sábado, 7 de setembro de 2019

A Purificação de Irene


A Purificação de Irene

Eliseu enviou um mensageiro para lhe dizer: “Vá e lave-se sete vezes no rio Jordão; sua pele será restaurada e você ficará purificado”.

2Reis5.10

Na Avenida Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal, fica o suntuoso prédio do Conservatório de Música da cidade de Belo Horizonte. Embrenhado nas árvores frondosas do parque encontra-se o complexo arquitetônico que leva o pomposo nome de Palácio das Artes.

A adolescente Irene Tecla estudava violino no conservatório e todo domingo pela manhã assistia a concertos no Grande Teatro do Palácio das Artes. A instituição promovia a série Concertos para a Juventude com entrada franca. Esta iniciativa era coordenada pelo maestro Sérgio Magnani e trouxe a Belo Horizonte eminentes músicos internacionais como, por exemplo, o flautista Jean Pierre Rampal com sua inusitada flauta de ouro. A série permaneceu por vários anos e foi o maior evento cultural do Brasil. A orquestra sinfônica não era das melhores, mas incentivou e produziu grandes instrumentistas. Com o tempo se tornou uma competente orquestra.

Os estudos de Irene avançavam. Começou a ter aulas com professores especializados e desde então sua técnica aprimorou-se bastante. Havia um quê de virtuosidade em Irene. Adquiriu um ouvido absoluto, sabia o piano com primor, ótima leitura à primeira vista, ditado e solfejo de primeira vez. Tornou-se uma musicista completa e não só uma instrumentista desprovida de conhecimento musical.

Uma bolsa de estudo custeou sua estada em Berlim por três proveitosos anos. Neste período Irene teve a oportunidade de atuar em duas grandes orquestras de vulto técnico e artístico. De volta ao Brasil foi aprovada em concurso e se tornou membro integrante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

Irene Tecla estava então em um bom trabalho. Poderia expor toda sua habilidade artística musical. Ministrava aulas particulares de violino e piano. Atuava como solista em alguns espetáculos.

Podia-se dizer que Irene era uma profissional bem sucedida e realizada. Casou-se com um colega de orquestra e o casal teve duas filhas. Gostavam de estudar partituras do barroco mineiro e divulgar essas composições do século XVIII, mesmo não sendo elas de grande qualidade. Juntamente com as esculturas, pinturas e a arquitetura revelavam o espírito barroco da cultura das Minas Gerais. Ambos estudavam e ensaiavam muito: a orquestra exigia ensaios constantes.

Irene trabalhava com paixão, envolta por uma esfera cultural nobre. Encontros, saraus, reuniões e estudos formavam o cotidiano de sua família. A sinfônica tinha suas atribuições e cumpria anualmente uma agenda de concertos por todo o estado. Algumas vezes em outros estados e até internacionais. A orquestra atuava regularmente e discretamente como deveria toda atividade artística. A indústria da arte é o que mais a empobrece.

A orquestra, soberba, e sob a batuta de seu regente, escolhia com rigor primoroso o repertório. Irene Tecla, com orgulho, compunha a comissão que determinava o repertório de cada apresentação. O maestro, sempre admirado, apreciava e levava em conta seus argumentos que com grande propriedade e pertinência embasavam a escolha do “répertoire”. A qualidade de uma orquestra depende da qualidade de seu repertório, sem dúvida alguma!

Chegou o ano em que a orquestra completaria 50 anos. Em setembro haveria uma grande apresentação que marcaria a expressiva data. O governador do estado acatou o patrocínio de uma empresa sem escrúpulos e muito deselegante. Uma empresa avarenta da pior espécie. Fez da orquestra um de seus muitos haveres. Que horror!

Irene Tecla não pôde mais opinar sobre o repertório. O maestro não se conformou e foi substituído pelo maestro assistente. O repertório foi escolhido pela empresa que visava um grande público. Cunhou o título para o evento: Música de Cinema. O repertório virou um menu, um cardápio, acreditem! O menu consistia em trilhas sonoras de Harry Potter, Star Wars, Superman e outras como Jurassic Park, Indiana Jones e A Lista de Schindler. Extensa lista de contribuições do compositor John Williams à sétima arte.

Para Irene, John Williams era apenas um mercenário da música. Como poderia ela, uma musicista de verdade, mergulhar neste submundo da música? Mergulhar neste imundo e lamacento rio Jordão?

O concerto foi um sucesso de bilheteria. A orquestra pôde saldar suas dívidas, aumentar o salário dos músicos e até conseguiu alugar um amplo salão para ensaios.

Irene e seu esposo exclamaram: só falta agora convidarem o André Rieu para reger uma apresentação!

Os valores culturais de Irene foram se decompondo um a um, até o sétimo mergulho no Jordão. Percebeu ela que não era nada custoso favorecer o gosto menor e em troca receber condições para aprimorar o gosto maior. A orquestra agora podia até promover degustações musicais e exibir, sem avareza, seu virtuosismo artístico e intelectual.

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