sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

CSI

CSI

O melhor deles é como o espinheiro,
e o mais correto é pior que uma cerca de espinhos.
Chegou o dia anunciado pelas suas sentinelas,
o dia do castigo de Deus.
Agora reinará a confusão entre eles.

Miqueias7.4

...sejam confundidos os que contra mim se levantam.
Cubram-se de ignomínia os meus adversários,
e a sua própria confusão os envolva como uma túnica.

Salmos109.28,29

Cardoso Fonseca, um importante empresário do ramo de materiais hospitalares e laboratoriais, leu em seu jornal matinal uma matéria curta e informativa sobre um seriado chamado CSI. Cardoso se irritou e começou a insultar e ofender o jornalista: o senhor avalia que todos conhecem ou são familiarizados com o tal seriado que nem nome tem? Apenas três letras justapostas! Fonseca continua: você, jornalistazinho de merda, não é meu interlocutor, você não sabe com quem está falando. Amanhã será demitido, ameaçou Fonseca. Vou mandar fechar este jornaleco também, completou.

A esposa de Fonseca olhou para o marido assustada. Cardoso, este seriado CSI não seria Crime Scene Investigation? Fonseca retornou o olhar e falou: quem sabe isso? Onde passa esta porcaria? Amor, este seriado passa na rede de televisão a cabo chamada Sony. O marido fez uma cara de deboche. Minha linda, Sony é marca de televisão e não rede de cabo seja lá o que for isso. O problema é que este miserável e retardado jornalista acha que algo tão particular e tão tribal é de conhecimento geral. Será que o imbecil acha que eu assisto a um obscuro e inexpressivo canal? Não é isso, querida? Sony não é um canal? Sim, isso que eu estava te dizendo, respondeu ela.

Cardoso Fonseca iniciou então uma fala com o jornalista. A fragmentação do conhecimento e das práticas sociais é compreensível seu jornalista idiota. O que não é compreensível, e na verdade insuportável, é ver um profissional da comunicação, ingenuamente, considerar geral o conhecimento de um mero seriado banal que passa em um dos milhares de canais existentes. Você e seu chefe de edição são dois completos alienados em um mundo caído. Não percebem que vocês não podem ser meus interlocutores? Logo, escrevam o jornal para mim e não para qualquer imbecil ler. Amanhã mandarei demitir os dois. Cambada de vira-latas, pensam que por serem jornalistas podem falar comigo.

Terminou o café, jogou o jornal no chão, pegou a pasta e saiu, foi trabalhar. A esposa chamou a empregada e comentou: menina, menina; você viu isso? O Fonseca não está bem da cabeça não! Exclamou a esposa. A empregada concordou e falou: seu Fonseca anda trabalhando muito, liga não, é cansaço. Seu Fonseca ocupa muito a mente no trabalho, ele podia tirar umas férias, seria bom.

A esposa maneou a cabeça e mudou de assunto. Geralda vem cá, deixa eu te contar uma coisa. A empregada Geralda ficou assustada e logo perguntou: o que foi dona Sílvia? A esposa Sílvia, com voz baixa, começou a contar: ontem à noite, Geralda, ele dormiu lendo um livro. Quando ele pegou no sono eu dei uma espiada. O título era alguma coisa com duas letras, GH. Comecei a folhear, lia um pouquinho de cada página. Geralda, que loucura! Exclamou Sílvia. Geralda retrucou: dona Sílvia, trata-se de um dos livros que seu Fonseca sempre lê, ele chama de manual, as letras que a senhora viu eram GE, eu sempre o vejo lendo livros com este nome; é marca lá dos produtos que ele vende. A senhora não precisa se preocupar, concluiu. Claro que não, Geralda, eu sei muito bem distinguir um manual, respondeu Sílvia impacientemente e em seguida continuou falando com firmeza: quem escreveu aquilo deve ter parte com o diabo, só pode! No prefácio, havia uma discussão sobre GH. Acredita que esse GH é uma pessoa, Geralda? Estavam discutindo se GH era homem ou mulher, eu hem! Credo! Em uma das páginas, Geralda, meu marido escreveu uma frase esquisita na margem: Ele escreveu: “sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar” e que esta frase deveria ser lida por uma mulher com o nome de Clarice Lisp... - não entendi o reto da frase. Escreveu ainda que esta frase era a última frase do livro Tractac....Filos....de Wittgens.... - também não consegui ler o restante das letras. Finalizou a nota escrevendo que o livro Tractac... era o livro errado do tal Wittgens.... Neste momento Sílvia olhou para a empregada e disse: acho que estas notas escritas pelo Fonseca são mais confusas do que o livro que ele estava lendo.

A senhora Geralda ficou ouvindo, calada e espantada sem entender o que Sílvia estava dizendo e nem o que ela queria dizer. Apenas exclamou: dona Sílvia, é melhor levar o doutor Fonseca para fazer uns exames de cabeça e dá um sumiço neste livro.

À noite chegou Cardoso Fonseca. Silvia foi abraçá-lo e perguntou-lhe: que livro é aquele que você estava lendo ontem ao deitar-se? Fonseca jogou a pasta no sofá, passou a mão no rosto com expressão de cansado e disse: Meu amor! Foi um comprador que me indicou. Vendi um aparelho para o laboratório de neurociência e o médico - Sérgio Cattoni - dono do laboratório me falou que uma fonoaudióloga o tinha recomendado um adolescente para tratamento de ecolalia. Eu, então perguntei ao Cattoni o que era ecolalia. Não sei o motivo, mas ele deu uma gargalhada devido à minha pergunta e disse-me: Fonseca leia um livro chamado Paixão Segundo GH de uma escritora chamada Clarice Lispector, qualquer banca de jornal vende este livro; pode ler em pdf também. Fonseca continuou a explicação: eu fiquei sem entender o motivo do livro e perguntei: de que se trata o livro e o que tem a ver com ecolalia? Cattoni riu novamente e resolveu me explicar achando tudo muito divertido: Fonseca, você vai ver lá no livro que esta dona termina um capítulo com uma frase e depois começa o capítulo seguinte com a mesma frase. Então, entendeu - Fonseca? Entendi, respondi eu. Completei: como se fosse um eco não é? Isso mesmo, o menino sofre deste mal que a escritora também sofre, ele repete as palavras ou as frases quando fala, esclareceu-me Cattoni.

Sílvia, disse ele, eu fiquei pensativo tentando entender melhor, enquanto Cattoni ria. Acho que ele estava debochando de mim. Cattoni, então saiu apressado dizendo que tinha uma pesquisa para finalizar. Na correria se voltou e disse-me: leia o livro e depois me conte o que achou. Respondi em voz alta antes que ele deixasse a sala: Cattoni; acho que não vai ser fácil curar este garoto não. Fácil não é, mas vou estudar o caso, é sempre interessante pesquisar uma disfunção que vem do cérebro, gritou Cattoni com um tom debochado.

Foi isso, Sílvia. Comprei o livro e comecei a ler ontem ao deitar. Convenhamos, o livro é bem maluco mesmo. Por isso que Cattoni gosta, pois a autora tem transtorno mental! Esta é a área de estudo dele!

Fonseca tomou um banho, jantou e foi para o escritório. Queria ler um pouco mais sobre Wittgenstein e meditar sobre a última frase de seu livro errado “Sobre aquilo que não se pode falar deve-se calar”. 

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