Uma
Noite em Valadares
Nem se ocupem
com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o
serviço de Deus, na fé.
1Timóteo1.4
Valadares,
ou melhor, Governador Valadares é uma importante cidade localizada às margens
do Rio Doce em Minas Gerais. O calor é insuportável durante todo o ano e
principalmente no verão. A cidade formou-se ao pé de uma pedra gigante chamada
Pico do Ibituruna. A pedra se aquece ao sol durante o dia e à noite radia o
calor sobre a cidade. Nada mais abafado e quente do que aquele cobertor de
pedra escaldante.
A
Ilha dos Araújos é um de seus bairros. Uma ilha dentro do Rio Doce. Só há uma
entrada e uma saída: a Ponte da Ilha. Na esquina da Rua Seis com a Rua Trinta e
Quatro morava Eugênia. Formou-se na Escola Estadual Nacle Miguel Habib e estava
noiva de Estácio, um jovem formado em engenharia de minas. Trabalhava no
comércio de pedras preciosas e semipreciosas. Percorria todo o vale do Rio Doce
e do Jequitinhonha, regiões propícias para negócios concernentes a riquezas
minerais.
No
sábado haveria um baile na ilha. A irmã de uma das amigas de Eugênia faria
quinze anos. Um baile de debutante! Grande evento para o bairro. Estácio
trabalhou até às quatro da tarde, foi para casa, descansou um pouco e se
aprontou para o baile. Por volta das sete foi encontrar-se com Eugênia. Foi a
pé. Desceu a Rua Trinta e Seis e parou por um momento na Praça Caparaó.
Respirou o ar quente que emanava do rio e seguiu pela Av. Rio Doce até a Rua
Trinta e Quatro. Dobrou à esquerda e chegou à casa de Eugênia na Rua Seis.
Estava muito quente. A grande pedra irradiava todo o calor que havia recebido
do Sol. Não havia refrigério. Até a Av. Rio Doce que margeia o rio estava
escaldante, parecia que a água do rio fervia e exalava vapor. Era verão, e
neste horário a tarde mistura-se com a noite.
O
pai de Eugênia, sentado em sua poltrona, assistia à televisão. Estava só de
calção, suava muito e o som do aparelho era excessivo. Duas crianças brincavam
no canto da sala e seus gritos eram atordoantes. A mãe de Eugênia passava
várias vezes pela sala: do quarto para a área de serviço e da área de serviço
para o quarto. Eugênia e mais duas amigas se aprontavam e a mãe as auxiliava. O
calor não cedia à noite; a pedra era um aliado poderoso que atuava na ausência
do sol.
A
porta da sala aberta e Estácio em pé sob o marco aguardava em vão uma brisa e
sua noiva. Arriscou uma conversa com o sogro que não tirava o olho da
televisão. O calor parecia não incomodá-lo. Uma aparência repulsiva! Quem foi
Nacle Habib? Perguntou Estácio. O homem respondeu: Habib é o nome da escola em
que Eugênia estudou. Respondeu secamente sem desviar o olho. O volume da
televisão estava já aborrecendo Estácio. A gritaria dos dois meninos
continuava. Os decibéis subiam e desciam atingindo picos ensurdecedores.
Eugênia não ficava pronta. Da sala era possível ouvir o murmurinho das mulheres
se enfeitando. Muxoxos e mais muxoxos!
Estácio
fez outra pergunta: por que não constroem outra ponte de acesso à ilha? Para que
outra ponte, rapaz? Uma já é demais. Só fossem barcos seria melhor. Atreveu-se com
uma terceira: por que os nomes das ruas da Ilha são somente números pares? O
que há aqui contra os ímpares? O pai de Eugênia desta vez olhou para Estácio,
fixou o olhar e respondeu: número ímpar não forma par, moço. Onde já se viu! A
mãe passa novamente pela sala. Apavorada e apressada murmura: para essas
meninas nada fica bem, só eu mesmo para aguentar! Neste momento, Estácio, já
muito irritado, foi dar uma volta na Praça Caparaó.
Quando
voltou, Eugênia ainda se aprontava. Não é possível, gritou Estácio, não aguento
mais esta espera, que coisa mais fútil, tanta demora apenas para colocar um
vestido! O pai continuava sentado vendo televisão e os meninos fazendo barulho.
Foi então, que Estácio, em um relance, olhou para o homem sentado na poltrona e
viu uma mosca que passeava sossegadamente em seu rosto. Isso foi demasiado para
o comedimento de Estácio. Pegou o paletó e foi embora subindo a Rua Trinta e Quatro
em direção à ponte. A ideia do casamento estava adiada.