Considerações
Sobre Janis Joplin e Assemelhados
De ti farei uma
grande nação, e te abençoarei,
e te
engrandecerei o nome.
Sê tu uma
bênção!
Abençoarei os
que te abençoarem e
amaldiçoarei os
que te amaldiçoarem;
em ti serão
benditas todas as famílias da terra
Gênesis12.2,3
Ann
Hallenberg e Sandrine Piau são duas cantoras francesas. Combinaram de se
encontrar no apartamento de Sandrine para jantar. Ann iria com o marido Jacob.
Não eram raros estes jantares, porém peculiares, pois Jacob nestes encontros
ficava a jogar xadrez com Pierre, marido de Sandrine enquanto as duas
conversavam. Os dois eram aficionados e uma só partida podia durar o tempo
todo, mas não deixavam vez ou outra, de opinar e palpitar sobre a conversa das
duas. Conversavam sobre vários assuntos, principalmente músicas e músicos! Ann
e Sandrine, duas cantoras renomadas! Fizeram parte da equipe que gravou a
descoberta, no Piemonte, de uma grande quantidade de partituras escritas por
Vivaldi: Edição Vivaldi, Tesori Del Piemonte - naïve Vivaldi Edition.
Pierre,
na verdade era brasileiro, mas por pernosticismo, adotou o nome Pierre.
Sandrine achou a decisão muito amável e passou a chamá-lo pelo nome francês:
Pierre mon amour! Quanta amabilidade!
Ann
tinha lido em algum jornal sobre o lançamento de um livro sobre a história do
Rock. Isso a fez cogitar sobre a vida e a conduta de três artistas: Janis
Joplin, Jimi Hendrix e a mais recente Amy Winehouse. A primeira dúvida: Janis
Joplin era nome de mulher ou de homem? Ann e Sandrine não conseguiam explicar a
relevância imputada a músicos como esses. Sandrine questionava: três músicos
desvalidos, sem estudo, sem técnica, dicção péssima, Janis chega até mesmo ser fanhosa,
canta com o nariz entupido, tem problemas sérios com tons agudos, o timbre é
muito metálico e pouco volume (potência) de voz. Jimi não sabe adequar o volume
da guitarra que, aliás, é um instrumento muito pobre e sem expressão, serve
mais para fazer barulho do que música. Jimi tinha um transtorno que não deram
ainda um nome: o volume do som nunca era suficiente, as caixas tinham que
amplificar mais e mais até estourarem e quando isso acontecia ele dava
chilique. Ann comentou apenas sobre Amy, disse que a voz não era ruim, mas
precisava ser educada, trabalhada. Falou ainda: aquela música em que ela
insiste em um timbre horrível, repetitivo, no, no, no; go, go, go; know, know,
know..... a música não sai disso e ainda na letra troca “ye” (you) por “ey”; o
que sobra é uma mudez insuportável e todos ficam esperando o no, no, no, ....
Ann continuou: como alguém pode ter admiração, se emocionar e mesmo chegar ao
delírio com coisas tão ruins, mal feitas e bobas! Sandrine; continuou Ann, não
deveríamos questionar o gosto dos outros, pois cada um gosta do que quiser e de
acordo com sua capacidade de gostar. Porém, admirar ou idolatrar estes
desvalidos, eu realmente não entendo. Falo desvalido em termos de produção
artística e não em termos de pessoas humanas, completou Ann. Falo mais,
Sandrine, qualidade é qualidade, belo é belo, sublime é sublime, não tem nada
de subjetivo não. A falta de estesia é uma deficiência mental ou de educação
talvez! Afinal, tem muita gente que quer ser prodígio, mas não quer fazer o dever
de casa, todo artista de verdade estuda no mínimo oito horas por dia, disse
Sandrine, mas estes vagabundos acham que podem tocar, cantar e ser artista sem
estudar e ainda se drogando, sem disciplina alguma.
Lá
da mesa de jogo Pierre palpitou: não viram nada meninas; no Brasil tem um
senhor, dizem que ele foi o inventor da Bossa Nova. Neste instante Pierre
soltou uma gargalhada e ridicularizou: não sei nem o que é Bossa, quanto mais
Bossa Nova! Retomou o assunto: este senhor é um cantor e é mudo, impressionante:
um cantor mudo que arranha violão. Está envolvido com um estilo de música, se
não me engano, acho que se chama MPB, sei lá o que isso significa. Sandrine riu
demais. Pierre, falou Sandrine, este senhor é o João Gilberto, eu não sou
brasileira e estou sabendo mais do que você! Pierre murmurou algo e continuou o
jogo com Jacob.
Ann
estava pensativa e perguntou: Sandrine, estamos nós aqui falando de desvalidos
que por algum motivo adquiriram celebridade. Todos morreram antes dos trinta
anos devido a uso de drogas e vidas desgraçadas que levavam. Fico pensando,
disse Ann, todo ano morrem milhares de drogados e ninguém fala deles. Não vejo
motivo para evidenciar três vagabundos mentalmente doentes. Sanatórios estão
cheios em todo lugar do mundo. Drogados comuns, ou até mais valorosos do que
estes três. Sandrine completou enfatizando: a Janis ficou grávida e não sabia
quem era o pai. Não há nada mais desonroso para uma mulher do que desconhecer a
paternidade, tem que ser muito promíscua! Pois é, disse Ann, iguais a ela
existem muitas. Não há realmente motivo para lamentar, a não ser que lamentemos
todos os promíscuos e alienados mentais.
Jacob
gritou lá do fundo: lamentem-nos, ambos aqui, viciados em xadrez, uma espécie
de alienação mental. Ann retrucou: concentre-se no jogo e pare de dar palpite,
se não, vou te chamar de judeu. Jacob se irritou: e você é judia. Tripudiou
Jacob: todos os seus filhos serão judeus, os meus não. Viu? Fique quietinha aí,
terminou Jacob.
Há
uma coisa que eu acho que é um dilema, falou Sandrine ao terminar sua taça de
Vinho do Porto. Que dilema é esse? Perguntou Ann. Qual a razão, qual o motivo
que leva estas pessoas a se tornarem celebridades? Indagou Sandrine. Eu acho
que, na verdade, elas fazem “tipos”, assim como no romantismo era chique para
um poeta ser tuberculoso e morrer prematuramente, hoje um roqueiro tem que ser
drogado e irreverente, pois é chique, faz o “tipo” roqueiro, só isso, concluiu
Sandrine. Tem razão, Sandrine, isso é bem verdade. Penso agora em Elton John,
continuou Ann, já é idoso, não conseguiu terminar um show porque lhe faltou a
voz, deve ter passado constrangimentos por ser homossexual e, no entanto, está
ai, normal, sem dar chiliques existenciais.
Já
estava ficando tarde e Ann queria concluir alguma coisa. Os dois enxadristas já
haviam terminado a partida e não sabiam quem ganhou e quem perdeu. Ann com sua
verve hebraica iniciou um discurso: eu não sei quem é mais pateta, se é a
delinquente Janis Joplin ou quem a ama. Digo amor ao trabalho dela, se é que
podemos falar que ela trabalhou alguma vez na vida. A perda de qualquer vida é
lamentável, pois é o fim de uma dádiva divina, mas lamentar a morte de Janis
porque a vida dela era promissora é ser muito estúpido. Por que promissora? O
que ela fazia a não ser orgia e rebeldia de adolescente? Não casou, fez um
aborto de um filho com pai desconhecido, incapaz de qualquer relacionamento,
tanto com homem quanto com mulher, afetada, melindrada e se drogava constantemente.
Ann parou um instante e exclamou: como uma pessoa pode dar um concerto drogado?
Já imaginaram um regente de orquestra regendo sob o efeito de heroína? Claro
que isso não existe, logo, estes roqueiros não dão concertos, ficam no palco
produzindo catarse em personalidades afetadas. Ann continuou sua fala anterior.
Janis e estes outros deveriam seguir os judeus. Não há judeus drogados,
solteiros, sem filhos, homossexuais, delinquentes e afetados. Em tudo que fazem
são os melhores, só trabalham em coisas relevantes, não têm crises existenciais
e não dão chiliques. Alguns adquirem vícios como, por exemplo, o Jacob aqui,
viciado em xadrez.
A
noite já ia alta quando juntos fizeram uma oração hebraico-cristã e relembraram
a promessa que Deus fez a Abrão. Despediram-se carinhosamente. Porém, antes de
saírem, o brasileiro Pierre, brincou com Jacob com os seguintes dizeres: Jacob,
as meninas hoje, igualmente ao Doutor Bacamarte, construíram uma casa de
orates. A ciência o único estudo delas e Itaguaí seu único universo. Jacob não
entendeu nadinha e ficou calado. As duas cantoras, curiosas, queriam entender,
mas Pierre em vez de resposta direta falou outra coisa tentando explicar:
O
Brasil tem João Rosa enquanto a Irlanda tem Joyce.
A
Inglaterra não tem Edith Piaf e a França não tem Rick Wakeman.
Não
temos Nina Simone e os EUA não têm Chão de Estrelas.
Nunca
jogaram bomba atômica no Brasil e o Japão não perdeu a Copa de 1950.
As
duas não entenderam e nem Jacob. Despediram-se novamente e partiram carregando
a dúvida que também permaneceu em Sandrine.