domingo, 29 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F1449 (J1144) (FH433)


Emily Dickinson - Poema F1449 (J1144) (FH433)

Poema escrito em 1877, a lápis, em uma carta a Samuel Bowles. Tudo indica que ED esteja se referindo a uma fotografia de Bowles tirada quando ele comemorava 50 anos de idade. A carta encontra-se em Carta (J489). A fotografia de Bowles também se encontra publicada junto com a carta no Volume II do livro de T. H. Johnson citado acima.

O poema vem logo depois da frase:

You have the most triumphant Face out of the Paradise - probably because you are there constantly, instead of ultimately -

Tu tens a mais triunfante Face fora do Paraíso - provavelmente porque tu ficas lá constantemente, em vez de finalmente -

A terminação da frase é muito peculiar. Colocar dois advérbios juntos! Vejamos, porém, que “constantly” conjuga com “ultimately”, não só na rima, mas na pronúncia: as sílabas tônicas são as primeiras sílabas em ambas as palavras. Isso favorece o ritmo da frase e ainda se junta à palavra “probably”. Maravilha! O problema é a elipse, nada fácil! Uma zeugma! (Tu ficas lá constantemente em vez de ir para o paraíso só no final: finalmente foi para o paraíso, dizem, mas ele não, Bowles está lá constantemente, permanentemente.)

Na verdade a carta consiste somente nesta frase e o poema que vem em seguida, nada mais. Possivelmente, ED só está dando conhecimento de que recebeu uma cópia da fotografia.

Reparem que mesmo uma frase supostamente em prosa se transforma em um poema. Definitivamente ED é incapaz de se afastar da escrita poética. Muito se fala sobre a mania que ED tem de usar hífen ou travessão como sinal gráfico. Aparece constantemente em sua escrita e virou uma característica marcante da escritora. Há teses e estudos acadêmicos sobre isso - o academicismo - Coisa de intelectual que não tem o que fazer e quer publicar algo. Ora, ED gosta e acha bonito usar estes sinais gráficos, que, aliás, nunca se sabe se é hífen ou travessão, mas há intelectual que insiste em fazer diferença entre o uso dos dois. Não passa de um TOC da escritora, com valor estético certamente. Porém, acadêmicos gostam de inventar emendas acadêmicas. Vamos chamá-las de PEA, (projetos de emenda acadêmica).  Vejam o que fala a intelectual portuguesa Ana Luísa Amaral em seu Blog: “O seu uso recorrente de travessões, que fragmentam e questionam o verso, permitiu que deles se dissesse serem formas de dispersão da unidade discursiva, ou, sexualizados, uma espécie de hímen-hifen”. Fico a me perguntar: de onde esta mulher tirou este pensamento e este discurso, ambos vazios, ocos e completamente desnecessários.

Bem, falamos da carta e nos esquecemos do principal: o poema. Vamos a ele agora.

Ourselves - we do inter - with sweet derision
The channel of the Dust - who once achieves -
Invalidates the Balm of that Religion
That doubts - as fervently as it believes -

O poema foi publicado como poema, em 1955 e em 1960. Em prosa como carta, em 1894. No manuscrito a lápis encontramos o poema assim:

Ourselves - we
do inter - with
sweet derision
The channel of
the Dust - who
once achieves -
Invalidates the
Balm of that
Religion (muda de página)
That doubts - as
fervently as it
believes -

A primeira versão é como encontramos na carta enviada ao senhor Bowles. Vamos deixar desse jeito.

Nós mesmos - de fato nós enterramos - com gentil motejo
O leito do Pó - quem uma vez alcança -
Invalida o Bálsamo desta Religião
Que duvida - tão fervorosamente quanto crê -

Poema de uma força extraordinária. Denuncia fervorosamente a hipocrisia da comunidade cristã da qual ED pertencia. Denúncia sutil, bem observada e de difícil apreensão.

Acho razoável traduzir “The channel of the Dust” por “O leito do Pó”. A palavra “channel” não foi uma boa escolha de ED. Já, “Dust” faz alusão a funeral, pois, temos a expressão muito comum usada em todos os funerais, qual seja, “ashes to ashes, dust to dust”. A frase vem do Livro de Orações oficial da Inglaterra de 1662 e é uma adaptação do texto de Gênesis: “Lembra-te, homem. Do pó vieste e ao pó voltarás”.

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