sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O menino do cavalinho de pau

 

O menino do cavalinho de pau

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra...

Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

 Mateus6.19-21

Diogo Moreira Carvalho. Funcionário público aposentado vivia com a esposa em um apartamento modesto. Todas as manhãs quando se levantava a esposa já tinha coado café e já se encontrava sentada à mesa ouvindo a mensagem do pastor. Diogo chegava à copa, abria a janela e apreciava o dia. Era seu momento de oração e as andorinhas vinham e alegravam o céu. Urubus volteavam. Diogo via nesta ave o profeta Elias que era alimentado por corvos. As aves eram sinais de Deus que o ouvia neste momento.

Na sala havia um retrato pendurado na parede: um menino sentado em um cavalinho de pau. Não se sabia se era uma pintura ou um retrato, mas aquele menino a avó dizia que era seu pai quando criança. Não havia semelhança alguma, mas era o que diziam.

O garotinho da foto segurava uma corneta e usava uma sandalinha com meia. Calça curta e uma blusa com laço branco e largo. Cabelo claro e um leve topete. Sorriso bonito, delicado, suave; demonstrava uma felicidade genuína e pura, própria de uma criança.

Diogo casara-se com uma cantora lírica - Anna Netrebko - nascida na União Soviética e hoje não se sabe mais em qual país nasceu. Mudou-se para o Brasil, conheceu Diogo, bem mais velho que ela e se casaram. Tiveram um filho e Anna trabalhava no conservatório ministrando aulas de canto.  Era uma grande cantora e viajava muito para participar como solista em várias óperas ou apresentações musicais de baixo e médio porte. Pelo fato de ter nascido na União Soviética e muito pobre na infância, não foi bem recebida na Áustria. Sendo assim veio para o Brasil. Diogo ficava impressionado com o nome Netrebko, ele dizia que o pai de Anna titubeou na hora do registro e não sabia se colocava b ou k. Na dúvida ele colocou as duas letras e pronto.

O pai de Diogo era arquiteto. Trabalhava como freelance em várias construtoras. Detestava Niemeyer e quando perdeu o concurso realizado para a construção de Brasília ficou indignado. Dizia: como aquele arquiteto desqualificado pode vencer o concurso? Carta marcada, na certa!

Em sua vida fez inúmeros projetos de casas e prédios. Ainda jovem, depois de casado, foi ser funcionário público. Trabalhou em serviço de saneamento de água e esgoto em cidades pequenas no interior do Estado. Gostava de pintar e se gabava de nunca ter vendido um quadro, não porque fossem ruins, mas por exaltação à sua arte: não era digna de ser vendida. Construiu duas casas para si, morou nas duas. Curioso é que as duas casas eram iguais, o mesmo projeto. Mas, o menino do cavalinho de pau não pensava assim. Ambas eram a expressão máxima de sua criatividade arquitetônica, digna de Vitrúvio. Seu maior prazer era reunir celebridades em sua casa. Diogo tirou grande proveito deste hábito. Conheceu maestros, filósofos, médicos, psiquiatras, políticos e muito mais. Assim Diogo adquiriu um grande conhecimento e um fervoroso gosto de aprender. Dizia sempre: conhecer não é uma necessidade, mas um desejo.

Diogo viajava muito com o pai, sempre a serviço, o levava junto. Gostavam de assistir filmes e Diogo sabia todos de cor. Filmes bons como “Arroz Amargo”, “Ladrão de Bicicleta”, todos deste tipo. O menino do cavalinho de pau foi bom aluno e gostava de estudar, sabia qualquer assunto e conversava com Diogo sobre tudo: ciência, tecnologia, filosofia, arte, religião e vários outros assuntos. Ele ensinou a Diogo a gostar do conhecimento, a desejar o saber. Entre os livros de uma imensa biblioteca cresceu Diogo!

O menino do cavalinho de pau era um grande piadista. A especialidade de suas piadas era essa: a piada só tem graça pela sua falta de graça! Charadas portuguesas também o atraíam. Quando ouviam uma piada os netos já gritavam: esta é do vovô. Não porque já tinha sido contada antes, mas pelo estilo: a graça estava na falta de graça.

Diogo gostava de repetir as charadas: está no buraco (duas); está no alto da igreja (duas). Conceito: está muito doente. Solução: (tatu); (sino); conceito: tatu-sino, muito doente. A outra: está no Banco (duas); está no nariz (três); conceito: é um grande cozinheiro. Solução: (cheque); (espirro); conceito: Shakespeare. O quê? Claro, ele não é o autor da omelete?

Diogo também apreciava os atores idolatrados pelo menino do cavalinho de pau. Atores como Anthony Quinn do filme Zorba, o Grego; apaixonado por Ingrid Bergman no filme Joana D’Arc; detestava Charlton Heston, mas assistia aos filmes. Para ele não havia distinção entre ator e personagem, na verdade o que de fato existia era o personagem.

O fato curioso da foto é que ninguém sabia nada sobre ela: quem tirou a foto, quem pintou, em qual ocasião e informações rotineiras que se tem sobre uma foto guardada por muitos anos pendurada na parede. Não havia semelhança entre o menino da foto e o pai de Diogo, mas ninguém comentava: diziam sempre que era ele sim, o pai do Diogo. Será que estavam em um parque de diversão e algum fotógrafo ambulante tirou a foto? Pouco provável, pois o quadro era demasiado grande!

Certa vez o menino do cavalinho de pau resolveu que iria escrever um livro e traduzir a Divina Comédia. Diogo falou: pai, isso é delírio, o senhor vai escrever sobre qual assunto? O senhor não sabe italiano, como vai traduzir? Ele então, respondeu: vou escrever sobre religião. Quanto a tradução você se engana, eu conheço muito bem a língua italiana, pois meu avô era italiano. Começou a escrever, sentava-se em sua biblioteca, nada pequena, e ficava horas e horas, lendo e escrevendo. Escreveu cinco livros. O menino lia importantes livros sobre cristianismo e ia aos poucos juntando e copiando os parágrafos que gostava. Emendava-os de forma a fazer sentido - ele não era nada bobo. Diogo chegou uma vez á biblioteca e perguntou ao pai: quem vai publicar seus livros? Escritos à mão com lápis e várias canetas coloridas, os livros eram digitados por uma secretária. Diogo leu algumas partes e fez mais uma pergunta: pai, está cheio de erro aqui, ortografia, digitação e frases soltas sem citações. O pai olhou, fitou bem os olhos do filho e sorriu como quem diz: não sabe de nada pequeno!

O narrador dessa história não sabe das coisas! Eu sabia muito bem o que ele iria fazer. Simples: ele pagou uma gráfica e um editor. Mandou fazer três mil cópias de cada um e distribuiu para os amigos. Ainda me disse: você acha que eu iria deixar uma editora dar palpite em meu livro? Eu disse então: pai, mas e se alguém perceber que o senhor fez cópias de outros livros? Ele respondeu: e daí! Qual é o nome que está escrito aí no livro, o autor não sou eu? Então fui eu que escrevi. Quem copiou foi o outro. Completou: o leitor está lendo o meu livro, logo quem escreveu fui eu e ponto final. Não me incomode mais com essas idiotices.

Antes de construir duas casas suntuosas ele costumava falar: a parte mais importante da casa é a cozinha, lugar que todos encontram com muito mais frequência e as conversas giram em volta dos melhores temas. Quando construiu, as entradas principais das duas casas eram pela cozinha e esta ocupava o lugar da frente da casa e não dos fundos. Narrador, escreve isso aí, você não sabia dessa, não é mesmo?

Um dia chegou com quatro coros de onça parda. Minha mãe perguntou: para que isso? Ele respondeu irritado: ora, para fazer tapete. E onde você conseguiu isso, perguntou minha mãe. Ouviu a seguinte resposta: em Pirapora, fui caçar com quatro amigos, armamos uma armadilha com um novilho e à noite as feras apareceram. Se gabando muito e rindo, disse: levaram chumbo!

Suas aulas eram brilhantes, sabia de verdade o que ensinava e eu aprendia, também de verdade. Suas mãos magras com dedos compridos foram feitas para desenhar. Usava com maestria o compasso, a régua, os esquadros e o transferidor. Adorava trabalhar em serviços de topografia. Diogo o acompanhava mata adentro ajudando a carregar o tripé do aparelho que media azimutes.

A maior dificuldade que existia era saber quando estava falando sério e quando estava brincando. Inventava casos relevantes a partir de uma história banal. Era como se a realidade fosse pequena demais para ele. O mundo tinha que ser contado, e para contar o mundo havia de inventar, a invenção o tornava mais real. Nunca citava a fonte, e quando citava possivelmente era inventada. Não havia autor, pois o autor era sempre ele. Uma personalidade fascinante! Ganhava muito dinheiro, mas perdia muito também, minha mãe é que controlava as finanças. Trabalho era palavra inexistente, sempre era diversão - podemos até compará-lo com Dom Quixote! Seria ultrajante, pois Dom Quixote é que o imitava.

Olho para Anna e sempre pergunto: este homem foi um dia aquele menino do cavalinho de pau? Por que não existem outras fotos dele quando pequeno? Ninguém nunca respondeu, mas também não me lembro de ouvir alguém perguntando. Resta agora apenas sua foto rota, o menino se foi. Seus inimigos foram apenas moinhos de vento. A cornetinha na mão, sua espada flamejante; e o cavalinho de pau, seu corcel exuberante e imponente.

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