Recompensa
e Justiça
Quando uma nação
cai nas mãos dos ímpios, Deus venda os olhos de seus juízes.
Jó 9.24
Jéssica,
seu caso é muito difícil! Não será nada fácil persuadir o juiz a reduzir sua
pena. Eu, como sua advogada, tenho a obrigação de dizer-lhe isso. O júri já se
decidiu e o veredito foi pela culpabilidade. O juiz definirá a pena, vamos
esperar. Entra o juiz, todos se levantam e a ré já está pronta para ouvir a
sentença. O juiz, sem delonga alguma e com uma brevíssima exposição de motivos declara:
assassinato do esposo por motivo torpe e fútil. Condeno a ré, Jéssica Joabe, a
vinte e três anos de prisão.
O
julgamento foi rápido, seco e impiedoso. Jéssica sofrerá por vinte e três anos
em um presídio. Isolada e privada de sua liberdade. Prisioneira! Sua advogada
se esforçou, mas as evidências eram muitas e não permitiam restar dúvidas. Como
dizem: apodrecerá na cadeia.
Jéssica
trabalhava como voluntária em um hospital de crianças com câncer. Cuidava da
casa e de seus dois filhos. Tinha um ótimo casamento, um bom marido. Não havia
motivo algum para matá-lo. Nem sequer suspeitar de um crime passional. Jéssica
era uma mulher virtuosa e acima de qualquer suspeita. Por que então, um
acusamento com tamanha convicção de todos?
Há
mais ou menos um mês Jéssica voltava do hospital a pé como de costume. Já
estava escuro, ou quase escuro, a hora em que o dia se mistura com a noite e a
visão se turva. Passava por um beco ermo quando viu um corpo caído no chão e
com uma faca enterrada no peito. O corpo estava imóvel e havia muito sangue
derramado na terra. Jéssica se aproximou e quando mais perto, reconheceu o
marido ali caído e sem movimento. Ela gritou, apavorou-se e em um ato contínuo
tentou tirar a faca cravada no peito do marido. Porém, seus gritos haviam
chamado atenção de algumas pessoas que em um átimo se aproximaram, vendo in
loco, Jéssica arrancar o punhal que estava fincado bem no osso esterno do
marido. Neste instante o moribundo exalou seu último suspiro. Jéssica tinha
acabado de matar o homem e não, em seu ingênuo desespero, tentado salvá-lo.
Esta foi a conclusão.
O
leitor acredita que ela seja inocente. Acredita, pois confia no narrador. Mas,
este pode muito bem estar enganado ou mesmo mentindo. Com quem iria Jéssica
argumentar? O narrador não é um humano como ela. Como, então poderia
responder-lhe e enfrentá-lo em juízo? Se pelo menos houvesse alguém para servir
de árbitro entre eles, para impor as mãos sobre ambos! Não é este o caso, visto
que não há.
Jéssica
foi amassada, moída, perdeu tudo, sua família e sua liberdade. Vive em inteira
solidão e completamente amargurada. Nem mesmo aqueles do hospital lembravam-se
dela. Seus filhos muito menos. Jéssica ora a Deus: bem sabes que não sou
culpada, mas ninguém há que me livre da Tua mão. Sei também que não me tens por
inocente. Quem, então poderá dizer que sou? Tu és a justiça e sabes que humano
algum merece recompensa. Suplico, todavia, a tua graça e a tua misericórdia;
tudo mais é esforço em vão.
Jéssica
Joabe faleceu no vigésimo ano do cumprimento de sua pena. Expirou no presídio e
foi enterrada como indigente. Ninguém reclamou o corpo. Ela sempre afirmou sua
inocência e ausência de qualquer iniquidade sobre si. Mulher virtuosa! Contudo,
ninguém há que possa livrá-la das mãos de Deus. Padecem igualmente ambos, tanto
o justo quanto o pecador, tanto o bondoso quanto o perverso.
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