A
Casa Verde
TO THE MOST
HIGH AND
MIGHTIE
Prince,
Iames by the grace of God
King of Great Britaine, France and Ireland,
Defender of the Faith, &c.
THE TRANSLATORS
OF THE BIBLE,
wish Grace, Mercie, and Peace, through IESVS
CHRIST
our LORD.
In the sweate of
thy face shalt thou eate bread, till thou returne vnto the ground: for out of
it wast thou taken, for dust thou art, and vnto dust shalt thou returne.
Gênesis3.19
Em
Itabirito há uma casa de orates. Um casarão com janelas pintadas de verde. O
dono e diretor chama-se Dr. Simão Bacamarte. Moravam aí dois orates que
intrigavam o doutor. Um deles atendia pelo nome de Orestes Barbosa e o outro
Bartolomeu Barbosa. Eram irmãos. Maníacos, colecionavam recortes de jornal
contendo frases ditas por artistas ou qualquer outra pessoa midiática. Eles
liam vários jornais e iam recortando frases e fazendo anotações ou, muitas vezes,
somente comentários. Disputavam entre eles quem acharia a frase mais digna de
ser recortada e guardada. O critério de ordenamento ninguém sabia. Bacamarte os
observava para formular uma teoria sobre o critério utilizado. Algum deveria
haver - a descoberta seria um grande feito científico e acresceria a ciência.
Assim pensava Simão Bacamarte.
Para
ajudá-lo na pesquisa nomeou como sua secretária e assistente uma moradora da
casa que muito lhe agradava. Seu nome era Cecília. A beleza de Cecília lhe era
indiferente, assim como a feiura de sua esposa. Afinal, Bacamarte era um
cientista e sua libido estava apenas na ciência. A função de Cecília era
descobrir o critério utilizado. Para isso ela deveria ficar sempre próxima de
ambos quando estavam se divertindo com as frases. Cecília deveria ouvi-los e
também formular perguntas pertinentes ao seu intento: qual o critério utilizado
para a mensuração de um recorte - mais digno - menos digno.
Cecília
viu quando os dois
foram se assentar no jardim
para ler jornais - havia também
uma sala de leitura
no interior da casa,
mas os irmãos
preferiam o jardim. Barbosa, escute
esta: “os eleitores com
maior índice
de rejeição são as mulheres
esquerdistas”. Isso é verdade
mesmo! Exclamou Babosa,
(o outro, pois
entre os dois
não havia distinção
de nomes). Cecília retrucou: machistas. Eles
olharam para ela
e perguntaram: machista, o que significa isso?
Cecília respondeu: bem, não
sei direito, mas
é o que vocês
estão fazendo. Barbosa riu e falou: nós não fazemos nada
queridinha, estamos apenas lendo.
Cecília, investigando, pergunta: por que
escolheram para comentar
esta frase entre
muitas outras que estão aí no jornal?
Responderam: sinceramente não sabemos, lemos aleatoriamente. Mas, alguma coisa lhes chamou a atenção
para esta frase,
comentou Cecília. Os dois apenas
resmungaram.
Barbosa,
Barbosa, a estatística continua, veja aqui, “entre os pastores mais rejeitados
as mulheres pastoras são maioria”. Curioso! Exclamou Barbosa.
Há
outra aqui, “Brasil será capaz de vencer o egoísmo e apostar no bem comum”.
Quem disse isso, Barbosa? Foi uma vereadora do PSOL - “Coronavírus testa
solidariedade” - diz a manchete dela. O que será que esta vereadora quer dizer
com “apostar no bem comum”? Perguntou o outro. Ela acha que o Brasil será capaz de vencer o egoísmo? Mande que ela dê um exemplo, continuou Barbosa, este coronavírus
acabou com o estoque de alimentos, álcool e até de papel higiênico; ótimo teste! Logo, o
coronavírus testa a solidariedade! Gaguejou Cecília com toda a alegria do mundo
por ter obtido alguma conclusão.
Com
mais segurança e cheia de encanto Cecília leu algo e se atreveu comentar: “sou
professor há mais de dez anos e declinei a todos os convites para ser diretor
de escola - as demandas de uma escola pública são infinitas e é a direção que
coloca um teto nestas demandas. Alunos com vulnerabilidades afetivas, sociais e
materiais, e o corpo docente no meio do furacão”.
Muito
bem, Cecília, esta merece ser recortada. Quem mandou abandonar a constituição
censatária? Quem inventou esta coisa de sufrágio universal e igualdade perante
a lei? Quem inventou este negócio de cidadania igualitária? Agora aguentem!
Proclamou Orestes em alta voz. Vamos Cecília, recorte esta e escreva meu
comentário, coloque na nossa coleção, escreva ainda - viva a Constituição da Mandioca
- falou Barbosa. Vou sim, vou recortar e guardar, até decorei sua proclamação
de tão enfática que foi. Cecília, porém perguntou: não vi ligação de seu
discurso com a frase no jornal, mas, não importa, vou guardá-la. Cecília, falou
Barbosa, em uma linha vou te explicar, preste atenção: o eleito, para obter
voto, prometeu algo; se prometeu, bem ou mal tem que cumprir, visto que há em
vista a próxima eleição - pois então, como bem disse o professor, as demandas
são infinitas e daí, as promessas também serão infinitas e para cumprir as
promessas o governo precisa de dinheiro. Pergunto, então, Cecília: para quem o
governo vai pedir o dinheiro? Para quem? Para os bancos, ora! Assim Barbosa
terminou o raciocínio. Acrescentou eloquentemente: o sufrágio universal foi uma
invenção da burguesia financeira que tramou e se aproveitou da ridícula
Revolução Francesa. Ela sorriu e umedeceu lascivamente os lábios. Fez-se o
entendimento de Cecília.
Barbosa,
estão falando aqui que esta crise provocada pelo coronavírus é semelhante à
crise de 2008. Barbosa perguntou: houve crise em 2008? Ninguém me falou nada! Nem
para mim, retrucou Barbosa. Lá se foram os três para a sala de jantar, era a
hora do lanche vespertino. Ao entrar Bacamarte olhou para Cecília com um olhar
indagativo, mas não houve resposta por parte da graciosa moça.
Depois
do jantar, enquanto os outros assistiam à novela os três se debruçaram
novamente sobre os jornais. “Debate - novo filme de Polanski e autobiografia de
Woody Allen reacendem debate sobre o legado de artistas controversos”. Orestes
arregalou os olhos para ler com mais afinco. Disse: o que tem a ver o autor com
sua obra? Vão rasgar a obra de Caravaggio só porque ele era um assassino? Vão
derramar no esgoto todo perfume Chanel só porque Coco era uma devassa cantora
de cabaré e vivia no Ritz abrindo as pernas para famosos? (Bom falar que cocô
não combina bem com perfume, mas...). Deveriam saber que obra feita, o autor é
morto. Depois dessas considerações de Orestes, Cecília lembrou: estão vendendo
ali na banca da esquina uma grossa biografia de Joseph Goebbels, será que irão
queimá-la? Cecília provocou um pouco mais: para mim artistas controversos são
Frida Khalo, Lou Salomé, Anaïs Nin e Pagu. Barbosa, curioso e intrigado
perguntou: por que elas são controversas, Cecília? A moça se impressionou com a
ignorância de Barbosa e disse: na promiscuidade declarada todas elas se
fizeram. Você tem razão moça, não havia notado, anote aí em nossa coleção.
Barbosa
- gritou Bartolomeu, olha esta psicóloga aqui falando que grupos vulneráveis
nem sempre são minoria. Barbosa escutou o irmão, leu o artigo e não entendeu o
que a autora entendia por vulnerável. Disse: isto aqui é só um artigo sobre o
dia da mulher, Barbosa. Não entendi a autora, mas recorte e guarde assim mesmo.
Cecília logo replicou: vocês vão recortar um artigo que não entenderam? Sim,
responderam, qual é o problema? Sei lá, resmungou ela, acho estranho, só isso.
Veja,
veja. “BBC fará série de documentários sobre a ativista ambiental sueca”.
Orestes deu uma olhada com desprezo! Retirou os óculos, coçou o olho e deu uma
gargalhada: essa menina é a pirralha autista, Barbosa. Como a BBC perde tempo
com essas coisas? Cecília concordou e tomou nota. Certamente iria mostrar para
o Dr. Bacamarte.
Orestes se debruçou
sobre um jornal com tanta atenção que causou curiosidade aos outros dois. O que
está lendo, Barbosa? Perguntou Cecília. Barbosa, sério, balançou a cabeça e
começou a ler alguns trechos. Eu não acredito, disse Barbosa. Ouçam:
“espetáculos discutem o universo das mulheres”. Cecília riu debochadamente. Pensei
que isso já tinha sido discutido, não seria melhor discutir o universo das
abelhas? Perguntou a moça. Os dois irmãos riram bastante! Ouçam mais: “trans.
corra Aisha, corra”. As mulheres trans. estão agora com ciúmes dos homens trans..
Falam que um tem mais privilégio (ou menos) do que o outro. Esta vai para a
coleção, Cecília, recorte. Bartolomeu se levantou e ralhou: aposto que vão
falar sobre empregada doméstica de novo! Será que não sabem até hoje que
existem servos e patões? Completou. Ainda de pé se irritou ao ler: “para as atrizes
Lívia Gaudêncio e Teuda Bara lançar esse olhar sobre a mulher e suas multiplicidades
gera debates necessários que atendem a uma demanda social”. Frisou a última
frase: quem disse que são necessários? E quem inventou que isso atende a uma
demanda social? Só pode ser coisa de artista mesmo! Por isso vivem na merda e
sempre reclamando verba. Mulheres já velhas e até hoje não arrumaram
emprego? Não são necessários e nem atendem a demanda alguma, concluiu Barbosa.
Cecília
achou a cena engraçada e deu um exemplo: o tal de Mick Jagger com mais de
sessenta anos e ainda não arranjou emprego, até hoje é cantor de banda. Igual
ao Sérgio Chapelin - a única coisa que faz na vida é falar na televisão o que
escrevem para ele falar! Barbosa se empolgou: Tem mais gente à toa aí no mundo
- Caetano Veloso, Baco Exu do Blues, Majur, Racionais, Djonga e outros.
“Denise
Fraga traz a BH o espetáculo Eu de Você”, leu Barbosa e mostrou ao irmão. Belo
espetáculo, Cecília, mas escute o que fala a atriz: “a grande função da arte,
acho, é fazer entender que fazemos parte de um todo nesta grande roda da vida”.
Que maravilha! Não acha, Cecília? Ironizou Barbosa. Sempre falei: nunca deixem
um ator falar fora do texto que lhe é dado para decorar, a única coisa que devem fazer é seguir o roteiro, só isso, comentou o outro
irmão.
Barbosa;
acho que ainda não esgotaram o assunto, veja só: “a socióloga Isabelle Anchieta
acaba de escrever uma obra em três volumes intitulada - Imagens da Mulher no
Ocidente Moderno”. Vejam, são três volumes com os títulos: “Bruxas e Tupinambás
Canibais”; “Maria e Maria Madalena” e “Stars de Hollywood”. Cecília retrucou
nervosa: isso é coisa de acadêmico que não tem o que fazer.
Voltando
ao assunto, leiam este pedinte, insistiu Orestes: “estamos sofrendo uma guerra
terrível, sobrevivendo de caridade. A gente é séria, não é palhaçada.
Precisamos de patrocínio, além dos prêmios. Obrigado, mas precisamos de
incentivo”. Quem é o autor deste lamento? Perguntou Barbosa. Fiquei tão
enternecido! Eu também, disse Cecília, que peninha eu fico! O autor se chama Luis Miranda, ganhador do
troféu de melhor ator. Bartolomeu olhou para a foto do ator no jornal e
ironizou: meu filho, vá procurar um emprego e pare de pedir esmola, ninguém
quer saber de teatro, aceita que a dor é menor, pare de ser infantil e vá
trabalhar, caramba.
Cecília
deu um pulo de alegria quando leu Selena Gomez dizer: “Alguns dias eu acordo e
penso: vou ficar sozinha para sempre. Mas depois passam 15 minutos e digo para
mim mesma: eu sei que há alguém para todos”. Eu falei! Eu falei! Exaltou-se
Barbosa - não pode deixar artista falar, eles são ridículos, esdrúxulos, só sabem
representar ou cantar, mas só falam mediocridades!
O
relógio apontou 11 horas da noite. Eles não estavam com sono e Cecília fez um
gostoso chá bem quentinho. Continuaram a ler os jornais. Cecília leu uma frase:
“tenor Jean William se junta a Fafá de Belém para apresentação gratuita”.
Barbosa ficou horrorizado! Franziu a testa e comentou: aquele deputado que
fugiu do Bolsonaro virou cantor? Estudou canto nos Estados Unidos? Bem, estão
dizendo aqui que ele estudou com o maestro João Carlos Martins, explicou
Cecília. Ah; aquele maestro que sai na escola de samba? Sim, este mesmo,
respondeu Cecília e completou: não toca mais piano, tem uns problemas de nervo
na mão. Barbosa ficou surpreso: um deputado que participou do BBB, fugiu do
Bolsonaro, estudou canto com o maestro sambista e agora canta com Fafá de Belém.
Misericórdia! Lastimável! Quanta falta de compostura artística! Exclamaram os
três.
Está
escrito aqui neste outro jornal que o Site Discografia Brasileira coloca em
rede acervo histórico de gravações em 78 rotações, leu Cecília. Porém, afirmam
que Carmem Miranda foi contemplada, acrescentou. Barbosa sorve o chá e lança
uma pérola: esta Carmem Miranda não existe, nunca existiu. Foi apenas uma
invenção de Hollywood que apostava, na época, no exotismo. E deu certo!
Já
cansados, foram dormir. No outro dia Cecília foi ter com o Dr. Bacamarte.
Depois de longa conversa e analise do que ela tinha escrito sobre as escolhas
dos irmãos, o Doutor concluiu do alto de sua genialidade: Orestes e Bartolomeu não
sofrem de mal algum. Quem sofre deste mal que denominarei de hoje em diante Síndrome
do Grotesco a Sério ou Síndrome do Kitsch a Sério são os outros, aqueles que escrevem
no jornal as coisas selecionadas pelos Barbosa. Já de antemão designo as siglas
a serem utilizadas a partir de agora. Ei-las: SGS ou SKS. Dois nomes valorizam
ainda mais a descoberta, dizia o Doutor.
Nota.
O cabeçalho deste conto é o cabeçalho da epístola
dedicadora dos tradutores da Bíblia versão King James de 1611. A citação de Gênesis
também foi tirada desta mesma bíblia: edição original da King James Version de 1611.