Selah
Aquietai-vos e sabei que eu
sou Deus
Sl:46.10
O dia rompeu cinzento e triste. Ernane Galvez se levantou. Seria mais um
dia comum sem acontecimentos: nem jornais nem notícias, levava a sério o
ditado, “se não sei não existe”.
Foi à janela e olhou o céu. Cristo voltará. Ele sempre conferia o
esperado retorno prometido: “entrou no sepulcro, e viu os panos de linho
caídos, e que o lenço, que estivera sobre a sua cabeça, não estava caído com os
panos de linho, mas dobrado, em um lugar à parte”. Havia fé em Galvez.
No metrô a caminho do trabalho algumas lembranças o aconchegaram: Arnaldo
Marchezotti! Ernane o vira tocar uma vez na sala de concertos. Marchezotti era
um pianista cego aos oito anos de idade. Diziam que uma gripe tirou-lhe a
visão. Ernane frequentava sua casa em Lagoa Santa, cidade onde faleceu o
naturalista dinamarquês Lund em 1880. Na casa havia um piano de armário e
Marcheezotti tocava para Ernane, que na época tinha cerca de oito anos, ou
talvez doze, a memória distante não distinguia. A música preferida era El Amor
Brujo – Danza Ritual del Fuego – do compositor espanhol Manuel de Falla. Bonita
música se tirarmos o dialeto esdrúxulo e a história adjunta que não passa de
maléficas idolatrias ciganas. Marchezotti sentado ao piano era admirado pelo
menino. Os cabelos brancos e o olhar sem olhado existente o fascinava.
Quem cuidava de Arnaldo era sua esposa Adelina: paciente e amorosa.
Contrariamente, Arnaldo era uma pessoa difícil, irritadiço, nervoso e ranheta.
Mesmo sendo um pianista de renome internacional, jamais aceitou a cegueira.
Escondido da mulher bebia vodca, cuja garrafa colocava dentro do armário
do piano, longe da vista de Adelina. Com o tempo o etilismo corroeu-lhe o
fígado e o matou precocemente.
Mais tarde Ernane soube que Arnaldo apreciava outras mulheres.
Até em viagens de navio o pianista arranjava amantes. Ninguém sabia como
Arnaldo conseguia ocultar seus encontros amorosos da esposa. Talvez se fizesse
de cega para vivenciar a deficiência. Familiarizar-se com ela! Comportamento
movido por grande compaixão.
O metrô subterrâneo provocava lembranças em Ernane. O pianista de grande
estatura, pele do rosto avermelhada, cabelos brancos. Arnaldo era altivo, um
virtuose! A atenção dispensada e o mero fato de estar junto, face a face, em um
ambiente particular faziam com que Ernane se sentisse interlocutor do notável
Marchezotti. Ter acesso ao sagrado enchia Ernane de orgulho. A soberba do
pianista era compartilhada. A soberba das personalidades prodigiosas. Ernane
seria um desses! Assim pensava e sentia-se bem.
No dia do concerto o menino Ernane esperava ansioso a entrada triunfante
do pianista. Sentado no setor central em frente ao palco, aguardava. Não
lembrava se estava acompanhado por seus pais. A memória o tinha a sós. A
campainha tocou pela terceira vez. A cortina se abre e as luzes do palco se
acendem. No centro um fabuloso piano de cauda. Preto, brilhante e imponente! A
orquestra entra sem pressa. Faz-se silêncio. Entra o maestro. Aplausos!
Silêncio novamente. Tudo quieto! Aparece Marchezotti guiado por Adelina e
caminha até à banqueta do piano. Chegara ao lar!
Assentou-se, acertou a banqueta corrigindo a posição do assento
almofadado como se ele estivesse na posição errada. Levantou a fronte sem olhar
para ninguém: cegos não olham, mas determinam que os outros o olhem.
Arrogantemente tocou a nota Lá do piano. Era o comando para que todos afinassem
seus instrumentos corretamente. Quem determinava a frequência era o piano, o
próprio Marchezotti. Tocou o concerto número 21 para piano e orquestra de
Mozart.
O metrô chegou ao ponto onde Ernane descia. Ele saiu da estação, caminhou
por alguns minutos e entrou no conservatório em que dava aulas de regência
coral.
O menino Ernane tinha se tornado Arnaldo Marchezotti! Porém, ninguém se
tornou Ernane Galvez.
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