quarta-feira, 21 de outubro de 2020

A História de Jó

A História de Jó

 

In the sweat of thy face shalt thou eate bread , till thou returne vnto the ground: for out of it wast thou taken, for dust thou art, and vnto dust shalt thou retorne.

 Genesis3.19

1611 Edition; King James Version

Havia há muito tempo um homem que se chamava Jó. Era da terra de Uz lá pelos lados do oriente. Muito rico, tinha fazendas, plantações em abundância, muitos filhos, boa esposa e muitos amigos influentes. Comandava aquela terra, uma oligarquia cuja família mais importante era a dele.

A cada ano mais prosperava. Amável, benevolente e caridoso. Não havia, porém compaixão e nem temor a Deus. Blasfemava e ao mesmo tempo em que mantinha ações beneficentes ria dos necessitados às escondidas. Para ele Deus era uma invenção da pobreza e da preguiça alheia.

Fazia sempre o que queria e sua vontade era lei. Sem temor não há obediência. Sem amor também não há obediência. Em sua vida, ele era o senhor e só ele. Orgulhoso por suas conquistas financeiras e sociais desprezava o próximo que por incompetência não conseguia a prosperidade.

De todo modo era uma pessoa boa, mas sempre recebia a glória de sua bondade. A função de sua bondade era arquitetada, como não era bobo, sabia muito bem tirar proveito de cada um de seus feitos beneficentes. Cada feito um favor devido! Assim as autarquias caminham.

Seus dias foram passando e cada um que vivia era um a menos. Sua esposa adoeceu. doença sem cura! Faleceu em poucos meses e ele se viu sozinho. Idoso, viu a morte de seus amigos, um por um. A solidão cada vez mais próxima. Adoeceu; manchas no corpo e pele anestesiada. A lepra o fez maldito, foi afastado, colocado em isolamento no deserto. Vivia e se alojava nas fendas das pedras. Alguns caridosos jogavam comida e trapos velhos. Depois de alguns anos neste estado de isolamento e ostracismo, o governador conseguiu que ele fosse transferido para o buraco dos leprosos, impuros e desvalidos. O buraco era o fundo de um despenhadeiro. Ninguém descia e ninguém subia. Só amarrados em cordas. Lá ninguém o conhecia. Seu corpo estava desfigurado, pústulas o encobriam. Defecava no chão e vez ou outra se lavava no riacho que contornava o buraco, a parte baixa de um rio lamacento. Feridas o incomodavam e não o deixavam dormir. Cansado, irritado, despojado, caminhava sem direção durante todo o tempo. O governador recolhia de beneficentes alimentos e roupas que eram colocados no buraco dentro de redes e cordas que desciam e subiam. Lá em baixo, impuros famintos se apertavam esperando a chegada dos alimentos.

As mortes eram diárias e os corpos jogados em valas distantes formando um vale de ossos. (Assim diz o Senhor: profetiza Ezequiel, profetiza - recobrirei todos esses ossos com carne viva e ficarão novamente cheios do Espírito Santo.) Jó se achava nestas condições, sozinho, abandonado. Os filhos pegaram a herança e seus bens, antes muito valorizados e dos quais muito se orgulhava Jó, foram despojados pelos filhos. Arrancaram, venderam, fizeram lucro e transformaram todos eles. Não havia escrúpulo nem consideração. Havia sim, muita fidúcia.

Jó foi reduzido a pó, se transformou em lama. Tudo que fora sumiu e valor algum ficou.

A vida de Jó já se ia, seu tempo preste a expirar. Triste e cabisbaixo andava e tentava entender o que tinha acontecido com ele. Não havia resposta e nem sentido. Um grande oligarca jazia no buraco dos leprosos sem visita e sem atenções.

Já sem forças para caminhar ou comer, pela primeira vez, clamou a Deus. Sem qualquer esperança, mas se voltou para o Altíssimo. Ouviu então a voz: Jó, meu filho amado, não sabias tu que não passavas de pó e cinza? Por que tiveste que chegar a esse ponto para descobrir? Jó, assustado, respondeu: Senhor tenha misericórdia e me ajuda, não aguento mais este sofrimento, este abandono. Deus prossegue: não estás abandonado, Eu, o Altíssimo, estou contigo. Sempre estive e tu nunca deste conta de minha presença. Muito atarefado não é Jó? Porém agora chamou a Mim e Eu te escutei e vim em seu socorro. Terás paz e Eu te levarei comigo.

Sabes tu que sou misericordioso. Eu sou o Amor, a Compaixão e a Justiça. Jó, a justiça, em seu caso, foi feita. Alguém foi condenado em seu lugar, por livre e espontânea vontade, não pediu nada em troca, cumpriu a pena para ti, pena de morte. Sim, Jó. Ele morreu para que tu tivesses a vida, para que teus pecados fossem esquecidos por Mim. Essa pessoa, Jó; que morreu em seu lugar; era meu Filho único. Em verdade vos digo, ele é o meu Filho, pois Eu o ressuscitei dos mortos, visto que culpa alguma Ele tinha. Por Sua graça foste salvo.

Jó, então adormeceu.   

domingo, 4 de outubro de 2020

Vós que dormis quase eternamente

Vós que dormis quase eternamente

 

E o Senhor Deus lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.

 Gênesis2.16,17

 And the LORD God commanded the man, saying, Of euery tree of the Garden thou mayest freely. But of the tree of the knowledge of good and euill, thou shalt note ate of it: for in the day that thou eatest thereof, thou shalt surely die.

 Genesis2.16,17

Original 1611 Edition, King James Version.

 

O queijo está maravilhoso! Exclamou o maestro que comia acepipes na casa do comendador. Um espanhol chamado Seu Santos comia exageradamente e irritava o comendador que euforicamente bebia vinho e contava lorotas. Dois maçons se lambuzavam com berinjela em conserva e pão árabe. Uma pianista comia coalhada seca e flertava com o maestro. Um operário italiano que se tornou brasileiro depois da guerra tinha seu lugar cativo. A dona da casa, esposa do comendador, sempre alegre, observava os comensais enquanto conversava com um grupo de mulheres em outra mesa.

Assim se conduzia a manhã de sábado, quase todo sábado. As pessoas não eram as mesmas e havia muita variação. Eram muitos os conhecidos do comendador e que jamais desprezavam uma boa comida e companhia influente.

Nestes encontros todos se exibiam. Cada um batia palma para o outro em troca também de palmas. Todo o banal se transformava em proeza. Não havia ninguém mau, ninguém errado e todos tinham bom gosto. Vidas sem medo, sem temor. Desconheciam eles o horror da desobediência, o horror das consequências - a ilusão de que podemos enganar a morte! Não sabiam o que é o abandono, o ser distante, o inalcançável!

O delegado tinha câncer na bexiga e morreu em poucos meses. O comendador exclamou: enterramos o delegado! O professor de artes amanheceu com uma gastrite, fez exame e era o mal do estômago. Morreu de infecção hospitalar. O maestro, homem sábio, culto, conhecido na sociedade, se submeteu a um procedimento médico para extrair pólipos do intestino. Morreu na mesa de operação. Em sua homenagem a orquestra local tocou o Requiem de Verdi. O que dormiu havia pedido esta homenagem quando fosse. O operário italiano que participou da Segunda Guerra Mundial, aliado dos alemães, passou seis anos no campo de concentração inglês - entrou pesando oitenta quilos e saiu com apenas quarenta quilos, sobreviveu. Este, porém, apesar de ter sobrevivido à guerra no norte da África e à prisão desumana dos ingleses morreu ainda jovem aqui no Brasil de infecção hospitalar quando foi simplesmente retirar um quisto alojado perto da coluna torácica. Sua esposa também faleceu alguns anos depois de esclerose múltipla. Seus dois filhos sumiram no mundo e ninguém tem mais notícias deles.

A casa do comendador era enorme. Tinha uma lareira imponente de três andares, a mesma chaminé abraçava três fornalhas, uma em cada andar. O comendador se orgulhava e recebia a glória pelo feito arquitetônico.

O franco-maçom que juntamente com seu pai frequentava a casa morreu de repente infartado. Apesar de tudo isso essa gente não conhecia a dor, não sabiam eles o que era sofrimento. Talvez se parassem para pensar que as consequências do pecado doem...! Um médico, que se achava escritor e gostava de escandalizar com suas teorias expostas em seus livros, morreu de anemia aguda.

A esposa do comendador era uma profissional da área da saúde. Possuía um grande ciclo de amizades e muita influência. Jamais morreria uma mulher assim, com tantas qualidades e realizações. O desenho em perspectiva nos dá uma ideia da morte: ela é o ponto luminoso que fica no final do túnel ou do desenho. Ele está lá, sempre distante, mas por mais distante que esteja ele chega até nós. Nossa única certeza, a morte, nós não a temos por conclusões, teorias ou deduções. Esta certeza que temos vem do empirismo, pois não há exemplos de uma só pessoa que não morreu. Por indução, nós também dormiremos.

A morte é uma consequência: ela dói, ela é o medo, o desespero e a angústia de todo vivente. Não conheceríamos a dor não fosse a morte, esta consequência infalível e onipresente.

Todos ali eram sumidades em alguma coisa e eram queridos por serem sumidades. Triste aquele que recebe aplausos, diria meu avô. Não percebiam que sumidade é apenas uma construção social, um valor socialmente categorizado e ontologicamente não tem valor algum. A Dama das Camélias soube muito bem disso quando foi exumada.

Os que experimentavam os acepipes eram muitos, revezavam naturalmente de modo que nunca havia mais de sete ou oito presentes. A reunião sim, todo sábado de manhã. O comendador não sabia ficar sem ovação. Sua lareira era um totem, um feito que tinha de ser visto e aplaudido.

O ponto de fuga da perspectiva chegou, não avisou, mas chegou. A lareira tríplex foi destruída, os quitutes e acepipes não passavam agora de pão com manteiga para o lanche dos pedreiros que transformavam a mansão sem o menor escrúpulo. Aos herdeiros nada disso ficou, restou apenas uma nostálgica lembrança e a decisão do que deveriam fazer: exterminar e construir uma nova época que cada vez menos olhava para trás.

Lembro-me do salmista: “mais um pouco de tempo, e não existirá o ímpio; procurarás o seu lugar e não o acharás”. Outro salmo também me vem à memória: “Eis que são estes os ímpios; e, sempre tranquilos, aumentam suas riquezas. Entrei então no santuário de Deus e atinei com o fim deles. Tu certamente os pões em lugares escorregadios e os fazes cair na destruição”.

Alheios à solidão! Porém, certo dia eu ouvi uma conversa do comendador com o maestro. O comendador perguntou se o maestro estava bem, pois andava sumido. O maestro respondeu: senhor comendador, estou bem, mas vez ou outra a solidão me atinge. O comendador por sua vez respondeu ignorando, como sempre, o sofrimento, não só o próprio como também o alheio. Disse: não era para menos, não há mais plateia nem aplausos, a solidão tem mesmo que vir. Esqueça isso e venha cá ao sábado, comprei um vinho delicioso da Calábria.

Quando olhava para a mesa em que todos se celebravam lembrei-me de um pensamento de Jung, qual seja, “O homem não suporta para sempre a sua anulação. Em algum momento haverá uma reação e eu vejo que esta está começando. Todo mundo vai à procura da sua própria existência para garantir contra a completa atomização em direção ao nada ou à insignificância; o homem não pode suportar uma vida insignificante”.

Analisando mais de perto a frase de Jung percebia que ele também fazia parte daquela mesa de acepipes. Como ele vê que a reação já está começando se é algo que sempre existiu? Não tem ele a noção de que o homem para suportar sua insignificância e sua nulidade, finge sua significância de vários modos engenhosos? Convive e acredita na mentira que brota de seu coração, acredita naquilo que finge. Uma dessas engenhosas maneiras é cada um trocar aplausos com o outro. Mal sabem que da morte não se esconde, nem com mentiras nem com crenças naquilo que fingem.

A falta de sentido, ou seu oposto, ambos não passam de mecanismos para se livrar da angústia. Vive, então, assim o homem, se enganando e acreditando em suas proezas. Ele nasce, brinca de pique esconde, e morre. Simples assim, nada mais que isso. Tudo que sai do propósito e do projeto de Deus para uma vida é nulidade pura. (Deus = Cristo Jesus = Altíssimo Espírito Santo.) Digo isso para acabar de vez com a ideia de ecumenismo e com o sincretismo religioso. Ou é Cristo ou é nulidade. Como já faleceu, não adianta mais orar por Jung. Infelizmente! Porém, assim como David, creio eu que verei a bondade do Senhor entre os viventes. Jung deveria ter percebido que o problema do homem é na verdade a sua autoestima exacerbada e não a baixa estima. Se tivesse lido Jo3.30 teria ele mais conhecimento sobre a mente humana: Convém que ele cresça e que eu diminua. Assim falou João Batista quando seus discípulos estavam o abandonando para seguirem Jesus. Um homem correto não fica dando chilique de adolescente que perdeu a atenção nem lutando contra a atomização em direção ao nada. Um homem com a mente sã não leva em conta sua significação ou sua nulidade, ele simplesmente é. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O menino do cavalinho de pau

 

O menino do cavalinho de pau

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra...

Porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.

 Mateus6.19-21

Diogo Moreira Carvalho. Funcionário público aposentado vivia com a esposa em um apartamento modesto. Todas as manhãs quando se levantava a esposa já tinha coado café e já se encontrava sentada à mesa ouvindo a mensagem do pastor. Diogo chegava à copa, abria a janela e apreciava o dia. Era seu momento de oração e as andorinhas vinham e alegravam o céu. Urubus volteavam. Diogo via nesta ave o profeta Elias que era alimentado por corvos. As aves eram sinais de Deus que o ouvia neste momento.

Na sala havia um retrato pendurado na parede: um menino sentado em um cavalinho de pau. Não se sabia se era uma pintura ou um retrato, mas aquele menino a avó dizia que era seu pai quando criança. Não havia semelhança alguma, mas era o que diziam.

O garotinho da foto segurava uma corneta e usava uma sandalinha com meia. Calça curta e uma blusa com laço branco e largo. Cabelo claro e um leve topete. Sorriso bonito, delicado, suave; demonstrava uma felicidade genuína e pura, própria de uma criança.

Diogo casara-se com uma cantora lírica - Anna Netrebko - nascida na União Soviética e hoje não se sabe mais em qual país nasceu. Mudou-se para o Brasil, conheceu Diogo, bem mais velho que ela e se casaram. Tiveram um filho e Anna trabalhava no conservatório ministrando aulas de canto.  Era uma grande cantora e viajava muito para participar como solista em várias óperas ou apresentações musicais de baixo e médio porte. Pelo fato de ter nascido na União Soviética e muito pobre na infância, não foi bem recebida na Áustria. Sendo assim veio para o Brasil. Diogo ficava impressionado com o nome Netrebko, ele dizia que o pai de Anna titubeou na hora do registro e não sabia se colocava b ou k. Na dúvida ele colocou as duas letras e pronto.

O pai de Diogo era arquiteto. Trabalhava como freelance em várias construtoras. Detestava Niemeyer e quando perdeu o concurso realizado para a construção de Brasília ficou indignado. Dizia: como aquele arquiteto desqualificado pode vencer o concurso? Carta marcada, na certa!

Em sua vida fez inúmeros projetos de casas e prédios. Ainda jovem, depois de casado, foi ser funcionário público. Trabalhou em serviço de saneamento de água e esgoto em cidades pequenas no interior do Estado. Gostava de pintar e se gabava de nunca ter vendido um quadro, não porque fossem ruins, mas por exaltação à sua arte: não era digna de ser vendida. Construiu duas casas para si, morou nas duas. Curioso é que as duas casas eram iguais, o mesmo projeto. Mas, o menino do cavalinho de pau não pensava assim. Ambas eram a expressão máxima de sua criatividade arquitetônica, digna de Vitrúvio. Seu maior prazer era reunir celebridades em sua casa. Diogo tirou grande proveito deste hábito. Conheceu maestros, filósofos, médicos, psiquiatras, políticos e muito mais. Assim Diogo adquiriu um grande conhecimento e um fervoroso gosto de aprender. Dizia sempre: conhecer não é uma necessidade, mas um desejo.

Diogo viajava muito com o pai, sempre a serviço, o levava junto. Gostavam de assistir filmes e Diogo sabia todos de cor. Filmes bons como “Arroz Amargo”, “Ladrão de Bicicleta”, todos deste tipo. O menino do cavalinho de pau foi bom aluno e gostava de estudar, sabia qualquer assunto e conversava com Diogo sobre tudo: ciência, tecnologia, filosofia, arte, religião e vários outros assuntos. Ele ensinou a Diogo a gostar do conhecimento, a desejar o saber. Entre os livros de uma imensa biblioteca cresceu Diogo!

O menino do cavalinho de pau era um grande piadista. A especialidade de suas piadas era essa: a piada só tem graça pela sua falta de graça! Charadas portuguesas também o atraíam. Quando ouviam uma piada os netos já gritavam: esta é do vovô. Não porque já tinha sido contada antes, mas pelo estilo: a graça estava na falta de graça.

Diogo gostava de repetir as charadas: está no buraco (duas); está no alto da igreja (duas). Conceito: está muito doente. Solução: (tatu); (sino); conceito: tatu-sino, muito doente. A outra: está no Banco (duas); está no nariz (três); conceito: é um grande cozinheiro. Solução: (cheque); (espirro); conceito: Shakespeare. O quê? Claro, ele não é o autor da omelete?

Diogo também apreciava os atores idolatrados pelo menino do cavalinho de pau. Atores como Anthony Quinn do filme Zorba, o Grego; apaixonado por Ingrid Bergman no filme Joana D’Arc; detestava Charlton Heston, mas assistia aos filmes. Para ele não havia distinção entre ator e personagem, na verdade o que de fato existia era o personagem.

O fato curioso da foto é que ninguém sabia nada sobre ela: quem tirou a foto, quem pintou, em qual ocasião e informações rotineiras que se tem sobre uma foto guardada por muitos anos pendurada na parede. Não havia semelhança entre o menino da foto e o pai de Diogo, mas ninguém comentava: diziam sempre que era ele sim, o pai do Diogo. Será que estavam em um parque de diversão e algum fotógrafo ambulante tirou a foto? Pouco provável, pois o quadro era demasiado grande!

Certa vez o menino do cavalinho de pau resolveu que iria escrever um livro e traduzir a Divina Comédia. Diogo falou: pai, isso é delírio, o senhor vai escrever sobre qual assunto? O senhor não sabe italiano, como vai traduzir? Ele então, respondeu: vou escrever sobre religião. Quanto a tradução você se engana, eu conheço muito bem a língua italiana, pois meu avô era italiano. Começou a escrever, sentava-se em sua biblioteca, nada pequena, e ficava horas e horas, lendo e escrevendo. Escreveu cinco livros. O menino lia importantes livros sobre cristianismo e ia aos poucos juntando e copiando os parágrafos que gostava. Emendava-os de forma a fazer sentido - ele não era nada bobo. Diogo chegou uma vez á biblioteca e perguntou ao pai: quem vai publicar seus livros? Escritos à mão com lápis e várias canetas coloridas, os livros eram digitados por uma secretária. Diogo leu algumas partes e fez mais uma pergunta: pai, está cheio de erro aqui, ortografia, digitação e frases soltas sem citações. O pai olhou, fitou bem os olhos do filho e sorriu como quem diz: não sabe de nada pequeno!

O narrador dessa história não sabe das coisas! Eu sabia muito bem o que ele iria fazer. Simples: ele pagou uma gráfica e um editor. Mandou fazer três mil cópias de cada um e distribuiu para os amigos. Ainda me disse: você acha que eu iria deixar uma editora dar palpite em meu livro? Eu disse então: pai, mas e se alguém perceber que o senhor fez cópias de outros livros? Ele respondeu: e daí! Qual é o nome que está escrito aí no livro, o autor não sou eu? Então fui eu que escrevi. Quem copiou foi o outro. Completou: o leitor está lendo o meu livro, logo quem escreveu fui eu e ponto final. Não me incomode mais com essas idiotices.

Antes de construir duas casas suntuosas ele costumava falar: a parte mais importante da casa é a cozinha, lugar que todos encontram com muito mais frequência e as conversas giram em volta dos melhores temas. Quando construiu, as entradas principais das duas casas eram pela cozinha e esta ocupava o lugar da frente da casa e não dos fundos. Narrador, escreve isso aí, você não sabia dessa, não é mesmo?

Um dia chegou com quatro coros de onça parda. Minha mãe perguntou: para que isso? Ele respondeu irritado: ora, para fazer tapete. E onde você conseguiu isso, perguntou minha mãe. Ouviu a seguinte resposta: em Pirapora, fui caçar com quatro amigos, armamos uma armadilha com um novilho e à noite as feras apareceram. Se gabando muito e rindo, disse: levaram chumbo!

Suas aulas eram brilhantes, sabia de verdade o que ensinava e eu aprendia, também de verdade. Suas mãos magras com dedos compridos foram feitas para desenhar. Usava com maestria o compasso, a régua, os esquadros e o transferidor. Adorava trabalhar em serviços de topografia. Diogo o acompanhava mata adentro ajudando a carregar o tripé do aparelho que media azimutes.

A maior dificuldade que existia era saber quando estava falando sério e quando estava brincando. Inventava casos relevantes a partir de uma história banal. Era como se a realidade fosse pequena demais para ele. O mundo tinha que ser contado, e para contar o mundo havia de inventar, a invenção o tornava mais real. Nunca citava a fonte, e quando citava possivelmente era inventada. Não havia autor, pois o autor era sempre ele. Uma personalidade fascinante! Ganhava muito dinheiro, mas perdia muito também, minha mãe é que controlava as finanças. Trabalho era palavra inexistente, sempre era diversão - podemos até compará-lo com Dom Quixote! Seria ultrajante, pois Dom Quixote é que o imitava.

Olho para Anna e sempre pergunto: este homem foi um dia aquele menino do cavalinho de pau? Por que não existem outras fotos dele quando pequeno? Ninguém nunca respondeu, mas também não me lembro de ouvir alguém perguntando. Resta agora apenas sua foto rota, o menino se foi. Seus inimigos foram apenas moinhos de vento. A cornetinha na mão, sua espada flamejante; e o cavalinho de pau, seu corcel exuberante e imponente.

domingo, 26 de julho de 2020

Emily Dickinson - Poema F668 (J551)


Emily Dickinson - Poema F668 (J551)

Escrito em 1863, manuscrito no Fascículo 30, cujo fac-símile nós veremos no final. Publicado em 1891 na forma alternativa em que a linha oito é modificada.

There is a Shame of Nobleness -
Confronting Sudden Pelf -
A finer Shame of Extasy -
Convicted of Itself -

A best Disgrace - a Brave Man feels -
Acknowledged - of the Brave -
One more - “Ye Blessed” - to be told -
But that’s - Behind the Grave -

[But This - involves the Grave - ]; forma alternativa da linha oito escrita pela autora no manuscrito.

Temos aqui um poema difícil, não digo difícil de traduzir, mas difícil de apreensão, entendimento, compreensão e interpretação.

Vamos à tradução:

Há uma Desonra de Suntuosidade -
A Confrontar Repentino Esbulho -
Uma mais refinada Vergonha de Êxtase -
Convicta de Si -

Uma boníssima ignomínia - sente um Honrado Cavalheiro -
Tendo-se Certificado - da Bravura -
Mais Um - “Vós Abençoados” - a ser enumerado -
Mas isso está - Além da Campa -

[Mas isso - envolve a Campa - ]


A expressão entre aspas, “Ye Blessed” refere-se á passagem bíblica que se encontra em Mateus capítulo 25 versículos de 34 a 46.

Aparentemente há um erro de grafia no verso: A finer Shame of Extasy - , pois não existe a palavra Extasy. O correto seria Ecstasy = Êxtase. Notem no fac-símile as quebras de linhas.






quarta-feira, 1 de julho de 2020

Emily Dickinson - Poema F997 (J1040)


Emily Dickinson - Poema F997 (J1040)

Manuscrito em 1865 no agrupamento de número sete (Set 7). Publicada em 1945 com oito linhas.

Not so the infinite Relations - Below
Division is Adhesion’s forfeit - On High
Affliction but a speculation - And Wo
A Fallacy, a Figment, We knew -

Tradução:

Não como as Relações infinitas - Embaixo
Divisão é o confisco da Adesão - No Alto
Aflição, apenas uma especulação - E Vitória Fácil
Uma Falácia, uma Ficção, uma vez Soubemos -

O poema com oito linhas:

Not so the infinite
Relations - Below
Division is Adhesion’s
forfeit - On High
Affliction but a
speculation - And Wo
A fallacy, a Figment,
We knew -

Há comentários que “Wo” pode ser “Woe”, ou seja, a autora se esqueceu de completar a palavra. No manuscrito vemos claramente “Wo”, não há sinal algum de que a palavra está incompleta e que a intenção era escrever “Woe”.

Porém, suponhamos que seja “Woe”. Aí, a tradução ficaria assim:

Aflição , apenas uma especulação - E Dor
Uma Falácia, uma Ficção, uma vez Soubemos -


Vejamos o fac-símile abaixo.



segunda-feira, 8 de junho de 2020

Emily Dickinson - Poema F996 (J1039) (FH400)


Emily Dickinson - Poema F996 (J1039) (FH400)

Há dois manuscritos deste poema, um apenas em parte. O poema sofreu variações no período de 1865 até 1870. Uma cópia do poema inteiro foi registrada no agrupamento de número sete (Set 7) em 1965 e publicada em 1945. Vamos nos ater apenas à última estrofe do poema. Esta estrofe é ela mesma um poema separado e aparece com alterações juntamente a outros poemas em um rascunho de uma carta endereçada a T.W. Higginton. Rascunho escrito a lápis em 1870. A carta ficou inacabada e nunca foi expedida. No final colocamos os fac-símile da carta e do agrupamento 7 (Set 7).

The Spirit said unto the Dust
Old Friend, thou Knewest me
And Time went out to tell the news
Unto Eternity

Tradução:

O Espírito disse ao Pó
Velho Amigo, tu me conheceste
E o Tempo saiu para contar a notícia
À Eternidade

Este poema, quando compõe a última estrofe do poema inteiro, ele carrega seis variações, a saber,

And Spirit turned  unto the Dust
Old Friend, thou Knowest me
And Time went out to tell the News
And met Eternity

Tradução:

E o Espírito se virou para o Pó
“Velho Amigo, tu me conheces”
E o Tempo saiu para contar a notícia
E encontrou a Eternidade

Veremos agora o fac-símile do poema inteiro no agrupamento de número sete (Set 7) e o fac-símile do rascunho da carta onde a última estrofe é escrita separada e com as modificações. Vejam também os outros poemas constantes na carta. Observem que no agrupamento sete há quebras de linha que não foram mostradas aqui. Mostraremos também o rascunho da carta publicado por Johnson em 1958: Carta J353.






domingo, 17 de maio de 2020

Emily Dickinson - Poema F980 (J917) (FH370)


Emily Dickinson - Poema F980 (J917) (FH370)

Manuscrito em 1865 e encontra-se no agrupamento de número sete (Set 7), cujo fac-símile veremos no final. Publicado em 1896 com um título: “Love” e com uma modificação que comentaremos depois.

Love - is anterior to Life -
Posterior - to Death -
Initial of Creation, and
The Exponent of Earth -

A tradução não me parece difícil, a dificuldade maior é criar um significado para o poema e perceber o sublime.

Amor - anterior à Vida -
Posterior - à Morte -
Inicial de Criação, e
O exponente da Terra -

Reparem que “Initial” é um substantivo, traduzido por “inicial” - letra capitular, iniciais de um nome. A palavra “exponente” também um substantivo traduzido por “exponente” ou “expoente”.

Na primeira publicação lhe foi dado um título: “Love”. Além disso, Mrs Todd que transcreveu o texto do poema para publicação, trocou uma palavra alterando assim o texto, qual seja, em vez de “Earth”, Todd colocou “breath”. A última linha ficaria assim:

O Exponente da respiração -

Eu acredito que ED queria dizer realmente “respiração”, “hálito”, “respiro”, “alento”, “fôlego”, etc.. No entanto, a palavra “Terra” ou “Earth” diz tudo isso com muito mais propriedade se considerarmos o inteiro contexto do poema.

Acredito ainda que o poema seja a oração de um calvinista. Por sinal uma inspirada oração.