segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F944 (J841)

Emily Dickinson - Poema F944 (J841)

A Moth the hue of this
Haunts Candles in Brazil -
Nature’s Experience would make
Our Reddest Second pale -

Nature is fond, I sometimes think,
Of Trinkets, as a Girl.

Poema escrito em 1865 em seus cadernos. A disposição dos versos acima foi a que a autora enviou a algumas pessoas. A disposição primeira segue abaixo.

A Moth the hue of
this
Haunts Candles in
Brazil -
Nature’s Experience
would make
Our Reddest Second
pale -

Nature is fond, I
sometimes think,
Of Trinkets, as a Girl.

Vejamos a tradução.

Uma mariposa! Seu alarido
Rodeia chamas de velas no Brasil -
A Experiência da Natureza tornaria
Pálido, Nosso mais Rosado Instante -

A Natureza é afetuosa, algumas vezes penso,
Em Berloques, como uma Menina.

O poema nos mostra uma qualidade distintiva fundamental de Emily Dickinson, qual seja, extrair de fatos singelos uma profunda reflexão e estesia.

Uma simples mariposa reage à chama da mesma forma, tanto aqui quanto lá, tanto aqui como em terras longínquas. (O Brasil é uma terra remota e exótica no imaginário do Século XIX). A experiência da natureza compartilha conhecimentos sem necessidade de ensinamentos.

Nos quatro primeiros versos a reflexão evolui e nos conduz a um estado de perplexidade perante os feitos da experiência da natureza. Na segunda estrofe, com seus dois versos, há uma ruptura drástica: o estado de perplexidade se transforma em uma admiração pueril: uma menina que enxerga lindos pingentes sem se importar com o valor. Como se olhássemos agora para a natureza sem cogitar nada - apenas contemplar.

A disposição original dos versos me parece mais admirável, visto que enfatiza as aliterações: “this” e “Brazil”; “make” e “pale”. Acredito que Emily modificou a disposição devido a sugestões alheias. Várias pessoas corrigiam seus versos alegando que não estavam escritos de maneira adequada. Fato compreensível, visto que, apesar de Emily ser bem nascida, era uma mulher simples e caseira, quase reclusa, sem trânsito no círculo literário.

Coloquei na tradução um ponto de exclamação no primeiro verso - pertinente, mas desnecessário, pois ele está implícito e a concisão é a essência da estética de um poema. A palavra “chamas” também foi introduzida na tradução para enfatizar a luminosidade de uma vela acesa - em inglês esta ênfase não é necessária: “candle” já conota uma luminosidade. Inverti no quarto verso a ordem do adjetivo “pálido” buscando mais clareza sintática na esperança que esta clareza carregue elementos estéticos. Ação pertinente, mas novamente sem necessidade. Poderia muito bem ter deixado assim:

Nosso mais Rosado Instante pálido -

Na versão perdemos um elemento estético impossível de ser vertido: o vocábulo “hue” além de significar “alarido”, também denota cor, nuança, coloração, matiz. Esta denotação conjuga-se com o superlativo “reddest”, o mais vermelho, rosado. As aliterações, “this”, “Brazil”; “make”, “pale” e “think”, “Trinkets” também foram perdidas na versão.

Ao traduzir também podemos seguir a disposição original. Certamente não teremos aliterações, mas o desenvolvimento da reflexão será enfatizado e ganharemos qualidade poética. Vejamos:

Uma mariposa!
Seu alarido
Rodeia chamas de velas no Brasil -
A Experiência da Natureza tornaria
Nosso mais Rosado Instante
Pálido -

A Natureza é afetuosa, algumas vezes penso,
Em Berloques, como uma Menina.

Temos ainda mais duas opções cada uma com efeitos estéticos distintos. Uma mera troca de palavra produz distinções poéticas significativas. Vamos estudar quatro outros adjetivos no lugar de “Rosado”, a saber, “Corado”, “Rubro”, “Ruborizado” e “Enrubescido”. Poderíamos pensar na palavra “Escarlate”, mas precisamos de adjetivos que contêm manifestação corpórea diante de fenômenos. Logo, escarlate não nos serve, visto que não tem esta conotação, exceto na doença escarlatina.

O poema com a utilização do adjetivo “Corado” nos proporciona uma linda aliteração: corado/pálido. No entanto, uma sílaba a mais no verso tira-lhe força expressiva. O mesmo fenômeno acontecerá com o adjetivo “Ruborizado” e “Enrubescido” - ambos pecam por excesso de sílabas, o que enfraquece o verso. Descartamos, portanto dois deles. Vejamos o poema com o adjetivo “Corado”:

Uma mariposa!
Seu alarido
Rodeia chamas de velas no Brasil -
A Experiência da Natureza tornaria
Nosso mais Corado Instante
Pálido -

A Natureza é afetuosa, algumas vezes penso,
Em Berloques, como uma Menina.

Resta o adjetivo “Rubro”. Duas sílabas apenas. Veremos que a expressividade do verso ficará acrescida, sendo este fato preferível à aliteração produzida pelos outros dois adjetivos - “Rosado” e “Corado”. Atentemos aos versos abaixo:

Uma mariposa!
Seu alarido
Rodeia chamas de velas no Brasil -
A Experiência da Natureza tornaria
Nosso mais Rubro Instante
Pálido -

A Natureza é afetuosa, algumas vezes penso,
Em Berloques, como uma Menina.

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