da música? Mergulhar neste imundo e lamacento rio Jordão?

O concerto foi um sucesso de bilheteria. A orquestra pôde saldar suas dívidas, aumentar o salário dos músicos e até conseguiu alugar um amplo salão para ensaios.

Irene e seu esposo exclamaram: só falta agora convidarem o André Rieu para reger uma apresentação!

Os valores culturais de Irene foram se decompondo um a um, até o sétimo mergulho no Jordão. Percebeu ela que não era nada custoso favorecer o gosto menor e em troca receber condições para aprimorar o gosto maior. A orquestra agora podia até promover degustações musicais e exibir, sem avareza, seu virtuosismo artístico e intelectual.