sábado, 31 de agosto de 2019

A Curiosidade de Ana Gish


A Curiosidade de Ana Gish

Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.

Lamentações 3.21

O ônibus de turismo chegou a Ajudá, que na língua local se chama Ouidah, uma cidade quase litorânea de Benin. Ajudá foi a maior fortificação de tráfico de escravos levados para as Américas de Américo Vespúcio que ao ver terras em paralelos tão baixos declarou de imediato que não se tratava da Índia e sim de um novo mundo.

Ana Gish desceu do ônibus e conduziu todos à recepção do Hotel Terra Nostra localizado próximo à Rue Olivier de Montaguerre. Informou aos turistas que o jantar seria no restaurante Les Délices de la Côte logo ao lado bem perto do hotel. Depois do jantar iriam se divertir no bar Blue Moon.

Havia em Ajudá uma árvore chamada Árvore do Esquecimento. Antes de embarcarem nos navios negreiros as mulheres davam sete voltas em torno dessa árvore e os homens nove. Iniciava-se ali o exílio eterno, sem volta e sem esperança. Toda memória deveria ser apagada. O Portal do Não-Retorno seria em breve permeado.

No dia seguinte visitaram o Museu de Ajudá instalado no imponente casarão de uma das maiores fortificações de Portugal. Destinada ao então tráfico escravista, a fortaleza marcava o início da Rota dos Escravos que se estende até à Porta do Não-Retorno, monumento banhado pelo Atlântico.

Ana nasceu em Albuquerque no estado de New Mexico e sua mãe a batizou com o nome da atriz de Hollywood Annabeth Gish que também nasceu em Albuquerque. Ao lado de Albuquerque fica Los Alamos, lugar do ultrassecreto laboratório onde o projeto Manhattan construiu as duas bombas atômicas que deram cabo da Segunda Guerra e do Império do Sol Nascente.

De Albuquerque a família de Ana mudou-se para Rock Springs no estado de Wyoming. Aí se estabeleceram e Ana se formou no Western Wyoming Community College. Graduou-se no curso de turismo.

Em uma de suas viagens levou um grupo de turistas a Saint Louis. Visitaram o maior monumento do mundo: o portal para o oeste, The Gateway Arch. Um arco com 192 metros de altura em forma de Catenária. Marca a saída para a conquista do oeste. A expansão territorial dos Estados Unidos. Thomas Jefferson iniciou a partir deste ponto o processo de mapeamento e anexação do oeste desde o Rio Mississipi até o oceano Pacífico. Gish admirava o suntuoso portal, pois sua pequena cidade de Roke Springs decorreu desta grande empreitada.
Por ser de Albuquerque, o ponto turístico preferido de Ana era o Museu Nacional de Ciência Nuclear e o laboratório de Los Alamos. As réplicas das duas bombas atômicas estão expostas neste museu, Little Boy e Fat Man. Os olhares e as fotos de turistas abraçados a elas são emblemáticos. Em Los Alamos, estátuas de bronze dos grandes heróis da bomba atômica: General Groves e Oppenheimer.

Em Ajudá Ana queria ver de perto o Museu de Ajudá, a Rota dos Escravos e a Porta do Não-Retorno. O grupo turístico estava eufórico. Uma excursão em um pequeno país da África é inusitada. Benin foi escolhido por sua trágica ligação com as Américas.

Ana Gish, uma profissional da indústria do turismo, conhecia inúmeros mementos e suas histórias. Ela cogitava: para cada memento há um algoz, mas nem para todo algoz há um memento. Jocosamente Ana falava aos turistas: há muito algoz sobrando! O que gerava dúvida, qual seja, o memento acusa ou rende homenagem ao predador? O que deveria ser óbvio àquele que se depara com um memento era obscuro a Ana.

Curiosa e sem respostas Gish preferia aquietar-se na asseveração moral de que não há topo da cadeia alimentar, visto não passar de um uróboro. A jovem Ana também escasseava a curiosidade com o alento africano proveniente do costume Sawabona e Shikoba.

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