terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F1128 (J1155) (FH435)


Emily Dickinson - Poema F1128 (J1155) (FH435)

Poema escrito em 1866 a lápis, assinado “Emily” e enviado à Susan Dickinson, sua cunhada, casada com seu irmão mais velho. Publicado em 1914.

Trata-se de um poema que se firma na escassez sintática, o que não é raro em ED. Esta escassez expõe uma beleza poética sem igual.

Distance - is not the Realm of Fox
Nor by Relay of Bird
Abated - Distance is
Until thyself, Beloved.

Na primeira folha de papel em que o poema foi escrito ele se encontra com duas linhas a mais:

Distance - is not
the Realm of Fox
Nor by Relay of
Bird
Abated - Distance is
Until thyself, Beloved.

Nas publicações o poema sofre mais mudanças. Ele foi publicado na seguinte forma:

Distance - is not the Realm of Fox
Nor by Relay as Bird
Abated - Distance is Until
thyself, Beloved.

Vamos à tradução acompanhando o texto em inglês da primeira forma acima, depois pensamos em uma forma poética para o poema em português. (Deixo para o leitor esta tarefa.) Observo que ED não brinca com palavras. Cada palavra tem sua alusão pertinente, sua conotação ou denotação apropriadas. Em muitos poemas o sentido vem muito mais das palavras deixando a sintaxe em segundo plano. Exatamente o que temos neste presente poema: a palavra “distância” é enfatizada através de conotações das palavras Raposa, Território, Revezamento e Pássaro. Reparem que todas elas aparecem com letra maiúscula no poema. Ainda, “Abatido”: o pássaro cansado é substituído por outro para continuar o percurso, um revezamento, “Relay”.

Distância - não é o Território de Raposa
Nem por Revezamento de Pássaro
Abatido - Distância é
Até a ti mesmo, querido.

Será querida em vez de querido? Quem está apenas lendo o poema sem saber a sua história vai ler querido. Até a ti mesma ou a ti mesmo? Pode estar se referindo à distância afetiva entre duas pessoas ou entre a pessoa e ela mesma, uma visão mais psicológica de autoconhecimento. Não importa! Abatido = sem força, prostrado, cansado. Aqui não se trata de abater no sentido de matar o animal, pois em inglês, “Abated” não tem este significado. “Relay” = revezamento, corrida de revezamento, substituir. Todo o poema se resume na frase: “Distance is until thyself”. Todas as outras situações do texto conotam “Distância”, exatamente o que a escritora quer: enfatizar, dar a devida importância, chamar a atenção, aumentar a percepção, o conceito e o sentido de Distância. Diria mesmo exagerar e dramatizar, para depois escrever a sublime conclusão a qual, sozinha, desacompanhada do resto do texto jamais teria a força poética desejada por ED.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F1449 (J1144) (FH433)


Emily Dickinson - Poema F1449 (J1144) (FH433)

Poema escrito em 1877, a lápis, em uma carta a Samuel Bowles. Tudo indica que ED esteja se referindo a uma fotografia de Bowles tirada quando ele comemorava 50 anos de idade. A carta encontra-se em Carta (J489). A fotografia de Bowles também se encontra publicada junto com a carta no Volume II do livro de T. H. Johnson citado acima.

O poema vem logo depois da frase:

You have the most triumphant Face out of the Paradise - probably because you are there constantly, instead of ultimately -

Tu tens a mais triunfante Face fora do Paraíso - provavelmente porque tu ficas lá constantemente, em vez de finalmente -

A terminação da frase é muito peculiar. Colocar dois advérbios juntos! Vejamos, porém, que “constantly” conjuga com “ultimately”, não só na rima, mas na pronúncia: as sílabas tônicas são as primeiras sílabas em ambas as palavras. Isso favorece o ritmo da frase e ainda se junta à palavra “probably”. Maravilha! O problema é a elipse, nada fácil! Uma zeugma! (Tu ficas lá constantemente em vez de ir para o paraíso só no final: finalmente foi para o paraíso, dizem, mas ele não, Bowles está lá constantemente, permanentemente.)

Na verdade a carta consiste somente nesta frase e o poema que vem em seguida, nada mais. Possivelmente, ED só está dando conhecimento de que recebeu uma cópia da fotografia.

Reparem que mesmo uma frase supostamente em prosa se transforma em um poema. Definitivamente ED é incapaz de se afastar da escrita poética. Muito se fala sobre a mania que ED tem de usar hífen ou travessão como sinal gráfico. Aparece constantemente em sua escrita e virou uma característica marcante da escritora. Há teses e estudos acadêmicos sobre isso - o academicismo - Coisa de intelectual que não tem o que fazer e quer publicar algo. Ora, ED gosta e acha bonito usar estes sinais gráficos, que, aliás, nunca se sabe se é hífen ou travessão, mas há intelectual que insiste em fazer diferença entre o uso dos dois. Não passa de um TOC da escritora, com valor estético certamente. Porém, acadêmicos gostam de inventar emendas acadêmicas. Vamos chamá-las de PEA, (projetos de emenda acadêmica).  Vejam o que fala a intelectual portuguesa Ana Luísa Amaral em seu Blog: “O seu uso recorrente de travessões, que fragmentam e questionam o verso, permitiu que deles se dissesse serem formas de dispersão da unidade discursiva, ou, sexualizados, uma espécie de hímen-hifen”. Fico a me perguntar: de onde esta mulher tirou este pensamento e este discurso, ambos vazios, ocos e completamente desnecessários.

Bem, falamos da carta e nos esquecemos do principal: o poema. Vamos a ele agora.

Ourselves - we do inter - with sweet derision
The channel of the Dust - who once achieves -
Invalidates the Balm of that Religion
That doubts - as fervently as it believes -

O poema foi publicado como poema, em 1955 e em 1960. Em prosa como carta, em 1894. No manuscrito a lápis encontramos o poema assim:

Ourselves - we
do inter - with
sweet derision
The channel of
the Dust - who
once achieves -
Invalidates the
Balm of that
Religion (muda de página)
That doubts - as
fervently as it
believes -

A primeira versão é como encontramos na carta enviada ao senhor Bowles. Vamos deixar desse jeito.

Nós mesmos - de fato nós enterramos - com gentil motejo
O leito do Pó - quem uma vez alcança -
Invalida o Bálsamo desta Religião
Que duvida - tão fervorosamente quanto crê -

Poema de uma força extraordinária. Denuncia fervorosamente a hipocrisia da comunidade cristã da qual ED pertencia. Denúncia sutil, bem observada e de difícil apreensão.

Acho razoável traduzir “The channel of the Dust” por “O leito do Pó”. A palavra “channel” não foi uma boa escolha de ED. Já, “Dust” faz alusão a funeral, pois, temos a expressão muito comum usada em todos os funerais, qual seja, “ashes to ashes, dust to dust”. A frase vem do Livro de Orações oficial da Inglaterra de 1662 e é uma adaptação do texto de Gênesis: “Lembra-te, homem. Do pó vieste e ao pó voltarás”.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F1079 (J897)


Emily Dickinson - Poema F1079 (J897)


How fortunate the Grave -
All Prizes to obtain,
Successful certain, if at last,
First Suitor not in vain.

Esta é a disposição do poema apresentada pelos editores. A versão original manuscrita por Emily Dickinson se dispõe assim:

How fortunate the Grave -
All Prizes to obtain,
Successful certain, if at
last,
First Suitor not in vain.

Há uma quebra de linha com a formação de um verso a mais. Essa inconformidade se deve ao fato de que Emily Dickinson despencava suas poesias em qualquer papel de pão, envelope, margem, sobra em branco, resto de anotação, etc.. Assim, nunca se sabe quando uma quebra de linha é intencional ou ocasionada pelos empecilhos dos primários suportes da tinta oriunda de sua pena.

O poema tem apenas um verbo empregado no infinitivo! Maravilhas de ED: concisão. Em um primeiro olhar somos tentados a apreender a conjunção “if” como condicional, mas logo vemos que isso não se ajusta ao texto. Percebemos que se trata de uma conjunção causal.

A disposição original dos versos, mesmo que seja acidental - o que na verdade não importa muito ou mesmo nada - me parece mais atrativa, pois suscita uma situação homoclínica: o alfa e o ômega, o princípio e o fim, o último e o primeiro, em uma perpétua órbita sem começo e sem fim. (last, first, last, first, ...)

Quão afortunado o túmulo -
Todos os prêmios a receber,
Exitoso certo, se
afinal,
Primeiro pretendente jamais em vão.


Imprescindível destacar a ironia do poema, nem parece ED! Pois é! Ela também sabe ser irônica!

Cabe uma observação gramatical. A palavra “certain” que é um adjetivo, ou pronome indefinido, funciona como advérbio. Não é incomum encontrar em ED sua própria gramática. Certamente ela se utilizou da palavra “certain” para conjugar com “obtain” e “vain”. A gramática se acomoda à estética de maneira muito pertinente. O poema flui maravilhosamente.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Emily Dickinson – F434 (J417)


Emily Dickinson – F434 (J417)

It is dead - Find it -
Out of sound - Out of Sight -
“Happy”? Which is wiser -
You, or the Wind?
“Conscious”? Wont you ask that -
Of the low Ground?

“Homesick”? Many met it -
Even through them - This cannot testify -
Themsef - as dumb -

Poema escrito no final de 1862, manuscrito em fascículo e publicado em 1929. Esta é a versão manuscrita original. Outras publicações corrigem e modificam o texto. Vejamos. Na linha 4 a frase foi modificada, em vez de You colocaram Sun; a linha 8 foi quebrada e ficou:

Even through them - This
Cannot testify -

Em J417 a quebra de linha já aparece. O erro gramatical foi corrigido: Themself por Themselves. A última linha além de corrigida gramaticalmente foi também mudada para Themselves dumb. Quem retirou o pronome “as” atrapalhou o uso do verbo testify.

Em algumas publicações, incluindo J417, o verbo Wont foi trocado por Won’t, contração de Will not.

Vamos à tradução.

Está morto - Encontrem -
Ausente do som - Ausente da Visão -
“Feliz”? Qual é mais sábio -
Você, ou o Vento?
“Consciente”? Você costuma perguntar isso -
 Do posto sob a terra?

“Com Saudades”? Muitos o receberam -
Mesmo assim - Não podemos testificá-los -
Como apoucados.

Bem, segui o texto original manuscrito. Não sei o motivo pelo qual T. H. Johnson achou que há uma quebra de linha. R. W. Franklin não concorda com isso. Talvez o manuscrito não esteja muito claro e dá margem a duvidas. Não sei quem trocou You por Sol. Tavez pelo fato de ED utilizar Which em vez de Who. Não justifica a mudança, pois ela pode muito bem evidenciar o vento em vez da pessoa.

Quanto ao verbo wont pergunto, por que achar que seria will not e que ED simplesmente se esqueceu do apóstrofo indicando a contração?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F500 (J685)


Emily Dickinson - Poema F500 (J685)

Havia dois manuscritos deste poema, um se perdeu. ED os escreveu em 1863. As linhas, apenas duas, apareceram como verso em uma carta a T. W. Higginson. A mesma carta em que está o Poema F499. Falamos sobre esta carta na tradução do Poema F499 e um fato curioso é que ED assina a carta com o nome: “Your Gnome -”. O próprio Higginson nunca soube explicar a razão pela qual ED usou esta assinatura.

Na carta há uma frase que precede o poema e eu acho que ela deve acompanhar os dois versos. A frase é a seguinte:

I was thinking, today - as I noticed, that the “Supernatural”, was only the Natural, disclosed -

(Eu estava pensando, hoje - quando eu percebi, que o “Supernatural”, era somente o Natural, manifestado -). De outra forma: O natural manifestado, revelado, exposto, era o que achávamos ser o sobrenatural. Este é o sentido da frase, mas não é o estilo de ED escrever.

Not “Revelation” - ‘tis - that waits,
But our unfurnished eyes -

Não a “Revelação” - é - que espera,
Mas nossos desguarnecidos olhos -

Outra maneira:

Não é a “Revelação” que espera,
Mas, nossos desguarnecidos olhos.

Reparem que a segunda tradução, afasta-se do original com a retirada da grande pausa feita para pronunciar o verbo. Acho que a primeira tradução está mais perto do estilo poético de ED.

No manuscrito o poema aparece assim:

Not “Revelation” - ‘tis -
that waits,
(quebra de página)
But our unfurnished
eyes -

A cunhada de ED, Susan Dickinson, casada com seu irmão mais velho, transcreveu o texto do manuscrito perdido em forma de prosa:

Not Revelation t’is that
waits, but our unfurnished
Eyes -

Reparem que há uma retificação feita pela cunhada: no lugar de “’tis” a cunhada colocou “t’is”. Algo descabido, pois a contração de “it is” é “’tis” e não “t’is”. Quem se confundiu foi a cunhada e ainda sumiu com o manuscrito! O uso “’tis” é comum em poemas, vários poetas utilizam esta forma de contração por causa da métrica. Aí me vem a cunhada e atrapalha o verso, e ainda pior, coloca uma forma de contração que não existe. Ela deve ter se distraído na hora de corrigir, só pode! Com certeza a irmã queria escrever “it’s” que é a forma usual da contração de “it is”. (Erro de digitação.)

Emily Dickinson - Poema F499 (J684) - Carta (J280)


Emily Dickinson - Poema F499 (J684) - Carta (J280)

Manuscrito em 1863 e copiado em uma carta enviada ao senhor T. W. Higginson quando ele, sem avisar à ED, foi para a Carolina do Sul em uma missão de guerra como comandante de um regimento de soldados negros. A carta é hilária, mas não vamos transcrevê-la aqui.

Carlo - still remained - and I told him -

Carlo - ainda vive - e eu disse a ele -

(Esta é a frase da carta que antecede o poema. Carlo é o cachorro de estimação de ED que estava para morrer.)

Best Gains - must have the Losse’ test -
To constitute them - Gains.

My Shaggy Ally assented -

Meu peludo Confederado concordou -

(Esta frase da carta vem logo após o final do poema de duas linhas apenas. ED provoca o senhor Higginton chamando o cão de “meu aliado”, em que a palavra aliado tem o sentido de confederado, ou seja, alude à confederação sulista a qual o senhor Higginson luta contra. ED não gostou nada do amigo Higginson partir sem avisá-la!)

Melhores Ganhos - têm que passar pelo teste das Perdas -
Para se constituírem - Ganhos.

Em Johnson encontramos “- Gains -” em vez de “- Gains.” como escreve Franklin. Na carta a escrita está como em Johnson. Significa que no manuscrito está como Franklin mostra e a mudança veio quando ED passou do manuscrito para a carta. Johnson usou a carta como referência, já Franklin buscou a fonte mais antiga. Franklin ainda mostra que no manuscrito há uma quebra de linha no verbete “must”:

Best Gains - must
have the Losses’ test -
To constitute them - Gains.

Há ainda um questionamento sobre o uso do genitivo “Losses’ test”. Geralmente, não se usa o genitivo quando o possuidor é um ser inanimado. Há exceções, mas não é o caso utilizado no poema. É possível que ao usar o genitivo na palavra “loss” no plural, ED queira conotar um grupo de pessoas perdedoras.