terça-feira, 20 de agosto de 2019

Selah


Selah

Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus
Sl:46.10


O dia rompeu cinzento e triste. Ernane Galvez se levantou. Seria mais um dia comum sem acontecimentos: nem jornais nem notícias, levava a sério o ditado, “se não sei não existe”.

Foi à janela e olhou o céu. Cristo voltará. Ele sempre conferia o esperado retorno prometido: “entrou no sepulcro, e viu os panos de linho caídos, e que o lenço, que estivera sobre a sua cabeça, não estava caído com os panos de linho, mas dobrado, em um lugar à parte”. Havia fé em Galvez.

No metrô a caminho do trabalho algumas lembranças o aconchegaram: Arnaldo Marchezotti! Ernane o vira tocar uma vez na sala de concertos. Marchezotti era um pianista cego aos oito anos de idade. Diziam que uma gripe tirou-lhe a visão. Ernane frequentava sua casa em Lagoa Santa, cidade onde faleceu o naturalista dinamarquês Lund em 1880. Na casa havia um piano de armário e Marcheezotti tocava para Ernane, que na época tinha cerca de oito anos, ou talvez doze, a memória distante não distinguia. A música preferida era El Amor Brujo – Danza Ritual del Fuego – do compositor espanhol Manuel de Falla. Bonita música se tirarmos o dialeto esdrúxulo e a história adjunta que não passa de maléficas idolatrias ciganas. Marchezotti sentado ao piano era admirado pelo menino. Os cabelos brancos e o olhar sem olhado existente o fascinava.

Quem cuidava de Arnaldo era sua esposa Adelina: paciente e amorosa. Contrariamente, Arnaldo era uma pessoa difícil, irritadiço, nervoso e ranheta. Mesmo sendo um pianista de renome internacional, jamais aceitou a cegueira.

Escondido da mulher bebia vodca, cuja garrafa colocava dentro do armário do piano, longe da vista de Adelina. Com o tempo o etilismo corroeu-lhe o fígado e o matou precocemente.

Mais tarde Ernane soube que Arnaldo apreciava outras mulheres. Até em viagens de navio o pianista arranjava amantes. Ninguém sabia como Arnaldo conseguia ocultar seus encontros amorosos da esposa. Talvez se fizesse de cega para vivenciar a deficiência. Familiarizar-se com ela! Comportamento movido por grande compaixão.

O metrô subterrâneo provocava lembranças em Ernane. O pianista de grande estatura, pele do rosto avermelhada, cabelos brancos. Arnaldo era altivo, um virtuose! A atenção dispensada e o mero fato de estar junto, face a face, em um ambiente particular faziam com que Ernane se sentisse interlocutor do notável Marchezotti. Ter acesso ao sagrado enchia Ernane de orgulho. A soberba do pianista era compartilhada. A soberba das personalidades prodigiosas. Ernane seria um desses! Assim pensava e sentia-se bem.

No dia do concerto o menino Ernane esperava ansioso a entrada triunfante do pianista. Sentado no setor central em frente ao palco, aguardava. Não lembrava se estava acompanhado por seus pais. A memória o tinha a sós. A campainha tocou pela terceira vez. A cortina se abre e as luzes do palco se acendem. No centro um fabuloso piano de cauda. Preto, brilhante e imponente! A orquestra entra sem pressa. Faz-se silêncio. Entra o maestro. Aplausos! Silêncio novamente. Tudo quieto! Aparece Marchezotti guiado por Adelina e caminha até à banqueta do piano. Chegara ao lar!

Assentou-se, acertou a banqueta corrigindo a posição do assento almofadado como se ele estivesse na posição errada. Levantou a fronte sem olhar para ninguém: cegos não olham, mas determinam que os outros o olhem. Arrogantemente tocou a nota Lá do piano. Era o comando para que todos afinassem seus instrumentos corretamente. Quem determinava a frequência era o piano, o próprio Marchezotti. Tocou o concerto número 21 para piano e orquestra de Mozart.

O metrô chegou ao ponto onde Ernane descia. Ele saiu da estação, caminhou por alguns minutos e entrou no conservatório em que dava aulas de regência coral.

O menino Ernane tinha se tornado Arnaldo Marchezotti! Porém, ninguém se tornou Ernane Galvez.

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