O
Desatendimento de Hadassah Carlebach
E disse-lhes:
Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for
batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.
Mc16.15,16
E assim, a fé
vem pela pregação, e pregação, pela palavra de Cristo. Mas pergunto:
Porventura, não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua
voz, e a suas palavras, até aos confins do mundo.
Rm10.17,18
Foi
um belo casamento, singelo e com poucos convidados. Não ouso dizer que foi abençoado
por Deus! Se tivesse ocorrido antes de Cristo certamente teria sido abençoado,
mas com a recusa dos judeus em aceitar Cristo como o Messias Salvador, dúvidas
são suscitadas e me impedem de fazer tal afirmação.
Hadassah
Carlebach se casou com o filho do rabino de uma sinagoga em Columbus e foi
morar na S Lazelle St bem próximo à Snap Fitness German Village onde trabalhava
como personal trainer. Seu marido sempre muito ocupado com os afazeres da
sinagoga ficava muito pouco em casa. Quando chegou a geladeira nova, Hadassah
teve dificuldades para desembalar e ligar a mercadoria. Esqueceu-se de retirar
a proteção do motor e houve um superaquecimento. Uma vizinha, sentindo o cheiro
e vendo o movimento apavorado de Hadassah foi ajudar e resolveu o problema. A
vizinha, antes de sair, perguntou: você nunca observou um refrigerador sendo
desembalado e instalado na casa de seus pais? Ela respondeu que nunca havia
observado tal coisa.
Alguns
dias depois, Hadassah foi tirar uma forma de gelo que estava presa ao
congelador. Vendo que a forma estava realmente agarrada, ela pegou uma faca
pontiaguda e usou-a como alavanca para levantar e soltar a forma da placa
inferior do compartimento. O estrago previsível, qual foi? A faca furou o duto
de gás do aparelho que consequentemente parou de funcionar.
Ao
anoitecer o marido chegou a casa e se dirigiu à geladeira com a intenção de
saborear uma agradável água gelada. De súbito percebeu que o refrigerador não
estava gelando! Em voz alta perguntou à Hadassah: por que a geladeira não está
esfriando? Aconteceu alguma coisa? Hadassah respondeu: deve estar desligada. O
marido, irritado com a resposta, retrucou: desligada? Quem desligaria uma
geladeira? Claro que não está desligada, a lâmpada interna está acendendo. Como
é que eu vou saber o que aconteceu, falou ela. A geladeira para de gelar e eu
tenho que saber o motivo? O marido, ainda calmo, perguntou: tente lembrar se
você mexeu em alguma coisa, qualquer que seja. Hadassah parou, pensou e
lembrou: eu usei uma faca para desgrudar a forma de gelo do congelador, estava
agarrada e eu não conseguia fazer com que ela se soltasse, aí usei uma faca,
coloquei a ponta debaixo da forma, dei uma batida mais ou menos de leve e ela
se soltou facilmente. Sem a faca seria impossível, estava mesmo grudada, como
uma pedra no muro.
O
marido ficou furioso, mas se conteve e não alterou o tom de voz, afinal há
sempre o respeito conjugal. Pelo amor de Deus, Hadassah! Seu pai certamente já
chamou atenção para este fato em sua casa. Sua mãe também. Você estudou
princípios de termodinâmica no ensino médio, sabe muito bem que não pode furar
os dutos de gás de um congelador. Toda geladeira tem uma pazinha de plástico
pendurada na parte interna do compartimento com os seguintes dizeres: não use
metal pontiagudo para limpar o congelador, utilize esta pá, feita de material
plástico apropriado para evitar danos aos dutos. Não é possível, não é mesmo!
Não é possível que não saiba disso ou nunca teve informação sobre este
procedimento. Todo mundo sabe e você se faz de despercebida. Nunca ouviu falar,
nunca perguntou, nunca teve curiosidade, nunca comentou, nunca, nunca, nada. E
ainda há pedagogo afirmando que a culpa é da qualidade do ensino. Ora, o
problema é a qualidade do aluno e não a qualidade da escola, esta é
consequência daquela. Nunca te chamaram de sonsa, de avoada de palerma? Declare
agora: eu sou culpada por não saber. Vamos, declare sua culpa e nunca diga que
lhe faltou oportunidade de conhecer.
Depois
do falatório, se acalmou o marido e acarinhou Hadassah. A geladeira foi
consertada e parece que a moça aprendeu. Pelo menos isso! Quanto
despercebimento! Continuarão despercebidos, nunca revelados, nunca apreendidos.
A culpa, porém, sempre é daquele que não percebe e inevitavelmente sofrerá a
consequência. Não há desculpa: nunca ouvi falar, ninguém me alertou; ninguém me
contou. Velhacos. Querem justificar o desconhecimento alegando desatendimento
por sonsice. Esquecem estes que a sonsice é um erro, um desvio de caráter, um
desvio moral e passível de prisão.
Calvino,
bem fundamentado nas sagradas escrituras, resolve este dilema: Deus desde o
princípio já escolheu aqueles que vão ser salvos. São os eleitos; os quais o
desatendimento jamais acolhe. Contudo, sempre é bom esclarecer que o fato de
ser eleito, de ser escolhido, predestinado, não isenta de culpa os que não
foram e nem é recompensa dos que foram. Tudo é obra da graça e da misericórdia.