Vós
que dormis quase eternamente
E o Senhor Deus
lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore
do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás.
Gênesis2.16,17
And the LORD God commanded the man, saying, Of euery tree of the Garden thou mayest freely. But of the tree of the knowledge of good and euill, thou shalt note ate of it: for in the day that thou eatest thereof, thou shalt surely die.
Genesis2.16,17
Original 1611
Edition, King James Version.
O
queijo está maravilhoso! Exclamou o maestro que comia acepipes na casa do
comendador. Um espanhol chamado Seu Santos comia exageradamente e irritava o
comendador que euforicamente bebia vinho e contava lorotas. Dois maçons se
lambuzavam com berinjela em conserva e pão árabe. Uma pianista comia coalhada
seca e flertava com o maestro. Um operário italiano que se tornou brasileiro
depois da guerra tinha seu lugar cativo. A dona da casa, esposa do comendador,
sempre alegre, observava os comensais enquanto conversava com um grupo de
mulheres em outra mesa.
Assim se conduzia a manhã de sábado, quase todo sábado. As pessoas não eram as mesmas e havia muita variação. Eram muitos os conhecidos do comendador e que jamais desprezavam uma boa comida e companhia influente.
Nestes encontros todos se exibiam. Cada um batia palma para o outro em troca também de palmas. Todo o banal se transformava em proeza. Não havia ninguém mau, ninguém errado e todos tinham bom gosto. Vidas sem medo, sem temor. Desconheciam eles o horror da desobediência, o horror das consequências - a ilusão de que podemos enganar a morte! Não sabiam o que é o abandono, o ser distante, o inalcançável!
O delegado tinha câncer na bexiga e morreu em poucos meses. O comendador exclamou: enterramos o delegado! O professor de artes amanheceu com uma gastrite, fez exame e era o mal do estômago. Morreu de infecção hospitalar. O maestro, homem sábio, culto, conhecido na sociedade, se submeteu a um procedimento médico para extrair pólipos do intestino. Morreu na mesa de operação. Em sua homenagem a orquestra local tocou o Requiem de Verdi. O que dormiu havia pedido esta homenagem quando fosse. O operário italiano que participou da Segunda Guerra Mundial, aliado dos alemães, passou seis anos no campo de concentração inglês - entrou pesando oitenta quilos e saiu com apenas quarenta quilos, sobreviveu. Este, porém, apesar de ter sobrevivido à guerra no norte da África e à prisão desumana dos ingleses morreu ainda jovem aqui no Brasil de infecção hospitalar quando foi simplesmente retirar um quisto alojado perto da coluna torácica. Sua esposa também faleceu alguns anos depois de esclerose múltipla. Seus dois filhos sumiram no mundo e ninguém tem mais notícias deles.
A casa do comendador era enorme. Tinha uma lareira imponente de três andares, a mesma chaminé abraçava três fornalhas, uma em cada andar. O comendador se orgulhava e recebia a glória pelo feito arquitetônico.
O franco-maçom que juntamente com seu pai frequentava a casa morreu de repente infartado. Apesar de tudo isso essa gente não conhecia a dor, não sabiam eles o que era sofrimento. Talvez se parassem para pensar que as consequências do pecado doem...! Um médico, que se achava escritor e gostava de escandalizar com suas teorias expostas em seus livros, morreu de anemia aguda.
A esposa do comendador era uma profissional da área da saúde. Possuía um grande ciclo de amizades e muita influência. Jamais morreria uma mulher assim, com tantas qualidades e realizações. O desenho em perspectiva nos dá uma ideia da morte: ela é o ponto luminoso que fica no final do túnel ou do desenho. Ele está lá, sempre distante, mas por mais distante que esteja ele chega até nós. Nossa única certeza, a morte, nós não a temos por conclusões, teorias ou deduções. Esta certeza que temos vem do empirismo, pois não há exemplos de uma só pessoa que não morreu. Por indução, nós também dormiremos.
A morte é uma consequência: ela dói, ela é o medo, o desespero e a angústia de todo vivente. Não conheceríamos a dor não fosse a morte, esta consequência infalível e onipresente.
Todos ali eram sumidades em alguma coisa e eram queridos por serem sumidades. Triste aquele que recebe aplausos, diria meu avô. Não percebiam que sumidade é apenas uma construção social, um valor socialmente categorizado e ontologicamente não tem valor algum. A Dama das Camélias soube muito bem disso quando foi exumada.
Os que experimentavam os acepipes eram muitos, revezavam naturalmente de modo que nunca havia mais de sete ou oito presentes. A reunião sim, todo sábado de manhã. O comendador não sabia ficar sem ovação. Sua lareira era um totem, um feito que tinha de ser visto e aplaudido.
O ponto de fuga da perspectiva chegou, não avisou, mas chegou. A lareira tríplex foi destruída, os quitutes e acepipes não passavam agora de pão com manteiga para o lanche dos pedreiros que transformavam a mansão sem o menor escrúpulo. Aos herdeiros nada disso ficou, restou apenas uma nostálgica lembrança e a decisão do que deveriam fazer: exterminar e construir uma nova época que cada vez menos olhava para trás.
Lembro-me do salmista: “mais um pouco de tempo, e não existirá o ímpio; procurarás o seu lugar e não o acharás”. Outro salmo também me vem à memória: “Eis que são estes os ímpios; e, sempre tranquilos, aumentam suas riquezas. Entrei então no santuário de Deus e atinei com o fim deles. Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição”.
Alheios à solidão! Porém, certo dia eu ouvi uma conversa do comendador com o maestro. O comendador perguntou se o maestro estava bem, pois andava sumido. O maestro respondeu: senhor comendador, estou bem, mas vez ou outra a solidão me atinge. O comendador por sua vez respondeu ignorando, como sempre, o sofrimento, não só o próprio como também o alheio. Disse: não era para menos, não há mais plateia nem aplausos, a solidão tem mesmo que vir. Esqueça isso e venha cá ao sábado, comprei um vinho delicioso da Calábria.
Quando olhava para a mesa em que todos se celebravam lembrei-me de um pensamento de Jung, qual seja, “O homem não suporta para sempre a sua anulação. Em algum momento haverá uma reação e eu vejo que esta está começando. Todo mundo vai à procura da sua própria existência para garantir contra a completa atomização em direção ao nada ou à insignificância; o homem não pode suportar uma vida insignificante”.
Analisando mais de perto a frase de Jung percebia que ele também fazia parte daquela mesa de acepipes. Como ele vê que a reação já está começando se é algo que sempre existiu? Não tem ele a noção de que o homem para suportar sua insignificância e sua nulidade, finge sua significância de vários modos engenhosos? Convive e acredita na mentira que brota de seu coração, acredita naquilo que finge. Uma dessas engenhosas maneiras é cada um trocar aplausos com o outro. Mal sabem que da morte não se esconde, nem com mentiras nem com crenças naquilo que fingem.
A falta de sentido, ou seu oposto, ambos não passam de mecanismos para se livrar da angústia. Vive, então, assim o homem, se enganando e acreditando em suas proezas. Ele nasce, brinca de pique esconde, e morre. Simples assim, nada mais que isso. Tudo que sai do propósito e do projeto de Deus para uma vida é nulidade pura. (Deus = Cristo Jesus = Altíssimo Espírito Santo.) Digo isso para acabar de vez com a ideia de ecumenismo e com o sincretismo religioso. Ou é Cristo ou é nulidade. Como já faleceu, não adianta mais orar por Jung. Infelizmente! Porém, assim como David, creio eu que verei a bondade do Senhor entre os viventes. Jung deveria ter percebido que o problema do homem é na verdade a sua autoestima exacerbada e não a baixa estima. Se tivesse lido Jo3.30 teria ele mais conhecimento sobre a mente humana: Convém que ele cresça e que eu diminua. Assim falou João Batista quando seus discípulos estavam o abandonando para seguirem Jesus. Um homem correto não fica dando chilique de adolescente que perdeu a atenção nem lutando contra a atomização em direção ao nada. Um homem com a mente sã não leva em conta sua significação ou sua nulidade, ele simplesmente é.
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