terça-feira, 19 de novembro de 2019

Emily Dickinson - Carta J498


Emily Dickinson - Carta J498

Dear friend.

I cannot let the Grass come without remembering you, and half resent my rapid Feet, when they are not your's - The power to fly is sweet, though one defer the flying, as Liberty is Joy, though never used.

I give you half my Birds - upon the sweet condition that you will bring them back - yourself, and dwell a Day with me, and Bliss without a price, I earned myself of Nature -

Of whose electric Adjunct
Not anything is known -
Though it's unique Momentum
Inebriate our own.

Forgive me if I come too much - the time to live is frugal - and good as is a better earth, it will not quite be this.

How could I find the way to you and Mr Higginson without a Vane, or any Road?

They might not need me - yet they might -
I'll let my Heart be just in sight -
A smile so small as mine might be
Precisely their necessity -

Carta de Emily Dickinson endereçada à Senhora Mary Channing Higginson em 1877. Na ocasião a Senhora Higginson encontrava-se seriamente doente e viria a falecer alguns meses depois.

Este texto é um exemplo de como não escrever uma carta, de como não escrever uma prosa. Principalmente para uma pessoa adoentada e preste a morrer. O assunto é descabido e revela uma esquizofrenia patente. O destinatário e a própria carta são apenas pretextos para uma construção literária! Ao moribundo o que interessa uma escrita livresca, ambígua, lacunar e metafórica? Imagino a expressão indagativa da Senhora Higginson ao ler a carta! Verão que há escassez de preposições, conjunções e pronomes no texto. Ora, como uma prosa pode existir na ausência de conectivos? Barbaridade!

Vamos à tradução.

Cara amiga.

Não posso deixar sobrevir a relva sem me lembrar de você, e quase ressentir meus pés ligeiros quando não são os seus - O poder de voar é doce, entretanto procrastina-se o voo, assim como Liberdade é Contentamento, entretanto nunca usada.

Eu te dou metade dos meus Pássaros - sobre a doce condição de que você os trará de volta - você mesma, e habitará um Dia comigo, e Alegria sem preço, eu mesma ganhei da Natureza -

Deste Acessório elétrico
Nada se conhece -
Embora seu único Momentum
Inebria nosso próprio.

Perdoe-me se eu venho com muita freqüência - o tempo de viver é frugal - e boa como é uma terra melhor, não será exatamente esta.

Como podia encontrar o caminho até você e o Senhor Higginson sem uma Grimpa, ou uma Rota (estrada, caminho)?

Podem não precisar de mim - por ora talvez não precisem -
Deixarei meu Coração bem à vista -
Um sorriso tão pequeno quanto o meu pode ser
Precisamente sua necessidade (a necessidade deles) -

Uma pieguice de menina colegial. Fala sentimental afetada. Emoção exagerada e descabida, fora de proporção. Metáforas esdrúxulas com uma sintaxe que não se livrou da forma poética. Será que a autora não teve aula de produção de texto?

Comentemos as estranhezas do texto.

 I cannot let the Grass come without remembering you, and half resent my rapid Feet, when they are not your's -

Metáfora infantil e piegas. Extremo descabimento ao utilizar a palavra “half” no lugar de “almost”.

The power to fly is sweet, though one defer the flying, as Liberty is Joy, though never used.

Bela forma poética que traduz concepções existenciais relevantes. Porém, a frase se atrapalha ao usar repetitivamente a conjunção “though” e a conjunção “as” ligando duas sentenças que já contêm cada uma delas, conjunção adversativa. Como disse antes, uma prosa que não se livrou da forma poética. O que temos então? Uma construção capenga e de mau gosto. Há um erro gramatical na conjugação do verbo “to defer”: “one defer the flying”; o sujeito é um pronome no singular, a saber, “one”; logo, o verbo deveria ser conjugado na terceira pessoa do singular, ou seja, “one defers the flying”. A idéia de um plural semântico não é descartável, mas plural semântico retrata pobreza intelectual: “people are”, “a gente fomos” etc.. Não existe semântica sem sintaxe; o pensamento é sintaxe e tudo que contraria isso não passa de emoção delirante. Por último, as duas frases estão completamente desconectadas, dois pensamentos jogados no texto e inapropriadamente ligados por um ridículo travessão. Um vocativo não teria sentido e precisaria de uma vírgula.

I give you half my Birds - upon the sweet condition that you will bring them back - yourself, and dwell a Day with me, and Bliss without a price, I earned myself of Nature

O final da frase é embolado e faltam conectivos para a sintaxe funcionar, caso contrário fica parecendo língua de índio como podemos notar na tradução feita. Na expressão “without a price” não cabe de forma alguma o artigo indefinido “a”. Deveria ser: “without price”.

Of whose electric Adjunct
Not anything is known -
Though it's unique Momentum
Inebriate our own.

Reparem no termo “of whose” e na denominação “electric Adjunct”. O primeiro simplesmente não existe e foi substituído por “of this” como aparece em outras versões do poema. O segundo: quem em sã consciência chamará um relâmpago de “acessório elétrico”?  Além disso, o apelo ao mistério reflete ignorância interiorana, visto que, o iluminista Benjamin Franklin já desvendara as crendices medievais com relação ás descargas elétricas no século 18, cerca de cem anos antes dessa carta. Outro erro gramatical de concordância verbal e um viracento sem sentido: “it’s unique momentum inebriate our own”. O sujeito “it’s unique momemtum” está no singular e o verbo “to inebriate” está no plural. Deveria ser: “it’s unique momentum inebriates our own”. O pronome possessivo é “its”, não há apóstrofo! Credo. O poema foi simplesmente enxertado no texto sem a mínima conexão com os outros parágrafos. Total esquizofrenia! Mesmo se “it’s” fosse “it is” a concordância estaria errada.

Forgive me if I come too much - the time to live is frugal - and good as is a better earth, it will not quite be this.

A primeira sentença é uma tremenda cacofonia semântica. Não sei como uma moça pode escrever uma coisa dessas para uma senhora moribunda. A terceira frase é simplesmente um amontoado de palavras tentando dizer algo, as classes gramaticais não se ajustam e a sintaxe se esvazia. Com isso o sentido fica louco. Quem escreve uma frase dessas certamente tem problema de cabeça! Possivelmente faltam modos subjuntivos e conexões apropriadas. Não estou disposto a descobri-las e fazer o trabalho do autor que deveria saber produzir um texto e usar corretamente a gramática.

O poema final, no entanto, é belíssimo e compensa todo o texto anterior. Deve ser lido separadamente da carta, pois ninguém sabe quem são eles “They who?” cara pálida! Na verdade não é uma carta, é um mosaico de poemas e pedaços de poemas completamente desarticulados.

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