O Examinador
Não terás outros deuses diante de mim.
Êxodo20.3
Com
uma profissão bastante singular e ainda sem nome, Benedetto Nórcia vivia
plenamente, cheio de entusiasmo e estima. Vangloriava-se bastante! Benedetto
era por profissão membro de banca examinadora. Qualquer tipo de banca:
doutorado, mestrado, concurso público e dissertações várias. Sua agenda sempre
cheia. Viajava por todo o país.
Convidado
para compor uma banca ele exigia uma única coisa: viagem em primeira classe. Já
ia me esquecendo de um pormenor: Benedetto também ministrava palestras ou
conferências, seja lá qual for o nome. Nunca cobrou sequer um centavo, apenas
ajuda de custo e voo de primeira classe.
Benedetto
Nórcia dominava qualquer assunto. Pelo menos assim pensavam, e ele, por sua
vez, tinha seus métodos de persuasão. Tinham-no como um prodígio!
A
recompensa de Nórcia era o momento da defesa. Este momento consistia unicamente
no intervalo de tempo entre o início e o fim de sua fala enquanto membro da
banca examinadora. Havia certamente os protocolos, assinaturas de atas,
assistência de secretárias e os olhares de transeuntes que comentavam
discretamente a presença de Benedetto na instituição. Isso muito o agradava e
ensoberbecia.
Momento
sagrado este! Ao examinador é outorgado o lugar da fala, lugar do verbo. Aí,
neste lugar, Nórcia era um obelisco, uma tamareira. Discorria sobre cada
minúcia do texto, arguia detalhes, comentava, comentava e comentava
interminavelmente. E assim, com veemência e autoridade exibia seu conhecimento,
sempre pertinente e perspicaz. O defensor examinado tentava promover respostas.
Suas argumentações eram educadamente desconstruídas por Benedetto. Humilde e
derrotado sucumbia. A defesa é a hora de enfrentar o apedrejamento que tem por
finalidade a glória de quem joga a pedra e não a morte do condenado. Todos sabem
que as pedras lançadas são feitas de massinhas coloridas em formatos variados e
exibem eficazmente as proezas do examinador. Autoridade daquele que conhece,
daquele que sabe.
Benedetto
sorvia cada segundo do momento que estava neste lugar. Colhia toda glória possível.
Nesta posição todos eram obrigados a ouvi-lo. Portanto, podia fazer do banal
uma proeza sem se achar um adolescente.
A
profissão de Benedetto talvez não seja tão inusitada como afirmei. Um olhar
mais atento nos mostra que “colhedor de aplausos” é uma profissão muito comum.
Desde necessitados jovens malabaristas em sinais de trânsito a exímios
diplomatas.
A
glória é o aplauso do outro, o qual também necessita ser aplaudido. Assim, há
um acordo velado: eu te aplaudo e em contrapartida você também me aplaude.
Benedetto
Nórcia foi examinador por mais de quarenta anos. A idade já pesava! Sua
jovialidade permanecia. Aprimorou sua profissão. Agora vivia a inventar proezas
passadas e com muito mais excelência exaltava o banal. De adolescente retornou
à infância do faz-de-conta.
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