Emily
Dickinson - Poema F1449 (J1144) (FH433)
Poema
escrito em 1877, a lápis, em uma carta a Samuel Bowles. Tudo indica que ED
esteja se referindo a uma fotografia de Bowles tirada quando ele comemorava 50
anos de idade. A carta encontra-se em Carta (J489). A fotografia de Bowles
também se encontra publicada junto com a carta no Volume II do livro de T. H.
Johnson citado acima.
O
poema vem logo depois da frase:
You have the most triumphant
Face out of the Paradise - probably because you are there constantly, instead
of ultimately -
Tu
tens a mais triunfante Face fora do Paraíso - provavelmente porque tu ficas lá
constantemente, em vez de finalmente -
A
terminação da frase é muito peculiar. Colocar dois advérbios juntos! Vejamos,
porém, que “constantly” conjuga com “ultimately”, não só na rima, mas na
pronúncia: as sílabas tônicas são as primeiras sílabas em ambas as palavras.
Isso favorece o ritmo da frase e ainda se junta à palavra “probably”. Maravilha! O problema é a elipse, nada fácil! Uma
zeugma! (Tu ficas lá constantemente em vez de ir para o paraíso só no final:
finalmente foi para o paraíso, dizem, mas ele não, Bowles está lá
constantemente, permanentemente.)
Na
verdade a carta consiste somente nesta frase e o poema que vem em seguida, nada
mais. Possivelmente, ED só está dando conhecimento de que recebeu uma cópia da
fotografia.
Reparem
que mesmo uma frase supostamente em prosa se transforma em um poema. Definitivamente
ED é incapaz de se afastar da escrita poética. Muito se fala sobre a mania que
ED tem de usar hífen ou travessão como sinal gráfico. Aparece constantemente em
sua escrita e virou uma característica marcante da escritora. Há teses e
estudos acadêmicos sobre isso - o academicismo - Coisa de intelectual que não
tem o que fazer e quer publicar algo. Ora, ED gosta e acha bonito usar estes
sinais gráficos, que, aliás, nunca se sabe se é hífen ou travessão, mas há
intelectual que insiste em fazer diferença entre o uso dos dois. Não passa de
um TOC da escritora, com valor estético certamente. Porém, acadêmicos gostam de
inventar emendas acadêmicas. Vamos chamá-las de PEA, (projetos de emenda
acadêmica). Vejam o que fala a
intelectual portuguesa Ana Luísa Amaral em seu Blog: “O seu uso recorrente de travessões, que fragmentam e questionam o
verso, permitiu que deles se dissesse serem formas de dispersão da unidade
discursiva, ou, sexualizados, uma espécie de hímen-hifen”. Fico a me perguntar:
de onde esta mulher tirou este pensamento e este discurso, ambos vazios, ocos e
completamente desnecessários.
Bem,
falamos da carta e nos esquecemos do principal: o poema. Vamos a ele agora.
Ourselves - we do inter
- with sweet derision
The channel of the Dust
- who once achieves -
Invalidates the Balm of
that Religion
That doubts - as
fervently as it believes -
O
poema foi publicado como poema, em 1955 e em 1960. Em prosa como carta, em
1894. No manuscrito a lápis encontramos o poema assim:
Ourselves - we
do inter - with
sweet derision
The channel of
the Dust - who
once achieves -
Invalidates the
Balm of that
Religion (muda de
página)
That doubts - as
fervently as it
believes -
A
primeira versão é como encontramos na carta enviada ao senhor Bowles. Vamos
deixar desse jeito.
Nós
mesmos - de fato nós enterramos - com gentil motejo
O
leito do Pó - quem uma vez alcança -
Invalida
o Bálsamo desta Religião
Que
duvida - tão fervorosamente quanto crê -
Poema
de uma força extraordinária. Denuncia fervorosamente a hipocrisia da comunidade
cristã da qual ED pertencia. Denúncia sutil, bem observada e de difícil
apreensão.
Acho
razoável traduzir “The channel of the
Dust” por “O leito do Pó”. A palavra “channel”
não foi uma boa escolha de ED. Já, “Dust”
faz alusão a funeral, pois, temos a expressão muito comum usada em todos os
funerais, qual seja, “ashes to ashes,
dust to dust”. A frase vem do Livro de Orações oficial da Inglaterra de
1662 e é uma adaptação do texto de Gênesis: “Lembra-te, homem. Do pó vieste e
ao pó voltarás”.
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