quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1614 (J1578)


Emily Dickinson - Poema F1614 (J1578)

Poema escrito a lápis em 1883. Fazia parte de um cartão endereçado a Cornelia Sweetser, possivelmente acompanhava um presente: um bolo e flores. Há uma citação bíblica que precede o poema, mas há dúvidas se a citação faz parte ou não do poema. Vamos considerar que faz parte. O poema foi publicado em 1939.

Blossoms, and Cakes, and Memory! “Choose ye which ye will serve”! I serve the Memory -

Blossoms will run away -
Cakes reign but a Day,
But Memory like Melody,
Is pink eternally -

A bíblia utilizada por ED muito provavelmente foi a versão King James de 1611. Esta versão é utilizada até hoje. A citação que está entre aspas, está em Josué24.15. Em inglês a frase bíblica é esta: “choose you this day whom ye will serve”. É uma parte do versículo 15. Reparamos que ED muda “you” por “ye”, e também utiliza “which” no lugar de “whom”. Elimina ainda a expressão “this day”.

A tradução oficial desta passagem bíblica é a seguinte: “escolhei neste dia a quem servireis”. Uma tradução mais próxima é: “escolhei-vos neste dia a quem vós servireis”. Apenas uma questão do pronome “ey” = vos ou vós, que em inglês é muito elegante. Vejam que ED usou “ey” no lugar de “you”.

A troca da palavra “whom” por “which” foi proposital, visto que a resposta que a autora iria dar seria algo não pessoalizado, no caso “Memory”.

A retirada da expressão “this day” é compreensível, visto que ED quer fazer da citação bíblica uma frase atual, para aquele momento da entrega do presente.

Vamos à tradução:

Flores, e Bolos, e Memória! “Escolhei-vos neste dia a quem vós servireis”! Eu sirvo a Memória -

Flores serão rapidamente retiradas -
Bolos reinam a não ser por um Dia,
Mas, Memória assim como Melodia,
É eternamente cor-de-rosa -

Bem, perdemos completamente o ritmo e as aliterações sublimes do poema em inglês. Mas, é exatamente isso que a autora diz no poema. A expressão “run away” significa que algo se afasta rapidamente do lugar que estava. Normalmente traduzida como “fugir”. Não é este o caso que tratamos aqui, pois flores não fogem. O que a autora quer dizer é que elas se afastam rapidamente, e em inglês há uma expressão para designar isso, as flores rapidamente são retiradas. Alguém as recebe, coloca em um vazo e as afasta, ou mesmo já no vazo elas duram pouco, rapidamente murcham, secam ou são retiradas e jogadas fora. As flores não são imarcescíveis. Isso explica a tradução escolhida. Como sempre digo, fica a cargo do leitor encontrar palavras ou expressões em português que formem um texto mais poético. (Flores não serão imarcescíveis -).

A palavra “pink” funciona como adjetivo e como adjetivo ela significa apenas a cor rosa. Em outras classes morfológicas “pink” tem vários outros significados, pode ser até verbo. No nosso caso é adjetivo e o único sentido possível é cor-de-rosa.

A autora introduz no poema a palavra melodia. Ela começa enfatizando a “memória”, ela serve a “memória”, sendo o verbo transitivo direto - (trabalhar em favor de). Na quarta linha usa o verbo ser no singular para concordar apenas com “memória” deixando de lado a palavra “melodia” que de repente aparece no poema. Podemos pensar que foi apenas uma palavra bonita e agradável que rima perfeitamente com “memória” - (“memory; melody”) e mantém o ritmo da terceira linha conjugando-a com a primeira e principalmente com a segunda. Porém, o filho de Cornelia era músico, cantor, e costumava ir à casa de ED para saraus musicais, os quais ED fazia muito gosto e apreciava a musicalidade do filho de Cornelia. Isso nos faz concluir que a palavra melodia não foi introduzida apenas por acaso somente para completar o poema. De alguma forma a autora também quis agradar o filho músico de Cornelia e mostrar seu apreço e gosto pela música. Como disse antes, ED não brinca com palavras!

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Considerações Sobre Janis Joplin e Assemelhados


Considerações Sobre Janis Joplin e Assemelhados

De ti farei uma grande nação, e te abençoarei,
e te engrandecerei o nome.
Sê tu uma bênção!
Abençoarei os que te abençoarem e
amaldiçoarei os que te amaldiçoarem;
em ti serão benditas todas as famílias da terra

Gênesis12.2,3

Ann Hallenberg e Sandrine Piau são duas cantoras francesas. Combinaram de se encontrar no apartamento de Sandrine para jantar. Ann iria com o marido Jacob. Não eram raros estes jantares, porém peculiares, pois Jacob nestes encontros ficava a jogar xadrez com Pierre, marido de Sandrine enquanto as duas conversavam. Os dois eram aficionados e uma só partida podia durar o tempo todo, mas não deixavam vez ou outra, de opinar e palpitar sobre a conversa das duas. Conversavam sobre vários assuntos, principalmente músicas e músicos! Ann e Sandrine, duas cantoras renomadas! Fizeram parte da equipe que gravou a descoberta, no Piemonte, de uma grande quantidade de partituras escritas por Vivaldi: Edição Vivaldi, Tesori Del Piemonte - naïve Vivaldi Edition.

Pierre, na verdade era brasileiro, mas por pernosticismo, adotou o nome Pierre. Sandrine achou a decisão muito amável e passou a chamá-lo pelo nome francês: Pierre mon amour! Quanta amabilidade!

Ann tinha lido em algum jornal sobre o lançamento de um livro sobre a história do Rock. Isso a fez cogitar sobre a vida e a conduta de três artistas: Janis Joplin, Jimi Hendrix e a mais recente Amy Winehouse. A primeira dúvida: Janis Joplin era nome de mulher ou de homem? Ann e Sandrine não conseguiam explicar a relevância imputada a músicos como esses. Sandrine questionava: três músicos desvalidos, sem estudo, sem técnica, dicção péssima, Janis chega até mesmo ser fanhosa, canta com o nariz entupido, tem problemas sérios com tons agudos, o timbre é muito metálico e pouco volume (potência) de voz. Jimi não sabe adequar o volume da guitarra que, aliás, é um instrumento muito pobre e sem expressão, serve mais para fazer barulho do que música. Jimi tinha um transtorno que não deram ainda um nome: o volume do som nunca era suficiente, as caixas tinham que amplificar mais e mais até estourarem e quando isso acontecia ele dava chilique. Ann comentou apenas sobre Amy, disse que a voz não era ruim, mas precisava ser educada, trabalhada. Falou ainda: aquela música em que ela insiste em um timbre horrível, repetitivo, no, no, no; go, go, go; know, know, know..... a música não sai disso e ainda na letra troca “ye” (you) por “ey”; o que sobra é uma mudez insuportável e todos ficam esperando o no, no, no, .... Ann continuou: como alguém pode ter admiração, se emocionar e mesmo chegar ao delírio com coisas tão ruins, mal feitas e bobas! Sandrine; continuou Ann, não deveríamos questionar o gosto dos outros, pois cada um gosta do que quiser e de acordo com sua capacidade de gostar. Porém, admirar ou idolatrar estes desvalidos, eu realmente não entendo. Falo desvalido em termos de produção artística e não em termos de pessoas humanas, completou Ann. Falo mais, Sandrine, qualidade é qualidade, belo é belo, sublime é sublime, não tem nada de subjetivo não. A falta de estesia é uma deficiência mental ou de educação talvez! Afinal, tem muita gente que quer ser prodígio, mas não quer fazer o dever de casa, todo artista de verdade estuda no mínimo oito horas por dia, disse Sandrine, mas estes vagabundos acham que podem tocar, cantar e ser artista sem estudar e ainda se drogando, sem disciplina alguma.

Lá da mesa de jogo Pierre palpitou: não viram nada meninas; no Brasil tem um senhor, dizem que ele foi o inventor da Bossa Nova. Neste instante Pierre soltou uma gargalhada e ridicularizou: não sei nem o que é Bossa, quanto mais Bossa Nova! Retomou o assunto: este senhor é um cantor e é mudo, impressionante: um cantor mudo que arranha violão. Está envolvido com um estilo de música, se não me engano, acho que se chama MPB, sei lá o que isso significa. Sandrine riu demais. Pierre, falou Sandrine, este senhor é o João Gilberto, eu não sou brasileira e estou sabendo mais do que você! Pierre murmurou algo e continuou o jogo com Jacob.

Ann estava pensativa e perguntou: Sandrine, estamos nós aqui falando de desvalidos que por algum motivo adquiriram celebridade. Todos morreram antes dos trinta anos devido a uso de drogas e vidas desgraçadas que levavam. Fico pensando, disse Ann, todo ano morrem milhares de drogados e ninguém fala deles. Não vejo motivo para evidenciar três vagabundos mentalmente doentes. Sanatórios estão cheios em todo lugar do mundo. Drogados comuns, ou até mais valorosos do que estes três. Sandrine completou enfatizando: a Janis ficou grávida e não sabia quem era o pai. Não há nada mais desonroso para uma mulher do que desconhecer a paternidade, tem que ser muito promíscua! Pois é, disse Ann, iguais a ela existem muitas. Não há realmente motivo para lamentar, a não ser que lamentemos todos os promíscuos e alienados mentais.

Jacob gritou lá do fundo: lamentem-nos, ambos aqui, viciados em xadrez, uma espécie de alienação mental. Ann retrucou: concentre-se no jogo e pare de dar palpite, se não, vou te chamar de judeu. Jacob se irritou: e você é judia. Tripudiou Jacob: todos os seus filhos serão judeus, os meus não. Viu? Fique quietinha aí, terminou Jacob.

Há uma coisa que eu acho que é um dilema, falou Sandrine ao terminar sua taça de Vinho do Porto. Que dilema é esse? Perguntou Ann. Qual a razão, qual o motivo que leva estas pessoas a se tornarem celebridades? Indagou Sandrine. Eu acho que, na verdade, elas fazem “tipos”, assim como no romantismo era chique para um poeta ser tuberculoso e morrer prematuramente, hoje um roqueiro tem que ser drogado e irreverente, pois é chique, faz o “tipo” roqueiro, só isso, concluiu Sandrine. Tem razão, Sandrine, isso é bem verdade. Penso agora em Elton John, continuou Ann, já é idoso, não conseguiu terminar um show porque lhe faltou a voz, deve ter passado constrangimentos por ser homossexual e, no entanto, está ai, normal, sem dar chiliques existenciais.

Já estava ficando tarde e Ann queria concluir alguma coisa. Os dois enxadristas já haviam terminado a partida e não sabiam quem ganhou e quem perdeu. Ann com sua verve hebraica iniciou um discurso: eu não sei quem é mais pateta, se é a delinquente Janis Joplin ou quem a ama. Digo amor ao trabalho dela, se é que podemos falar que ela trabalhou alguma vez na vida. A perda de qualquer vida é lamentável, pois é o fim de uma dádiva divina, mas lamentar a morte de Janis porque a vida dela era promissora é ser muito estúpido. Por que promissora? O que ela fazia a não ser orgia e rebeldia de adolescente? Não casou, fez um aborto de um filho com pai desconhecido, incapaz de qualquer relacionamento, tanto com homem quanto com mulher, afetada, melindrada e se drogava constantemente. Ann parou um instante e exclamou: como uma pessoa pode dar um concerto drogado? Já imaginaram um regente de orquestra regendo sob o efeito de heroína? Claro que isso não existe, logo, estes roqueiros não dão concertos, ficam no palco produzindo catarse em personalidades afetadas. Ann continuou sua fala anterior. Janis e estes outros deveriam seguir os judeus. Não há judeus drogados, solteiros, sem filhos, homossexuais, delinquentes e afetados. Em tudo que fazem são os melhores, só trabalham em coisas relevantes, não têm crises existenciais e não dão chiliques. Alguns adquirem vícios como, por exemplo, o Jacob aqui, viciado em xadrez.

A noite já ia alta quando juntos fizeram uma oração hebraico-cristã e relembraram a promessa que Deus fez a Abrão. Despediram-se carinhosamente. Porém, antes de saírem, o brasileiro Pierre, brincou com Jacob com os seguintes dizeres: Jacob, as meninas hoje, igualmente ao Doutor Bacamarte, construíram uma casa de orates. A ciência o único estudo delas e Itaguaí seu único universo. Jacob não entendeu nadinha e ficou calado. As duas cantoras, curiosas, queriam entender, mas Pierre em vez de resposta direta falou outra coisa tentando explicar:

O Brasil tem João Rosa enquanto a Irlanda tem Joyce.
A Inglaterra não tem Edith Piaf e a França não tem Rick Wakeman.
Não temos Nina Simone e os EUA não têm Chão de Estrelas.
Nunca jogaram bomba atômica no Brasil e o Japão não perdeu a Copa de 1950.

As duas não entenderam e nem Jacob. Despediram-se novamente e partiram carregando a dúvida que também permaneceu em Sandrine.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

CSI

CSI

O melhor deles é como o espinheiro,
e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos.
Chegou o dia anunciado pelas suas sentinelas,
o dia do castigo de Deus.
Agora reinará a confusão entre eles.

Miqueias7.4

...sejam confundidos os que contra mim se levantam.
Cubram-se de ignomínia os meus adversários,
e a sua própria confusão os envolva como uma túnica.

Salmos109.28,29

Cardoso Fonseca, um importante empresário do ramo de materiais hospitalares e laboratoriais, leu em seu jornal matinal uma matéria curta e informativa sobre um seriado chamado CSI. Cardoso se irritou e começou a insultar e ofender o jornalista: o senhor avalia que todos conhecem ou são familiarizados com o tal seriado que nem nome tem? Apenas três letras justapostas! Fonseca continua: você, jornalistazinho de merda, não é meu interlocutor, você não sabe com quem está falando. Amanhã será demitido, ameaçou Fonseca. Vou mandar fechar este jornaleco também, completou.

A esposa de Fonseca olhou para o marido assustada. Cardoso, este seriado CSI não seria Crime Scene Investigation? Fonseca retornou o olhar e falou: quem sabe isso? Onde passa esta porcaria? Amor, este seriado passa na rede de televisão a cabo chamada Sony. O marido fez uma cara de deboche. Minha linda, Sony é marca de televisão e não rede de cabo seja lá o que for isso. O problema é que este miserável e retardado jornalista acha que algo tão particular e tão tribal é de conhecimento geral. Será que o imbecil acha que eu assisto a um obscuro e inexpressivo canal? Não é isso, querida? Sony não é um canal? Sim, isso que eu estava te dizendo, respondeu ela.

Cardoso Fonseca iniciou então uma fala com o jornalista. A fragmentação do conhecimento e das práticas sociais é compreensível seu jornalista idiota. O que não é compreensível, e na verdade insuportável, é ver um profissional da comunicação, ingenuamente, considerar geral o conhecimento de um mero seriado banal que passa em um dos milhares de canais existentes. Você e seu chefe de edição são dois completos alienados em um mundo caído. Não percebem que vocês não podem ser meus interlocutores? Logo, escrevam o jornal para mim e não para qualquer imbecil ler. Amanhã mandarei demitir os dois. Cambada de vira-latas, pensam que por serem jornalistas podem falar comigo.

Terminou o café, jogou o jornal no chão, pegou a pasta e saiu, foi trabalhar. A esposa chamou a empregada e comentou: menina, menina; você viu isso? O Fonseca não está bem da cabeça não! Exclamou a esposa. A empregada concordou e falou: seu Fonseca anda trabalhando muito, liga não, é cansaço. Seu Fonseca ocupa muito a mente no trabalho, ele podia tirar umas férias, seria bom.

A esposa maneou a cabeça e mudou de assunto. Geralda vem cá, deixa eu te contar uma coisa. A empregada Geralda ficou assustada e logo perguntou: o que foi dona Sílvia? A esposa Sílvia, com voz baixa, começou a contar: ontem à noite, Geralda, ele dormiu lendo um livro. Quando ele pegou no sono eu dei uma espiada. O título era alguma coisa com duas letras, GH. Comecei a folhear, lia um pouquinho de cada página. Geralda, que loucura! Exclamou Sílvia. Geralda retrucou: dona Sílvia, trata-se de um dos livros que seu Fonseca sempre lê, ele chama de manual, as letras que a senhora viu eram GE, eu sempre o vejo lendo livros com este nome; é marca lá dos produtos que ele vende. A senhora não precisa se preocupar, concluiu. Claro que não, Geralda, eu sei muito bem distinguir um manual, respondeu Sílvia impacientemente e em seguida continuou falando com firmeza: quem escreveu aquilo deve ter parte com o diabo, só pode! No prefácio, havia uma discussão sobre GH. Acredita que esse GH é uma pessoa, Geralda? Estavam discutindo se GH era homem ou mulher, eu hem! Credo! Em uma das páginas, Geralda, meu marido escreveu uma frase esquisita na margem: Ele escreveu: “sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar” e que esta frase deveria ser lida por uma mulher com o nome de Clarice Lisp... - não entendi o reto da frase. Escreveu ainda que esta frase era a última frase do livro Tractac....Filos....de Wittgens.... - também não consegui ler o restante das letras. Finalizou a nota escrevendo que o livro Tractac... era o livro errado do tal Wittgens.... Neste momento Sílvia olhou para a empregada e disse: acho que estas notas escritas pelo Fonseca são mais confusas do que o livro que ele estava lendo.

A senhora Geralda ficou ouvindo, calada e espantada sem entender o que Sílvia estava dizendo e nem o que ela queria dizer. Apenas exclamou: dona Sílvia, é melhor levar o doutor Fonseca para fazer uns exames de cabeça e dá um sumiço neste livro.

À noite chegou Cardoso Fonseca. Silvia foi abraçá-lo e perguntou-lhe: que livro é aquele que você estava lendo ontem ao deitar-se? Fonseca jogou a pasta no sofá, passou a mão no rosto com expressão de cansado e disse: Meu amor! Foi um comprador que me indicou. Vendi um aparelho para o laboratório de neurociência e o médico - Sérgio Cattoni - dono do laboratório me falou que uma fonoaudióloga o tinha recomendado um adolescente para tratamento de ecolalia. Eu, então perguntei ao Cattoni o que era ecolalia. Não sei o motivo, mas ele deu uma gargalhada devido à minha pergunta e disse-me: Fonseca leia um livro chamado Paixão Segundo GH de uma escritora chamada Clarice Lispector, qualquer banca de jornal vende este livro; pode ler em pdf também. Fonseca continuou a explicação: eu fiquei sem entender o motivo do livro e perguntei: de que se trata o livro e o que tem a ver com ecolalia? Cattoni riu novamente e resolveu me explicar achando tudo muito divertido: Fonseca, você vai ver lá no livro que esta dona termina um capítulo com uma frase e depois começa o capítulo seguinte com a mesma frase. Então, entendeu - Fonseca? Entendi, respondi eu. Completei: como se fosse um eco não é? Isso mesmo, o menino sofre deste mal que a escritora também sofre, ele repete as palavras ou as frases quando fala, esclareceu-me Cattoni.

Sílvia, disse ele, eu fiquei pensativo tentando entender melhor, enquanto Cattoni ria. Acho que ele estava debochando de mim. Cattoni, então saiu apressado dizendo que tinha uma pesquisa para finalizar. Na correria se voltou e disse-me: leia o livro e depois me conte o que achou. Respondi em voz alta antes que ele deixasse a sala: Cattoni; acho que não vai ser fácil curar este garoto não. Fácil não é, mas vou estudar o caso, é sempre interessante pesquisar uma disfunção que vem do cérebro, gritou Cattoni com um tom debochado.

Foi isso, Sílvia. Comprei o livro e comecei a ler ontem ao deitar. Convenhamos, o livro é bem maluco mesmo. Por isso que Cattoni gosta, pois a autora tem transtorno mental! Esta é a área de estudo dele!

Fonseca tomou um banho, jantou e foi para o escritório. Queria ler um pouco mais sobre Wittgenstein e meditar sobre a última frase de seu livro errado “Sobre aquilo que não se pode falar deve-se calar”. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1157 (J1118)


Emily Dickinson - Poema F1157 (J1118)

Poema escrito em 1869 em um fragmento de papel de escritório contendo também o poema F1158, já traduzido. Estes dois poemas escritos neste recorte de papel foram parar nas mãos de Susan Dickinson vinte anos depois da morte de ED. O manuscrito não está endereçado nem assinado. Curioso: Susan já tinha uma cópia do poema F1158 separada deste que vamos traduzir agora.

Exhiliration is the Breeze
That lifts us from the Ground
And leaves us in another place
Whose statement is not found -

Returns us not, but after time
We soberly descend
A little newer for the term
Opon Enchanted Ground -

Notamos de antemão dois erros de ortografia, quais sejam, a primeira palavra “Exhiliration” não está correta, a escrita correta é “Exhilaration”. O editor respeitou a escrita da autora que mesmo depois de rever o poema não corrigiu a ortografia. Na última linha a palavra “Opon” em vez da forma correta “Upon”. Acredito eu que este erro é devido à caligrafia. Um “O” maiúsculo pode parecer com um “U” maiúsculo. Vamos considerar a leitura do editor que na verdade viu o manuscrito original, o leu e achou que realmente parece mais com “O” do que com “U”. Tudo isso não importa muito, mas é interessante penetrar nos rascunhos da criação. Há também quebras de linhas no manuscrito original:

Exhiliration is the Breeze
That lifts us from
the Ground
And leaves us in
another place
Whose statement is
not found -

Returns us not,
but after time
We soberly descend
A little newer for
the term
Opon Enchanted Ground -

Estas quebras de linhas foram modificadas pela própria autora quando passou a limpo os seus poemas e os agrupou em fascículos. O ritmo e as aliterações serão perdidas na tradução.

O poema foi publicado em 1914 como um poema de oito linhas, não havia duas estrofes. Em publicações futuras ele já aparece com duas estrofes de quatro linhas cada uma.

Vamos à tradução. A primeira tentativa é ficar próximo ao texto em inglês.

Alegria é a brisa
Que nos ergue do Chão
E nos coloca em outro lugar
Cujo enunciado não é encontrado -

Não nos retorna, mas após um tempo
Nós sobriamente descemos
Um pouco mais renovados para o prazo
Sobre a Terra Encantada -

Uma dificuldade clara na leitura é identificar que “brisa” é o sujeito do verbo “retornar” que está na primeira linha da segunda estrofe. Não se trata de modo imperativo, visto que o verbo “returns” está conjugado na terceira pessoa do singular. Outra dificuldade é perceber o sentido da palavra “statement” e o sentido da palavra “term”. Uma terceira dificuldade é o reconhecimento da palavra “but” como preposição, adverbio ou conjunção. Não estou falando aqui de dificuldades de tradução, mas de dificuldades intrínsecas ao poema que naturalmente carrega ambiguidades. Ambiguidades estas, que o fazem ser poema e belo.

Vejamos outra tradução:

Divertimento é a Brisa
Que nos levanta (eleva) do Chão
E nos deixa em outro lugar
Cujo enunciado não é encontrado -

Não nos traz de volta, exceto (a não ser) (apenas) depois de um tempo
(Que) Sobriamente descemos
Um pouco mais renovados para o período (duração) (tempo) (prazo)
Sobre a Terra Encantada -

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F944 (J841)

Emily Dickinson - Poema F944 (J841)

A Moth the hue of this
Haunts Candles in Brazil -
Nature’s Experience would make
Our Reddest Second pale -

Nature is fond, I sometimes think,
Of Trinkets, as a Girl.

Poema escrito em 1865 em seus cadernos. A disposição dos versos acima foi a que a autora enviou a algumas pessoas. A disposição primeira segue abaixo.

A Moth the hue of
this
Haunts Candles in
Brazil -
Nature’s Experience
would make
Our Reddest Second
pale -

Nature is fond, I
sometimes think,
Of Trinkets, as a Girl.

Vejamos a tradução.

Uma mariposa! Seu alarido
Rodeia chamas de velas no Brasil -
A Experiência da Natureza tornaria
Pálido, Nosso mais Rosado Instante -

A Natureza é afetuosa, algumas vezes penso,
Em Berloques, como uma Menina.

O poema nos mostra uma qualidade distintiva fundamental de Emily Dickinson, qual seja, extrair de fatos singelos uma profunda reflexão e estesia.

Uma simples mariposa reage à chama da mesma forma, tanto aqui quanto lá, tanto aqui como em terras longínquas. (O Brasil é uma terra remota e exótica no imaginário do Século XIX). A experiência da natureza compartilha conhecimentos sem necessidade de ensinamentos.

Nos quatro primeiros versos a reflexão evolui e nos conduz a um estado de perplexidade perante os feitos da experiência da natureza. Na segunda estrofe, com seus dois versos, há uma ruptura drástica: o estado de perplexidade se transforma em uma admiração pueril: uma menina que enxerga lindos pingentes sem se importar com o valor. Como se olhássemos agora para a natureza sem cogitar nada - apenas contemplar.

A disposição original dos versos me parece mais admirável, visto que enfatiza as aliterações: “this” e “Brazil”; “make” e “pale”. Acredito que Emily modificou a disposição devido a sugestões alheias. Várias pessoas corrigiam seus versos alegando que não estavam escritos de maneira adequada. Fato compreensível, visto que, apesar de Emily ser bem nascida, era uma mulher simples e caseira, quase reclusa, sem trânsito no círculo literário.

Coloquei na tradução um ponto de exclamação no primeiro verso - pertinente, mas desnecessário, pois ele está implícito e a concisão é a essência da estética de um poema. A palavra “chamas” também foi introduzida na tradução para enfatizar a luminosidade de uma vela acesa - em inglês esta ênfase não é necessária: “candle” já conota uma luminosidade. Inverti no quarto verso a ordem do adjetivo “pálido” buscando mais clareza sintática na esperança que esta clareza carregue elementos estéticos. Ação pertinente, mas novamente sem necessidade. Poderia muito bem ter deixado assim:

Nosso mais Rosado Instante pálido -

Na versão perdemos um elemento estético impossível de ser vertido: o vocábulo “hue” além de significar “alarido”, também denota cor, nuança, coloração, matiz. Esta denotação conjuga-se com o superlativo “reddest”, o mais vermelho, rosado. As aliterações, “this”, “Brazil”; “make”, “pale” e “think”, “Trinkets” também foram perdidas na versão.

Ao traduzir também podemos seguir a disposição original. Certamente não teremos aliterações, mas o desenvolvimento da reflexão será enfatizado e ganharemos qualidade poética. Vejamos:

Uma mariposa!
Seu alarido
Rodeia chamas de velas no Brasil -
A Experiência da Natureza tornaria
Nosso mais Rosado Instante
Pálido -

A Natureza é afetuosa, algumas vezes penso,
Em Berloques, como uma Menina.

Temos ainda mais duas opções cada uma com efeitos estéticos distintos. Uma mera troca de palavra produz distinções poéticas significativas. Vamos estudar quatro outros adjetivos no lugar de “Rosado”, a saber, “Corado”, “Rubro”, “Ruborizado” e “Enrubescido”. Poderíamos pensar na palavra “Escarlate”, mas precisamos de adjetivos que contêm manifestação corpórea diante de fenômenos. Logo, escarlate não nos serve, visto que não tem esta conotação, exceto na doença escarlatina.

O poema com a utilização do adjetivo “Corado” nos proporciona uma linda aliteração: corado/pálido. No entanto, uma sílaba a mais no verso tira-lhe força expressiva. O mesmo fenômeno acontecerá com o adjetivo “Ruborizado” e “Enrubescido” - ambos pecam por excesso de sílabas, o que enfraquece o verso. Descartamos, portanto dois deles. Vejamos o poema com o adjetivo “Corado”:

Uma mariposa!
Seu alarido
Rodeia chamas de velas no Brasil -
A Experiência da Natureza tornaria
Nosso mais Corado Instante
Pálido -

A Natureza é afetuosa, algumas vezes penso,
Em Berloques, como uma Menina.

Resta o adjetivo “Rubro”. Duas sílabas apenas. Veremos que a expressividade do verso ficará acrescida, sendo este fato preferível à aliteração produzida pelos outros dois adjetivos - “Rosado” e “Corado”. Atentemos aos versos abaixo:

Uma mariposa!
Seu alarido
Rodeia chamas de velas no Brasil -
A Experiência da Natureza tornaria
Nosso mais Rubro Instante
Pálido -

A Natureza é afetuosa, algumas vezes penso,
Em Berloques, como uma Menina.