quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O Desatendimento de Hadassah Carlebach


O Desatendimento de Hadassah Carlebach

E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.

Mc16.15,16

E assim, a fé vem pela pregação, e pregação, pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura, não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e a suas palavras, até aos confins do mundo.

Rm10.17,18

Foi um belo casamento, singelo e com poucos convidados. Não ouso dizer que foi abençoado por Deus! Se tivesse ocorrido antes de Cristo certamente teria sido abençoado, mas com a recusa dos judeus em aceitar Cristo como o Messias Salvador, dúvidas são suscitadas e me impedem de fazer tal afirmação.

Hadassah Carlebach se casou com o filho do rabino de uma sinagoga em Columbus e foi morar na S Lazelle St bem próximo à Snap Fitness German Village onde trabalhava como personal trainer. Seu marido sempre muito ocupado com os afazeres da sinagoga ficava muito pouco em casa. Quando chegou a geladeira nova, Hadassah teve dificuldades para desembalar e ligar a mercadoria. Esqueceu-se de retirar a proteção do motor e houve um superaquecimento. Uma vizinha, sentindo o cheiro e vendo o movimento apavorado de Hadassah foi ajudar e resolveu o problema. A vizinha, antes de sair, perguntou: você nunca observou um refrigerador sendo desembalado e instalado na casa de seus pais? Ela respondeu que nunca havia observado tal coisa.

Alguns dias depois, Hadassah foi tirar uma forma de gelo que estava presa ao congelador. Vendo que a forma estava realmente agarrada, ela pegou uma faca pontiaguda e usou-a como alavanca para levantar e soltar a forma da placa inferior do compartimento. O estrago previsível, qual foi? A faca furou o duto de gás do aparelho que consequentemente parou de funcionar.

Ao anoitecer o marido chegou a casa e se dirigiu à geladeira com a intenção de saborear uma agradável água gelada. De súbito percebeu que o refrigerador não estava gelando! Em voz alta perguntou à Hadassah: por que a geladeira não está esfriando? Aconteceu alguma coisa? Hadassah respondeu: deve estar desligada. O marido, irritado com a resposta, retrucou: desligada? Quem desligaria uma geladeira? Claro que não está desligada, a lâmpada interna está acendendo. Como é que eu vou saber o que aconteceu, falou ela. A geladeira para de gelar e eu tenho que saber o motivo? O marido, ainda calmo, perguntou: tente lembrar se você mexeu em alguma coisa, qualquer que seja. Hadassah parou, pensou e lembrou: eu usei uma faca para desgrudar a forma de gelo do congelador, estava agarrada e eu não conseguia fazer com que ela se soltasse, aí usei uma faca, coloquei a ponta debaixo da forma, dei uma batida mais ou menos de leve e ela se soltou facilmente. Sem a faca seria impossível, estava mesmo grudada, como uma pedra no muro.

O marido ficou furioso, mas se conteve e não alterou o tom de voz, afinal há sempre o respeito conjugal. Pelo amor de Deus, Hadassah! Seu pai certamente já chamou atenção para este fato em sua casa. Sua mãe também. Você estudou princípios de termodinâmica no ensino médio, sabe muito bem que não pode furar os dutos de gás de um congelador. Toda geladeira tem uma pazinha de plástico pendurada na parte interna do compartimento com os seguintes dizeres: não use metal pontiagudo para limpar o congelador, utilize esta pá, feita de material plástico apropriado para evitar danos aos dutos. Não é possível, não é mesmo! Não é possível que não saiba disso ou nunca teve informação sobre este procedimento. Todo mundo sabe e você se faz de despercebida. Nunca ouviu falar, nunca perguntou, nunca teve curiosidade, nunca comentou, nunca, nunca, nada. E ainda há pedagogo afirmando que a culpa é da qualidade do ensino. Ora, o problema é a qualidade do aluno e não a qualidade da escola, esta é consequência daquela. Nunca te chamaram de sonsa, de avoada de palerma? Declare agora: eu sou culpada por não saber. Vamos, declare sua culpa e nunca diga que lhe faltou oportunidade de conhecer.

Depois do falatório, se acalmou o marido e acarinhou Hadassah. A geladeira foi consertada e parece que a moça aprendeu. Pelo menos isso! Quanto despercebimento! Continuarão despercebidos, nunca revelados, nunca apreendidos. A culpa, porém, sempre é daquele que não percebe e inevitavelmente sofrerá a consequência. Não há desculpa: nunca ouvi falar, ninguém me alertou; ninguém me contou. Velhacos. Querem justificar o desconhecimento alegando desatendimento por sonsice. Esquecem estes que a sonsice é um erro, um desvio de caráter, um desvio moral e passível de prisão.

Calvino, bem fundamentado nas sagradas escrituras, resolve este dilema: Deus desde o princípio já escolheu aqueles que vão ser salvos. São os eleitos; os quais o desatendimento jamais acolhe. Contudo, sempre é bom esclarecer que o fato de ser eleito, de ser escolhido, predestinado, não isenta de culpa os que não foram e nem é recompensa dos que foram. Tudo é obra da graça e da misericórdia.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Recompensa e Justiça


Recompensa e Justiça

Quando uma nação cai nas mãos dos ímpios, Deus venda os olhos de seus juízes.

Jó 9.24

Jéssica, seu caso é muito difícil! Não será nada fácil persuadir o juiz a reduzir sua pena. Eu, como sua advogada, tenho a obrigação de dizer-lhe isso. O júri já se decidiu e o veredito foi pela culpabilidade. O juiz definirá a pena, vamos esperar. Entra o juiz, todos se levantam e a ré já está pronta para ouvir a sentença. O juiz, sem delonga alguma e com uma brevíssima exposição de motivos declara: assassinato do esposo por motivo torpe e fútil. Condeno a ré, Jéssica Joabe, a vinte e três anos de prisão.

O julgamento foi rápido, seco e impiedoso. Jéssica sofrerá por vinte e três anos em um presídio. Isolada e privada de sua liberdade. Prisioneira! Sua advogada se esforçou, mas as evidências eram muitas e não permitiam restar dúvidas. Como dizem: apodrecerá na cadeia.

Jéssica trabalhava como voluntária em um hospital de crianças com câncer. Cuidava da casa e de seus dois filhos. Tinha um ótimo casamento, um bom marido. Não havia motivo algum para matá-lo. Nem sequer suspeitar de um crime passional. Jéssica era uma mulher virtuosa e acima de qualquer suspeita. Por que então, um acusamento com tamanha convicção de todos?

Há mais ou menos um mês Jéssica voltava do hospital a pé como de costume. Já estava escuro, ou quase escuro, a hora em que o dia se mistura com a noite e a visão se turva. Passava por um beco ermo quando viu um corpo caído no chão e com uma faca enterrada no peito. O corpo estava imóvel e havia muito sangue derramado na terra. Jéssica se aproximou e quando mais perto, reconheceu o marido ali caído e sem movimento. Ela gritou, apavorou-se e em um ato contínuo tentou tirar a faca cravada no peito do marido. Porém, seus gritos haviam chamado atenção de algumas pessoas que em um átimo se aproximaram, vendo in loco, Jéssica arrancar o punhal que estava fincado bem no osso esterno do marido. Neste instante o moribundo exalou seu último suspiro. Jéssica tinha acabado de matar o homem e não, em seu ingênuo desespero, tentado salvá-lo. Esta foi a conclusão.

O leitor acredita que ela seja inocente. Acredita, pois confia no narrador. Mas, este pode muito bem estar enganado ou mesmo mentindo. Com quem iria Jéssica argumentar? O narrador não é um humano como ela. Como, então poderia responder-lhe e enfrentá-lo em juízo? Se pelo menos houvesse alguém para servir de árbitro entre eles, para impor as mãos sobre ambos! Não é este o caso, visto que não há.

Jéssica foi amassada, moída, perdeu tudo, sua família e sua liberdade. Vive em inteira solidão e completamente amargurada. Nem mesmo aqueles do hospital lembravam-se dela. Seus filhos muito menos. Jéssica ora a Deus: bem sabes que não sou culpada, mas ninguém há que me livre da Tua mão. Sei também que não me tens por inocente. Quem, então poderá dizer que sou? Tu és a justiça e sabes que humano algum merece recompensa. Suplico, todavia, a tua graça e a tua misericórdia; tudo mais é esforço em vão.

Jéssica Joabe faleceu no vigésimo ano do cumprimento de sua pena. Expirou no presídio e foi enterrada como indigente. Ninguém reclamou o corpo. Ela sempre afirmou sua inocência e ausência de qualquer iniquidade sobre si. Mulher virtuosa! Contudo, ninguém há que possa livrá-la das mãos de Deus. Padecem igualmente ambos, tanto o justo quanto o pecador, tanto o bondoso quanto o perverso.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A Moça com a Valise


A Moça com a Valise

O Sol parou e a Lua ficou onde estava, até que o povo tivesse derrotado seus inimigos.
Como está escrito no livro de Jasar.
O Sol parou no meio do céu e não se pôs por cerca de um dia inteiro.

Josué 10.13


Na cidade de Pataskala no estado de Ohio há um renomado hospital veterinário: o Animal Hospital of Pataskala. Walery Zurlini, médica veterinária, trabalha neste hospital há mais de trinta anos. Além do trabalho Walery frequenta assiduamente a biblioteca pública de sua pequena cidade e assiste aos cultos da igreja metodista. Reside em uma modesta casa localizada na Avenida Linda número 200. A residência, o hospital, a igreja e a biblioteca ficam todos bem próximos e o trajeto é feito a pé.

Dizem que a cidade margeia o rio South Fork Licking River. Não é exatamente um rio, mas uma comprida confluência de córregos que deleita os habitantes de Pataskala. Este esdrúxulo nome se origina de línguas de tribos indígenas do extremo leste Delaware ou Dalamare.

Walery se dedica aos cuidados sanitários da pecuária da suinocultura e da criação dos galiformes. Trabalha muito visitando todos os dias fazendas da região. Sempre calçando botas e carregando sua valise com aparelhos e medicamentos de uso rotineiro.

A biblioteca pública tem um acervo razoável e como cientista, Walery a frequenta constantemente para estudar e se manter atualizada. A Doutora Zurlini faz parte de um grupo bastante restrito de pessoas influentes de Pataskala. Este grupo se caracteriza por não acreditar em alguns fatos tidos como certos. Acreditam que a Terra é plana, por exemplo. O Sol e a Lua que se movem, e não a Terra. Em alusão ao elo perdido, o líder do grupo diz: do ovo de um jacaré não sai uma galinha. Afirmam com veemência: uma classe não se transforma em outra por seleção natural seguindo a lei da sobrevivência do mais apto. Mostre-me um fóssil de uma classe intermediária!

O líder deste grupo chama-se Lorenzo, um rico negociante e vereador da cidade. Pode parecer estranho a senhora Walery fazer parte desta gente. Como uma cientista pode ter estas crenças, ou melhor, não ter as outras crenças? Walery afirma com a maior tranquilidade: sendo a Terra plana ou não eu vou à padaria e volto todos os dias. Esta frase resumia perfeitamente a atitude do grupo. Não há necessidade de saber o que não traz consequência. O significado de um conceito consiste em suas consequências. Walery certa vez leu um volume de W. James na biblioteca e se entusiasmou.

Com a influência de Lorenzo fundaram um clube. Os membros tinham carteirinha e contribuíam mensalmente para custear a manutenção e as atividades. Alugaram uma casa para ser a sede da organização. Havia uma sala de jogos, um bar, salas para reuniões temáticas, uma ampla copa e cozinha. Havia ainda um auditório adaptado para conferências, uma pequena biblioteca, sala de estar, varandas e jardins. Diariamente serviam o chá vespertino e uma vez por mês convidavam um conferencista ou palestrantes para mesa-redonda. O clube tem glamour! Elegante e austero. Todos zelam por sua reputação e excelência. O mote do clube é: não se cogita sobre o óbvio.

Hoje, 26 de setembro, última quinta-feira do mês, temos conferência no clube. Chega o conferencista convidado. Recebido muito cordialmente, almoçou no hotel e descansou durante a tarde. A conferência começa às vinte horas. O assunto é intrigante: o homem foi à Lua ou isso não passa de uma armação da NASA? O nome do conferencista é Marcello Tradi. Veio de Chicago e adora uma provocação. Na sala de estar do clube Walery vai ao seu encontro e comenta: Doutor Tradi, descobriram um planeta cuja massa é 0,37% da massa de sua estrela. A massa de Júpiter é 0,09% da massa do Sol. Logo, este planeta não pode existir. O Doutor prontamente concorda com ela. Com toda razão senhora, disse ele. Walery continua: o avião da Malásia ainda não foi encontrado. Tenho certeza que o voo MH370 não existiu, inventaram esta história com algum propósito. Certamente senhora! Não há dúvida alguma, exclamou o doutor.

Começa a conferência. Marcello informa: sobe para 113 os locais com manchas de óleo no litoral nordeste do Brasil. Um senhor do auditório interrompe: há alguém contando manchas misteriosas de óleo? Walery se levanta e também fala, aproveitando a interrupção feita pelo senhor: li no jornal hoje pela manhã que os recifes do Amazonas que não existiam estão vivos e crescendo, falaram que eles existem, sim.

Não há como começar a conferência, murmúrio completo. Por inabilidade ou propositalmente Marcello começou mal ao lançar informação fora do tema. Cada um dos ouvintes agora triunfa com citações de manchetes descabidas. O auditório se transforma em um ensaio de orquestra, diria Fellini. O Federico cujo pai esqueceu-se de colocar o “r” que agora falta. Marcello vai ao microfone e silencia o auditório. Vou dar início à palestra, diz ele.

A plateia já em silêncio; Marcello fala: o fato de ter ido à Lua ou não é completamente irrelevante, não faz diferença alguma, assim como o fato da Terra ser redonda ou plana. Este clube é paradoxal. Qual é o mote? Todos respondem em coro: não se cogita sobre o óbvio. Estão vendo? Paradoxal! A existência do clube já é uma cogitação sobre o óbvio.
Não tem sentido este clube, sua existência também não faz a menor diferença, pura inocuidade! As crenças do clube são óbvias, logo não há necessidade de indagações ou reflexões. O ditado antigo já dizia: com elas ou sem elas o mundo continua tal e qual. Encerremos por hoje e vamos ao lanche. Muito obrigado, agradeceu Marcello Tradi.

No dia seguinte Lorenzo faz uma visita a Walery e decidem não desfazer o clube, mas transformá-lo em espaço cultural, uma espécie de campo de gravidade artificial.