A
Purificação de Irene
Eliseu enviou um
mensageiro para lhe dizer: “Vá e lave-se sete vezes no rio Jordão; sua pele
será restaurada e você ficará purificado”.
2Reis5.10
Na
Avenida Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal, fica o suntuoso prédio do Conservatório
de Música da cidade de Belo Horizonte. Embrenhado nas árvores frondosas do
parque encontra-se o complexo arquitetônico que leva o pomposo nome de Palácio das
Artes.
A
adolescente Irene Tecla estudava violino no conservatório e todo domingo pela
manhã assistia a concertos no Grande Teatro do Palácio das Artes. A instituição
promovia a série Concertos para a Juventude com entrada franca. Esta
iniciativa era coordenada pelo maestro Sérgio Magnani e trouxe a Belo Horizonte
eminentes músicos internacionais como, por exemplo, o flautista Jean Pierre
Rampal com sua inusitada flauta de ouro. A série permaneceu por vários anos e
foi o maior evento cultural do Brasil. A orquestra sinfônica não era das
melhores, mas incentivou e produziu grandes instrumentistas. Com o tempo se
tornou uma competente orquestra.
Os
estudos de Irene avançavam. Começou a ter aulas com professores especializados
e desde então sua técnica aprimorou-se bastante. Havia um quê de virtuosidade
em Irene. Adquiriu um ouvido absoluto, sabia o piano com primor, ótima leitura
à primeira vista, ditado e solfejo de primeira vez. Tornou-se uma musicista
completa e não só uma instrumentista desprovida de conhecimento musical.
Uma
bolsa de estudo custeou sua estada em Berlim por três proveitosos anos. Neste
período Irene teve a oportunidade de atuar em duas grandes orquestras de vulto
técnico e artístico. De volta ao Brasil foi aprovada em concurso e se tornou
membro integrante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.
Irene
Tecla estava então em um bom trabalho. Poderia expor toda sua habilidade
artística musical. Ministrava aulas particulares de violino e piano. Atuava
como solista em alguns espetáculos.
Podia-se
dizer que Irene era uma profissional bem sucedida e realizada. Casou-se com um
colega de orquestra e o casal teve duas filhas. Gostavam de estudar partituras
do barroco mineiro e divulgar essas composições do século XVIII, mesmo não
sendo elas de grande qualidade. Juntamente com as esculturas, pinturas e a
arquitetura revelavam o espírito barroco da cultura das Minas Gerais. Ambos
estudavam e ensaiavam muito: a orquestra exigia ensaios constantes.
Irene
trabalhava com paixão, envolta por uma esfera cultural nobre. Encontros,
saraus, reuniões e estudos formavam o cotidiano de sua família. A sinfônica
tinha suas atribuições e cumpria anualmente uma agenda de concertos por todo o
estado. Algumas vezes em outros estados e até internacionais. A orquestra
atuava regularmente e discretamente como deveria toda atividade artística. A
indústria da arte é o que mais a empobrece.
A
orquestra, soberba, e sob a batuta de seu regente, escolhia com rigor primoroso
o repertório. Irene Tecla, com orgulho, compunha a comissão que determinava o
repertório de cada apresentação. O maestro, sempre admirado, apreciava e levava
em conta seus argumentos que com grande propriedade e pertinência embasavam a
escolha do “répertoire”. A qualidade de uma orquestra depende da qualidade de
seu repertório, sem dúvida alguma!
Chegou
o ano em que a orquestra completaria 50 anos. Em setembro haveria uma grande
apresentação que marcaria a expressiva data. O governador do estado acatou o
patrocínio de uma empresa sem escrúpulos e muito deselegante. Uma empresa
avarenta da pior espécie. Fez da orquestra um de seus muitos haveres. Que
horror!
Irene
Tecla não pôde mais opinar sobre o repertório. O maestro não se conformou e foi
substituído pelo maestro assistente. O repertório foi escolhido pela empresa
que visava um grande público. Cunhou o título para o evento: Música de Cinema.
O repertório virou um menu, um cardápio, acreditem! O menu consistia em trilhas
sonoras de Harry Potter, Star Wars, Superman e outras como Jurassic Park,
Indiana Jones e A Lista de Schindler. Extensa lista de contribuições do
compositor John Williams à sétima arte.
Para
Irene, John Williams era apenas um mercenário da música. Como poderia ela, uma
musicista de verdade, mergulhar neste submundo da música? Mergulhar neste
imundo e lamacento rio Jordão?
O
concerto foi um sucesso de bilheteria. A orquestra pôde saldar suas dívidas,
aumentar o salário dos músicos e até conseguiu alugar um amplo salão para
ensaios.
Irene
e seu esposo exclamaram: só falta agora convidarem o André Rieu para reger uma
apresentação!
Os
valores culturais de Irene foram se decompondo um a um, até o sétimo mergulho
no Jordão. Percebeu ela que não era nada custoso favorecer o gosto menor e em
troca receber condições para aprimorar o gosto maior. A orquestra agora podia
até promover degustações musicais e exibir, sem avareza, seu virtuosismo
artístico e intelectual.
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