domingo, 29 de março de 2020

Emily Dickinson - Poema F951 (J809)


Emily Dickinson - Poema F951 (J809)

Há dois manuscritos deste poema. Um deles contém uma parte do poema (uma estrofe) o outro contém o poema inteiro com duas estrofes. Importa ressaltar que o primeiro não é uma parte em que falta a outra estrofe. O primeiro manuscrito a lápis está endereçado a Sue, encabeçado “Dear Sue” e assinado “Emily”. Consiste em um inteiro poema de uma estrofe apenas. Depois, ED escreveu uma segunda estrofe e colocou o manuscrito (este é o segundo manuscrito) agrupado em sua organização final (grupo 7 ou Set 7). Veremos o fac-símile no fim da tradução. Escrito em 1865, enviado a Susan Dickinson na ocasião da morte de sua irmã Harriet Cutler em oito de março de 1865. Ressalto que só a primeira estrofe foi enviada a Sue. A primeira estrofe publicada em 1915, a segunda estrofe em 1945 e o poema com as duas estrofes em 1947.

Na publicação de 1915, no Atlantic Monthly, o editor cometeu um erro crasso. No lugar da palavra “Loved” da primeira linha ele escreveu “dead”. E assim foi publicado o poema no referido periódico em 1915.

Primeiro manuscrito

Unable are the Loved - to die -
For Love is Immortality -
Nay - it is Deity -

Morrer - são Incapazes quem Amamos
Pois Amor é Imortalidade -
Mais ainda - é Deidade -

Outras formas:

Incapazes são quem Amamos - morrer -
Pois Amor é Imortalidade -
Mais ainda - é Deidade -

Incapazes de morrer são aqueles que amamos.
Pois Amor é Imortalidade -
Mais ainda - é Deidade -

Incapazes de morrer - aqueles que Amamos -
Pois Amor é Imortalidade -
Mais ainda - é Deidade -

Incapazes de morrer - quem Amamos -
Pois Amor é Imortalidade -
Mais ainda - é Deidade -

Segundo manuscrito

Unable are the Loved to die
For Love is Immortality,
Nay, it is Deity -

Unable they that love - to die
For Love reforms Vitality
Into Divinity.

Incapazes de morrer são aqueles que Amamos
Pois Amor é Imortalidade,
Mais ainda, é Deidade -

Incapazes aqueles que amam - morrer
Pois o Amor transforma Vitalidade
Em Divindade.

Acho que temos uma tradução razoável. Carece comentar que ED utiliza o verbo “reform” de maneira equivocada. Primeiro: “reform” nunca é um verbo bitransitivo, logo, ela muda a regência do verbo. Segundo: “reform” não tem o sentido de transformar uma coisa em outra. Tem o sentido de reformar, se tornar melhor, melhorar, sair de um estado pior para outro melhor, mas sempre transitivo direto. Em alguns casos pode também significar formar de novo, por exemplo, depois da chuva formou novamente nuvem branca sob o sol.

Parece-me um bom poema na tentativa de consolar sua cunhada e grande amiga Susan pela morte da irmã.

No original (primeiro manuscrito), o poema possui uma quebra de linha:

Unable are the
Loved - to die -
For Love is Immortality -
Nay - it is Deity -

No segundo manuscrito cujo fac-símile encontra-se abaixo o poema tem a seguinte disposição: (o número que está à direita do poema é a classificação de Johnson) (J809)

Unable are the Loved
to die
For Love is Immortality,
Nay, it is Deity -

Unable they that love -
to die
For Love reforms Vitality
Into Divinity.

Agora sim, temos verdadeiramente um belo poema! Simétrico, ritmo agradável e reiterações melódicas prazerosas.


quinta-feira, 26 de março de 2020

Emily Dickinson - Poema F1492


Emily Dickinson - Poema F1492

Ferocious as a Bee without a wing
The Prince of Honey and the Prince of Sting
So Plain a flower presents her Disk to thee

Poema escrito a lápis em um pedaço de papel de escritório. No verso desse papel encontra-se um endereço incompleto: “Prof Tuckerman”, escrito com a letra de ED. Escrito em 1879 e publicado em 1958. Não consta da seleção de poemas feita por Johnson.

Na escrita caligráfica há quebras de linhas e aparentemente a letra “c” da palavra “Ferocious” está escrita por cima da letra “s”. Vejamos:

Feroc(s)ious as a Bee without
a wing
The Prince of Honey and the
Prince of Sting
So Plain a flower presents
her Disk to thee

Selvagem como uma Abelha sem asas
O Príncipe do Mel e o Príncipe da Ferroada (do Ferrão)
Tão Singela uma flor mostra seu Disco a ti

Ou de outra maneira:

Feroz como uma Abelha sem asas
O Príncipe da doçura e o Príncipe da Dor
Tão Singela uma flor mostra seu Disco a ti

Belo poema que apõe contrastes: a abelha, ao mesmo tempo doçura e dor; a flor delicada, simples, se mostra, se expõe, apresentando seu disco, excrescência em forma de disco ou anel, geralmente glandulífera, localizada dentro da flor, sobre o receptáculo. Exemplos comuns são a Margarida e o Girassol. Parte interna e vulnerável. Nessa intimidade da flor que está completamente exposta, imóvel e sem proteção transita, sem o uso das asas, a abelha com seu ferrão. Sem dano e sem dor, apenas o mel.

Há uma ambiguidade no poema concernente ao interlocutor. “Mostra o disco a ti” - o pronome “ti” está no lugar de qual nome? Semanticamente podemos inferir que a flor mostra seu disco ao príncipe do mel e do ferrão, a abelha. Claro que em português usaríamos princesa, visto que abelha é feminino. Porém ainda falta saber quem é o feroz. Feroz como uma abelha sem asa, quem é feroz? A própria abelha. Vemos que a sintaxe está toda atrapalhada, não é possível fazer uma análise sintática do poema. Bem, deixo aqui o desafio.

A palavra “Ferocious” não é nada poética em inglês. Acho que não foi uma boa escolha da autora. Uma palavra de origem latina que não harmonizou com o inglês - sua pronúncia em inglês é esdrúxula.

O poema deveria ser assim:

Ferocious - a Bee without a wing
Prince of Honey and Prince of Sting
So plain a flower presentes her Disk to thee

A conjunção “as” é descabida, não deveria estar na frase. Esta conjunção provoca todo o problema que concerne ao interlocutor mencionado acima. A segunda linha é um vocativo. Agora temos uma sintaxe e as elipses pertinentes a um poema.

Mais uma peculiaridade: ao substantivo “flower” a autora adota o gênero feminino, já ao substantivo “bee” ela adota o gênero masculino.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Emily Dickinson - Poema F1491 (J1472)


Emily Dickinson - Poema F1491 (J1472)

Manuscrito em 1879 em um fragmento de papel de escritório. Publicado em 1945.

To sse the Summer Sky
Is Poetry, though never in a Book it lie -
True Poems flee -

Um fato deve ser notado, qual seja; o uso do subjuntivo do verbo “To lie”. A conjunção “though” rege o modo subjuntivo visto que é uma conjunção concessiva. Vamos ver como faremos isso na tradução a seguir.

Ver o Céu de Verão
É Poesia, embora ela nunca fique em um Livro -
Verdadeiros Poemas fogem -

Poderíamos deixar sem o pronome e também mudar a conjunção.

Ver o Céu de Verão
É Poesia, ainda que nunca fique em um Livro -
Verdadeiros Poemas fogem -

domingo, 22 de março de 2020

Emily Dickinson - Poema F203 (J210) (FH43)


Emily Dickinson - Poema F203 (J210) (FH43)

Poema escrito em 1861, manuscrito e organizado por ED no fascículo 10. Publicado em 1891.

The thought beneath so slight a film -
Is more distinctly seen -
As laces just reveal the surge -
Or Mists - the Appenine -

No original manuscrito temos uma quebra de linha:

The thought beneath so slight
a film -
Is more distinctly seen -
As laces just reveal the surge -
Or Mists - the Appenine -

Vamos à tradução:

O pensamento por trás de tão insignificante filme -
É mais nitidamente visto -
Como rendas perfeitamente revelam a vaga -
Ou neblinas - os Apeninos -

Bem, a tradução de “beneath” por “abaixo” não é adequada, pois em português a palavra abaixo não tem o sentido de “escondido, oculto, por trás” ou simplesmente “por trás”. Mesmo em inglês não é comum usar a palavra “beneath” neste sentido, mas tal sentido é legítimo na língua inglesa.

Sutil o uso da conjunção comparativa “As”, que traduzi por “como”.

Segue abaixo o fac-símile do manuscrito original deste poema escrito por ED no fascículo de número 10. O número que aparece na margem esquerda é o número do poema dado por Johnson (J210). Aí podemos ver como o poema foi escrito em seu original manuscrito, inclusive observar a quebra de linha que mencionamos antes.



sábado, 21 de março de 2020

A Casa Verde

A Casa Verde

TO THE MOST
HIGH AND MIGHTIE
Prince, Iames by the grace of God
King of Great Britaine, France and Ireland,
Defender of the Faith, &c.
THE TRANSLATORS OF THE BIBLE,
wish Grace, Mercie, and Peace, through IESVS
CHRIST our LORD.

In the sweate of thy face shalt thou eate bread, till thou returne vnto the ground: for out of it wast thou taken, for dust thou art, and vnto dust shalt thou returne.

Gênesis3.19

Em Itabirito há uma casa de orates. Um casarão com janelas pintadas de verde. O dono e diretor chama-se Dr. Simão Bacamarte. Moravam aí dois orates que intrigavam o doutor. Um deles atendia pelo nome de Orestes Barbosa e o outro Bartolomeu Barbosa. Eram irmãos. Maníacos, colecionavam recortes de jornal contendo frases ditas por artistas ou qualquer outra pessoa midiática. Eles liam vários jornais e iam recortando frases e fazendo anotações ou, muitas vezes, somente comentários. Disputavam entre eles quem acharia a frase mais digna de ser recortada e guardada. O critério de ordenamento ninguém sabia. Bacamarte os observava para formular uma teoria sobre o critério utilizado. Algum deveria haver - a descoberta seria um grande feito científico e acresceria a ciência. Assim pensava Simão Bacamarte.

Para ajudá-lo na pesquisa nomeou como sua secretária e assistente uma moradora da casa que muito lhe agradava. Seu nome era Cecília. A beleza de Cecília lhe era indiferente, assim como a feiura de sua esposa. Afinal, Bacamarte era um cientista e sua libido estava apenas na ciência. A função de Cecília era descobrir o critério utilizado. Para isso ela deveria ficar sempre próxima de ambos quando estavam se divertindo com as frases. Cecília deveria ouvi-los e também formular perguntas pertinentes ao seu intento: qual o critério utilizado para a mensuração de um recorte - mais digno - menos digno.

Cecília viu quando os dois foram se assentar no jardim para ler jornais - havia também uma sala de leitura no interior da casa, mas os irmãos preferiam o jardim. Barbosa, escute esta: “os eleitores com maior índice de rejeição são as mulheres esquerdistas”. Isso é verdade mesmo! Exclamou Babosa, (o outro, pois entre os dois não havia distinção de nomes). Cecília retrucou: machistas. Eles olharam para ela e perguntaram: machista, o que significa isso? Cecília respondeu: bem, não sei direito, mas é o que vocês estão fazendo. Barbosa riu e falou: nós não fazemos nada queridinha, estamos apenas lendo. Cecília, investigando, pergunta: por que escolheram para comentar esta frase entre muitas outras que estão no jornal? Responderam: sinceramente não sabemos, lemos aleatoriamente. Mas, alguma coisa lhes chamou a atenção para esta frase, comentou Cecília. Os dois apenas resmungaram.

Barbosa, Barbosa, a estatística continua, veja aqui, “entre os pastores mais rejeitados as mulheres pastoras são maioria”. Curioso! Exclamou Barbosa.

Há outra aqui, “Brasil será capaz de vencer o egoísmo e apostar no bem comum”. Quem disse isso, Barbosa? Foi uma vereadora do PSOL - “Coronavírus testa solidariedade” - diz a manchete dela. O que será que esta vereadora quer dizer com “apostar no bem comum”? Perguntou o outro. Ela acha que o Brasil será capaz de vencer o egoísmo? Mande que ela dê um exemplo, continuou Barbosa, este coronavírus acabou com o estoque de alimentos, álcool e até de papel higiênico; ótimo teste! Logo, o coronavírus testa a solidariedade! Gaguejou Cecília com toda a alegria do mundo por ter obtido alguma conclusão.

Com mais segurança e cheia de encanto Cecília leu algo e se atreveu comentar: “sou professor há mais de dez anos e declinei a todos os convites para ser diretor de escola - as demandas de uma escola pública são infinitas e é a direção que coloca um teto nestas demandas. Alunos com vulnerabilidades afetivas, sociais e materiais, e o corpo docente no meio do furacão”.

Muito bem, Cecília, esta merece ser recortada. Quem mandou abandonar a constituição censatária? Quem inventou esta coisa de sufrágio universal e igualdade perante a lei? Quem inventou este negócio de cidadania igualitária? Agora aguentem! Proclamou Orestes em alta voz. Vamos Cecília, recorte esta e escreva meu comentário, coloque na nossa coleção, escreva ainda - viva a Constituição da Mandioca - falou Barbosa. Vou sim, vou recortar e guardar, até decorei sua proclamação de tão enfática que foi. Cecília, porém perguntou: não vi ligação de seu discurso com a frase no jornal, mas, não importa, vou guardá-la. Cecília, falou Barbosa, em uma linha vou te explicar, preste atenção: o eleito, para obter voto, prometeu algo; se prometeu, bem ou mal tem que cumprir, visto que há em vista a próxima eleição - pois então, como bem disse o professor, as demandas são infinitas e daí, as promessas também serão infinitas e para cumprir as promessas o governo precisa de dinheiro. Pergunto, então, Cecília: para quem o governo vai pedir o dinheiro? Para quem? Para os bancos, ora! Assim Barbosa terminou o raciocínio. Acrescentou eloquentemente: o sufrágio universal foi uma invenção da burguesia financeira que tramou e se aproveitou da ridícula Revolução Francesa. Ela sorriu e umedeceu lascivamente os lábios. Fez-se o entendimento de Cecília.

Barbosa, estão falando aqui que esta crise provocada pelo coronavírus é semelhante à crise de 2008. Barbosa perguntou: houve crise em 2008? Ninguém me falou nada! Nem para mim, retrucou Barbosa. Lá se foram os três para a sala de jantar, era a hora do lanche vespertino. Ao entrar Bacamarte olhou para Cecília com um olhar indagativo, mas não houve resposta por parte da graciosa moça.

Depois do jantar, enquanto os outros assistiam à novela os três se debruçaram novamente sobre os jornais. “Debate - novo filme de Polanski e autobiografia de Woody Allen reacendem debate sobre o legado de artistas controversos”. Orestes arregalou os olhos para ler com mais afinco. Disse: o que tem a ver o autor com sua obra? Vão rasgar a obra de Caravaggio só porque ele era um assassino? Vão derramar no esgoto todo perfume Chanel só porque Coco era uma devassa cantora de cabaré e vivia no Ritz abrindo as pernas para famosos? (Bom falar que cocô não combina bem com perfume, mas...). Deveriam saber que obra feita, o autor é morto. Depois dessas considerações de Orestes, Cecília lembrou: estão vendendo ali na banca da esquina uma grossa biografia de Joseph Goebbels, será que irão queimá-la? Cecília provocou um pouco mais: para mim artistas controversos são Frida Khalo, Lou Salomé, Anaïs Nin e Pagu. Barbosa, curioso e intrigado perguntou: por que elas são controversas, Cecília? A moça se impressionou com a ignorância de Barbosa e disse: na promiscuidade declarada todas elas se fizeram. Você tem razão moça, não havia notado, anote aí em nossa coleção.

Barbosa - gritou Bartolomeu, olha esta psicóloga aqui falando que grupos vulneráveis nem sempre são minoria. Barbosa escutou o irmão, leu o artigo e não entendeu o que a autora entendia por vulnerável. Disse: isto aqui é só um artigo sobre o dia da mulher, Barbosa. Não entendi a autora, mas recorte e guarde assim mesmo. Cecília logo replicou: vocês vão recortar um artigo que não entenderam? Sim, responderam, qual é o problema? Sei lá, resmungou ela, acho estranho, só isso.

Veja, veja. “BBC fará série de documentários sobre a ativista ambiental sueca”. Orestes deu uma olhada com desprezo! Retirou os óculos, coçou o olho e deu uma gargalhada: essa menina é a pirralha autista, Barbosa. Como a BBC perde tempo com essas coisas? Cecília concordou e tomou nota. Certamente iria mostrar para o Dr. Bacamarte.

Orestes se debruçou sobre um jornal com tanta atenção que causou curiosidade aos outros dois. O que está lendo, Barbosa? Perguntou Cecília. Barbosa, sério, balançou a cabeça e começou a ler alguns trechos. Eu não acredito, disse Barbosa. Ouçam: “espetáculos discutem o universo das mulheres”. Cecília riu debochadamente. Pensei que isso já tinha sido discutido, não seria melhor discutir o universo das abelhas? Perguntou a moça. Os dois irmãos riram bastante! Ouçam mais: “trans. corra Aisha, corra”. As mulheres trans. estão agora com ciúmes dos homens trans.. Falam que um tem mais privilégio (ou menos) do que o outro. Esta vai para a coleção, Cecília, recorte. Bartolomeu se levantou e ralhou: aposto que vão falar sobre empregada doméstica de novo! Será que não sabem até hoje que existem servos e patões? Completou. Ainda de pé se irritou ao ler: “para as atrizes Lívia Gaudêncio e Teuda Bara lançar esse olhar sobre a mulher e suas multiplicidades gera debates necessários que atendem a uma demanda social”. Frisou a última frase: quem disse que são necessários? E quem inventou que isso atende a uma demanda social? Só pode ser coisa de artista mesmo! Por isso vivem na merda e sempre reclamando verba. Mulheres já velhas e até hoje não arrumaram emprego? Não são necessários e nem atendem a demanda alguma, concluiu Barbosa.

Cecília achou a cena engraçada e deu um exemplo: o tal de Mick Jagger com mais de sessenta anos e ainda não arranjou emprego, até hoje é cantor de banda. Igual ao Sérgio Chapelin - a única coisa que faz na vida é falar na televisão o que escrevem para ele falar! Barbosa se empolgou: Tem mais gente à toa aí no mundo - Caetano Veloso, Baco Exu do Blues, Majur, Racionais, Djonga e outros.

“Denise Fraga traz a BH o espetáculo Eu de Você”, leu Barbosa e mostrou ao irmão. Belo espetáculo, Cecília, mas escute o que fala a atriz: “a grande função da arte, acho, é fazer entender que fazemos parte de um todo nesta grande roda da vida”. Que maravilha! Não acha, Cecília? Ironizou Barbosa. Sempre falei: nunca deixem um ator falar fora do texto que lhe é dado para decorar, a única coisa que devem fazer é seguir o roteiro, só isso, comentou o outro irmão.

Barbosa; acho que ainda não esgotaram o assunto, veja só: “a socióloga Isabelle Anchieta acaba de escrever uma obra em três volumes intitulada - Imagens da Mulher no Ocidente Moderno”. Vejam, são três volumes com os títulos: “Bruxas e Tupinambás Canibais”; “Maria e Maria Madalena” e “Stars de Hollywood”. Cecília retrucou nervosa: isso é coisa de acadêmico que não tem o que fazer.

Voltando ao assunto, leiam este pedinte, insistiu Orestes: “estamos sofrendo uma guerra terrível, sobrevivendo de caridade. A gente é séria, não é palhaçada. Precisamos de patrocínio, além dos prêmios. Obrigado, mas precisamos de incentivo”. Quem é o autor deste lamento? Perguntou Barbosa. Fiquei tão enternecido! Eu também, disse Cecília, que peninha eu fico!  O autor se chama Luis Miranda, ganhador do troféu de melhor ator. Bartolomeu olhou para a foto do ator no jornal e ironizou: meu filho, vá procurar um emprego e pare de pedir esmola, ninguém quer saber de teatro, aceita que a dor é menor, pare de ser infantil e vá trabalhar, caramba.

Cecília deu um pulo de alegria quando leu Selena Gomez dizer: “Alguns dias eu acordo e penso: vou ficar sozinha para sempre. Mas depois passam 15 minutos e digo para mim mesma: eu sei que há alguém para todos”. Eu falei! Eu falei! Exaltou-se Barbosa - não pode deixar artista falar, eles são ridículos, esdrúxulos, só sabem representar ou cantar, mas só falam mediocridades!

O relógio apontou 11 horas da noite. Eles não estavam com sono e Cecília fez um gostoso chá bem quentinho. Continuaram a ler os jornais. Cecília leu uma frase: “tenor Jean William se junta a Fafá de Belém para apresentação gratuita”. Barbosa ficou horrorizado! Franziu a testa e comentou: aquele deputado que fugiu do Bolsonaro virou cantor? Estudou canto nos Estados Unidos? Bem, estão dizendo aqui que ele estudou com o maestro João Carlos Martins, explicou Cecília. Ah; aquele maestro que sai na escola de samba? Sim, este mesmo, respondeu Cecília e completou: não toca mais piano, tem uns problemas de nervo na mão. Barbosa ficou surpreso: um deputado que participou do BBB, fugiu do Bolsonaro, estudou canto com o maestro sambista e agora canta com Fafá de Belém. Misericórdia! Lastimável! Quanta falta de compostura artística! Exclamaram os três.

Está escrito aqui neste outro jornal que o Site Discografia Brasileira coloca em rede acervo histórico de gravações em 78 rotações, leu Cecília. Porém, afirmam que Carmem Miranda foi contemplada, acrescentou. Barbosa sorve o chá e lança uma pérola: esta Carmem Miranda não existe, nunca existiu. Foi apenas uma invenção de Hollywood que apostava, na época, no exotismo. E deu certo!

Já cansados, foram dormir. No outro dia Cecília foi ter com o Dr. Bacamarte. Depois de longa conversa e analise do que ela tinha escrito sobre as escolhas dos irmãos, o Doutor concluiu do alto de sua genialidade: Orestes e Bartolomeu não sofrem de mal algum. Quem sofre deste mal que denominarei de hoje em diante Síndrome do Grotesco a Sério ou Síndrome do Kitsch a Sério são os outros, aqueles que escrevem no jornal as coisas selecionadas pelos Barbosa. Já de antemão designo as siglas a serem utilizadas a partir de agora. Ei-las: SGS ou SKS. Dois nomes valorizam ainda mais a descoberta, dizia o Doutor.

Nota. O cabeçalho deste conto é o cabeçalho da epístola dedicadora dos tradutores da Bíblia versão King James de 1611. A citação de Gênesis também foi tirada desta mesma bíblia:  edição original da King James Version de 1611. 

sábado, 7 de março de 2020

Emily Dickinson - Poema F202 (J185) (FH34)


Emily Dickinson - Poema F202 (J185) (FH34)

Poema escrito em 1861. Há três cópias (versões) escritas pela autora. Modificações mínimas, mas, significativas. A primeira cópia foi incorporada em uma carta endereçada a Samuel Bowles. Esta carta não se encontra na edição de Thomas H. Johnson - The Letters of Emily Dickinson - em três volumes. Encontrei esta carta na edição de Mabel Loomis Todd - Letters of Emily Dickinson. Encontra-se também em Delphi Complete Works of Emily Dickinson que reproduz a edição de Todd. A razão pela qual Johnson não incluiu esta carta em sua monumental edição das cartas de ED é esta: como se pode ver na edição de Todd, a carta está espalhada entre outras do mesmo ano de 1861. Não há como distinguir as cartas, elas formam uma colcha de retalhos de várias cartas, logo, o que está escrito, exceto o poema, não faz sentido, pois simplesmente pode ser um trecho solto e desconectado de uma série de cartas trocadas entre ela e Bowles e talvez outras pessoas. Páginas podem estar faltando ou mesmo a carta enviada ou a recebida.  Nem todas as cartas deste período foram preservadas. Sabemos apenas que é uma carta endereçada a Bowles e que começa com um agradecimento: Thank you - (Muito obrigada). O que está escrito além disso, não faz sentido algum e contém vários erros, tanto de ortografia quanto de uso gramatical. Por isso, Johnson não considerou a carta em sua edição, apenas o poema foi considerado na edição dos poemas feita por Johnson.

As outras duas cópias, ambas, foram modificadas pela própria autora e guardadas em fascículos. O poema foi publicado em 1891.

“Faith” is a fine invention
When Gentlemen can see -
But Microscopes are prudent
In an Emergency.

Vamos à tradução. Tentaremos não perder o senso irônico do poema.

“Fé” é uma refinada invenção
Quando os Cavalheiros podem ver -
Mas Microscópios são prudentes
Em uma Emergência.

A ironia está no uso da palavra “cavalheiro”, uma pessoa de bons sentimentos, digna, gentil. Devemos reparar que o objetivo é realçar que todo o poema é uma posição matreira, velhaca e disfarçada. Apenas com uma palavra bem utilizada a autora revela a matreirice das atitudes de convivência social. As duas outras versões:

Faith is a fine invention
For Gentlemen who see -
But Microscopes are prudent
In an Emergency!

“Faith” is a fine invention
For Gentlemen who see!
But Microscopes are prudent
In an Emergency!

Podemos tentar outra tradução, vejamos:

A fé é uma excelente invenção
Para aqueles que veem!
Mas, os Microscópios são prudentes
Em caso de uma Emergência!

Ou ainda,

Para aqueles que veem,
A fé é uma invenção esperta!
Mas, em caso de uma Emergência,
Os Microscópios são prudentes!

Bem, alguém pode achar que as traduções que estão logo acima são mais fluentes, diretas e até, por que não, mais bonitas. Porém, para mim os dois poemas acima não são mais de ED, são apenas dois poemas feitos por mim em uma transcriação como diria Haroldo de Campos.