sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A Moça com a Valise


A Moça com a Valise

O Sol parou e a Lua ficou onde estava, até que o povo tivesse derrotado seus inimigos.
Como está escrito no livro de Jasar.
O Sol parou no meio do céu e não se pôs por cerca de um dia inteiro.

Josué 10.13


Na cidade de Pataskala no estado de Ohio há um renomado hospital veterinário: o Animal Hospital of Pataskala. Walery Zurlini, médica veterinária, trabalha neste hospital há mais de trinta anos. Além do trabalho Walery frequenta assiduamente a biblioteca pública de sua pequena cidade e assiste aos cultos da igreja metodista. Reside em uma modesta casa localizada na Avenida Linda número 200. A residência, o hospital, a igreja e a biblioteca ficam todos bem próximos e o trajeto é feito a pé.

Dizem que a cidade margeia o rio South Fork Licking River. Não é exatamente um rio, mas uma comprida confluência de córregos que deleita os habitantes de Pataskala. Este esdrúxulo nome se origina de línguas de tribos indígenas do extremo leste Delaware ou Dalamare.

Walery se dedica aos cuidados sanitários da pecuária da suinocultura e da criação dos galiformes. Trabalha muito visitando todos os dias fazendas da região. Sempre calçando botas e carregando sua valise com aparelhos e medicamentos de uso rotineiro.

A biblioteca pública tem um acervo razoável e como cientista, Walery a frequenta constantemente para estudar e se manter atualizada. A Doutora Zurlini faz parte de um grupo bastante restrito de pessoas influentes de Pataskala. Este grupo se caracteriza por não acreditar em alguns fatos tidos como certos. Acreditam que a Terra é plana, por exemplo. O Sol e a Lua que se movem, e não a Terra. Em alusão ao elo perdido, o líder do grupo diz: do ovo de um jacaré não sai uma galinha. Afirmam com veemência: uma classe não se transforma em outra por seleção natural seguindo a lei da sobrevivência do mais apto. Mostre-me um fóssil de uma classe intermediária!

O líder deste grupo chama-se Lorenzo, um rico negociante e vereador da cidade. Pode parecer estranho a senhora Walery fazer parte desta gente. Como uma cientista pode ter estas crenças, ou melhor, não ter as outras crenças? Walery afirma com a maior tranquilidade: sendo a Terra plana ou não eu vou à padaria e volto todos os dias. Esta frase resumia perfeitamente a atitude do grupo. Não há necessidade de saber o que não traz consequência. O significado de um conceito consiste em suas consequências. Walery certa vez leu um volume de W. James na biblioteca e se entusiasmou.

Com a influência de Lorenzo fundaram um clube. Os membros tinham carteirinha e contribuíam mensalmente para custear a manutenção e as atividades. Alugaram uma casa para ser a sede da organização. Havia uma sala de jogos, um bar, salas para reuniões temáticas, uma ampla copa e cozinha. Havia ainda um auditório adaptado para conferências, uma pequena biblioteca, sala de estar, varandas e jardins. Diariamente serviam o chá vespertino e uma vez por mês convidavam um conferencista ou palestrantes para mesa-redonda. O clube tem glamour! Elegante e austero. Todos zelam por sua reputação e excelência. O mote do clube é: não se cogita sobre o óbvio.

Hoje, 26 de setembro, última quinta-feira do mês, temos conferência no clube. Chega o conferencista convidado. Recebido muito cordialmente, almoçou no hotel e descansou durante a tarde. A conferência começa às vinte horas. O assunto é intrigante: o homem foi à Lua ou isso não passa de uma armação da NASA? O nome do conferencista é Marcello Tradi. Veio de Chicago e adora uma provocação. Na sala de estar do clube Walery vai ao seu encontro e comenta: Doutor Tradi, descobriram um planeta cuja massa é 0,37% da massa de sua estrela. A massa de Júpiter é 0,09% da massa do Sol. Logo, este planeta não pode existir. O Doutor prontamente concorda com ela. Com toda razão senhora, disse ele. Walery continua: o avião da Malásia ainda não foi encontrado. Tenho certeza que o voo MH370 não existiu, inventaram esta história com algum propósito. Certamente senhora! Não há dúvida alguma, exclamou o doutor.

Começa a conferência. Marcello informa: sobe para 113 os locais com manchas de óleo no litoral nordeste do Brasil. Um senhor do auditório interrompe: há alguém contando manchas misteriosas de óleo? Walery se levanta e também fala, aproveitando a interrupção feita pelo senhor: li no jornal hoje pela manhã que os recifes do Amazonas que não existiam estão vivos e crescendo, falaram que eles existem, sim.

Não há como começar a conferência, murmúrio completo. Por inabilidade ou propositalmente Marcello começou mal ao lançar informação fora do tema. Cada um dos ouvintes agora triunfa com citações de manchetes descabidas. O auditório se transforma em um ensaio de orquestra, diria Fellini. O Federico cujo pai esqueceu-se de colocar o “r” que agora falta. Marcello vai ao microfone e silencia o auditório. Vou dar início à palestra, diz ele.

A plateia já em silêncio; Marcello fala: o fato de ter ido à Lua ou não é completamente irrelevante, não faz diferença alguma, assim como o fato da Terra ser redonda ou plana. Este clube é paradoxal. Qual é o mote? Todos respondem em coro: não se cogita sobre o óbvio. Estão vendo? Paradoxal! A existência do clube já é uma cogitação sobre o óbvio.
Não tem sentido este clube, sua existência também não faz a menor diferença, pura inocuidade! As crenças do clube são óbvias, logo não há necessidade de indagações ou reflexões. O ditado antigo já dizia: com elas ou sem elas o mundo continua tal e qual. Encerremos por hoje e vamos ao lanche. Muito obrigado, agradeceu Marcello Tradi.

No dia seguinte Lorenzo faz uma visita a Walery e decidem não desfazer o clube, mas transformá-lo em espaço cultural, uma espécie de campo de gravidade artificial.

Nenhum comentário:

Postar um comentário