CSI
O melhor deles é
como o espinheiro,
e o mais correto
é pior que uma cerca de espinhos.
Chegou o dia
anunciado pelas suas sentinelas,
o dia do castigo
de Deus.
Agora reinará a
confusão entre eles.
Miqueias7.4
...sejam
confundidos os que contra mim se levantam.
Cubram-se de
ignomínia os meus adversários,
e a sua própria
confusão os envolva como uma túnica.
Salmos109.28,29
Cardoso
Fonseca, um importante empresário do ramo de materiais hospitalares e
laboratoriais, leu em seu jornal matinal uma matéria curta e informativa sobre
um seriado chamado CSI. Cardoso se irritou e começou a insultar e ofender o
jornalista: o senhor avalia que todos conhecem ou são familiarizados com o tal
seriado que nem nome tem? Apenas três letras justapostas! Fonseca continua:
você, jornalistazinho de merda, não é meu interlocutor, você não sabe com quem
está falando. Amanhã será demitido, ameaçou Fonseca. Vou mandar fechar este
jornaleco também, completou.
A
esposa de Fonseca olhou para o marido assustada. Cardoso, este seriado CSI não
seria Crime Scene Investigation? Fonseca retornou o olhar e falou: quem sabe
isso? Onde passa esta porcaria? Amor, este seriado passa na rede de televisão a
cabo chamada Sony. O marido fez uma cara de deboche. Minha linda, Sony é marca
de televisão e não rede de cabo seja lá o que for isso. O problema é que este
miserável e retardado jornalista acha que algo tão particular e tão tribal é de
conhecimento geral. Será que o imbecil acha que eu assisto a um obscuro e
inexpressivo canal? Não é isso, querida? Sony não é um canal? Sim, isso que eu
estava te dizendo, respondeu ela.
Cardoso
Fonseca iniciou então uma fala com o jornalista. A fragmentação do conhecimento
e das práticas sociais é compreensível seu jornalista idiota. O que não é
compreensível, e na verdade insuportável, é ver um profissional da comunicação,
ingenuamente, considerar geral o conhecimento de um mero seriado banal que
passa em um dos milhares de canais existentes. Você e seu chefe de edição são
dois completos alienados em um mundo caído. Não percebem que vocês não podem
ser meus interlocutores? Logo, escrevam o jornal para mim e não para qualquer
imbecil ler. Amanhã mandarei demitir os dois. Cambada de vira-latas, pensam que
por serem jornalistas podem falar comigo.
Terminou
o café, jogou o jornal no chão, pegou a pasta e saiu, foi trabalhar. A esposa
chamou a empregada e comentou: menina, menina; você viu isso? O Fonseca não
está bem da cabeça não! Exclamou a esposa. A empregada concordou e falou: seu
Fonseca anda trabalhando muito, liga não, é cansaço. Seu Fonseca ocupa muito a
mente no trabalho, ele podia tirar umas férias, seria bom.
A
esposa maneou a cabeça e mudou de assunto. Geralda vem cá, deixa eu te contar
uma coisa. A empregada Geralda ficou assustada e logo perguntou: o que foi dona
Sílvia? A esposa Sílvia, com voz baixa, começou a contar: ontem à noite,
Geralda, ele dormiu lendo um livro. Quando ele pegou no sono eu dei uma
espiada. O título era alguma coisa com duas letras, GH. Comecei a folhear, lia
um pouquinho de cada página. Geralda, que loucura! Exclamou Sílvia. Geralda
retrucou: dona Sílvia, trata-se de um dos livros que seu Fonseca sempre lê, ele
chama de manual, as letras que a senhora viu eram GE, eu sempre o vejo lendo
livros com este nome; é marca lá dos produtos que ele vende. A senhora não
precisa se preocupar, concluiu. Claro que não, Geralda, eu sei muito bem
distinguir um manual, respondeu Sílvia impacientemente e em seguida continuou
falando com firmeza: quem escreveu aquilo deve ter parte com o diabo, só pode!
No prefácio, havia uma discussão sobre GH. Acredita que esse GH é uma pessoa,
Geralda? Estavam discutindo se GH era homem ou mulher, eu hem! Credo! Em uma
das páginas, Geralda, meu marido escreveu uma frase esquisita na margem: Ele
escreveu: “sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar” e que esta frase
deveria ser lida por uma mulher com o nome de Clarice Lisp... - não entendi o
reto da frase. Escreveu ainda que esta frase era a última frase do livro
Tractac....Filos....de Wittgens.... - também não consegui ler o restante das
letras. Finalizou a nota escrevendo que o livro Tractac... era o livro errado
do tal Wittgens.... Neste momento Sílvia olhou para a empregada e disse: acho
que estas notas escritas pelo Fonseca são mais confusas do que o livro que ele
estava lendo.
A
senhora Geralda ficou ouvindo, calada e espantada sem entender o que Sílvia
estava dizendo e nem o que ela queria dizer. Apenas exclamou: dona Sílvia, é
melhor levar o doutor Fonseca para fazer uns exames de cabeça e dá um sumiço
neste livro.
Sílvia,
disse ele, eu fiquei pensativo tentando entender melhor, enquanto Cattoni ria.
Acho que ele estava debochando de mim. Cattoni, então saiu apressado dizendo
que tinha uma pesquisa para finalizar. Na correria se voltou e disse-me: leia o
livro e depois me conte o que achou. Respondi em voz alta antes que ele
deixasse a sala: Cattoni; acho que não vai ser fácil curar este garoto não.
Fácil não é, mas vou estudar o caso, é sempre interessante pesquisar uma
disfunção que vem do cérebro, gritou Cattoni com um tom debochado.
Foi
isso, Sílvia. Comprei o livro e comecei a ler ontem ao deitar. Convenhamos, o
livro é bem maluco mesmo. Por isso que Cattoni gosta, pois a autora tem
transtorno mental! Esta é a área de estudo dele!
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