segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O Examinador


O Examinador

Não terás outros deuses diante de mim.
Êxodo20.3

Com uma profissão bastante singular e ainda sem nome, Benedetto Nórcia vivia plenamente, cheio de entusiasmo e estima. Vangloriava-se bastante! Benedetto era por profissão membro de banca examinadora. Qualquer tipo de banca: doutorado, mestrado, concurso público e dissertações várias. Sua agenda sempre cheia. Viajava por todo o país.

Convidado para compor uma banca ele exigia uma única coisa: viagem em primeira classe. Já ia me esquecendo de um pormenor: Benedetto também ministrava palestras ou conferências, seja lá qual for o nome. Nunca cobrou sequer um centavo, apenas ajuda de custo e voo de primeira classe.

Benedetto Nórcia dominava qualquer assunto. Pelo menos assim pensavam, e ele, por sua vez, tinha seus métodos de persuasão. Tinham-no como um prodígio!

A recompensa de Nórcia era o momento da defesa. Este momento consistia unicamente no intervalo de tempo entre o início e o fim de sua fala enquanto membro da banca examinadora. Havia certamente os protocolos, assinaturas de atas, assistência de secretárias e os olhares de transeuntes que comentavam discretamente a presença de Benedetto na instituição. Isso muito o agradava e ensoberbecia.

Momento sagrado este! Ao examinador é outorgado o lugar da fala, lugar do verbo. Aí, neste lugar, Nórcia era um obelisco, uma tamareira. Discorria sobre cada minúcia do texto, arguia detalhes, comentava, comentava e comentava interminavelmente. E assim, com veemência e autoridade exibia seu conhecimento, sempre pertinente e perspicaz. O defensor examinado tentava promover respostas. Suas argumentações eram educadamente desconstruídas por Benedetto. Humilde e derrotado sucumbia. A defesa é a hora de enfrentar o apedrejamento que tem por finalidade a glória de quem joga a pedra e não a morte do condenado. Todos sabem que as pedras lançadas são feitas de massinhas coloridas em formatos variados e exibem eficazmente as proezas do examinador. Autoridade daquele que conhece, daquele que sabe.

Benedetto sorvia cada segundo do momento que estava neste lugar. Colhia toda glória possível. Nesta posição todos eram obrigados a ouvi-lo. Portanto, podia fazer do banal uma proeza sem se achar um adolescente.

A profissão de Benedetto talvez não seja tão inusitada como afirmei. Um olhar mais atento nos mostra que “colhedor de aplausos” é uma profissão muito comum. Desde necessitados jovens malabaristas em sinais de trânsito a exímios diplomatas.

A glória é o aplauso do outro, o qual também necessita ser aplaudido. Assim, há um acordo velado: eu te aplaudo e em contrapartida você também me aplaude.

Benedetto Nórcia foi examinador por mais de quarenta anos. A idade já pesava! Sua jovialidade permanecia. Aprimorou sua profissão. Agora vivia a inventar proezas passadas e com muito mais excelência exaltava o banal. De adolescente retornou à infância do faz-de-conta.

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