sábado, 11 de abril de 2020

Insuperável Comunicabilidade (1)


Insuperável Comunicabilidade (1)

Portanto, assim diz o Senhor Deus dos Exércitos, o Deus de Israel: Eis que Eu trarei sobre Judá, e sobre todos os habitantes de Jerusalém, todo o mal que Eu pronunciei contra eles, porque Eu lhes falei, mas eles não ouviram, Eu os chamei, porém eles não responderam.

Jeremias35.17

Hora do início da aula. O professor José Machado entra em sala de aula. Classe do curso de odontologia da Universidade de Alfenas. O murmurinho de sempre! O professor Machado vai para diante do quadro negro e repetidas vezes pede silêncio dizendo: hora de começar, façam silêncio e assentem-se. Após alguns minutos faz-se quietude na sala. Machado tira o livro texto da pasta, abre na página 92 e dirige-se para a turma: hoje vamos fazer a leitura de uma situação odontológica elucidativa que está descrita no Capítulo 5 de nosso livro. O professor passa os olhos na página, pensa um pouco e pede aos alunos que abram o livro na página 92. Escutam-se barulhos de folhas e livros batendo na madeira das carteiras. José Machado pede silêncio e começa a ler em voz alta o conteúdo da página. Em menos de dois minutos ouve-se a pergunta de um aluno: qual página, professor? Ele responde: página 92. Começa novamente a leitura. Os alunos seguem o texto acompanhando a leitura do professor. Outro aluno distraído interrompe a leitura e pergunta: qual a página, professor? José pacientemente diz: página 92. Devido à interrupção provocada pelo aluno distraído e sua intrepidez em perguntar, José é obrigado a recomeçar a leitura desde o início.

A leitura já transcorria dentro de um clima de concentração da classe quando um terceiro aluno, folheando ruidosamente o livro sobre a carteira como se estivesse procurando a página, indaga com a voz elevada: qual é mesmo a página? José interrompe a aula e começa a andar pela sala passando de fila em fila como se passasse em revista um pelotão. Foi até ao aluno que folheava o livro e falou: um pouco mais para frente, você está no Capítulo 4, a página 92 fica no Capítulo 5. Viu? Aqui está! Mostrou o professor. O aluno sem demostrar o menor constrangimento agradece: obrigado pela ajuda!

José Machado continua sua revista e caminha para a parte de trás da sala. Percebe então, que um aluno se encontra sentado e com o livro fechado em cima da carteira. Machado pergunta: você não vai abrir o livro e acompanhar a leitura que estamos fazendo? Este responde apressado com olhar fingindo espanto: vou sim professor, mas me diz qual é a página, estou sem saber. José calmamente fala: página 92. O aluno continua: de qual capítulo professor? Nesta hora toda a turma começa a rir e uma voz vinda da sala diz: só pode ser do Capítulo 5 sua anta! José pede silêncio e respeito aos colegas em sala de aula. Finalmente ele abre o livro na página certa e passa a olhar fixamente o conteúdo que lhe fugia. Não tinha a menor ideia do que poderia estar no livro e do que se passava dentro daquela sala de aula. Limitado ao mero conhecimento empírico estava certamente no lugar errado. Sua presença ali já é um deboche à docência.

O professor continuou sua caminhada até o final da sala, na última fileira. Parou. Outro aluno, mas agora sentado sem livro algum em cima da carteira. José perguntou: você não vai participar da aula? O aluno respondeu: vou sim professor, claro, claro, vou sim. Então abra o livro, replicou José Machado. O aluno, um rapagão forte, cabelo louro oxigenado, cortado rente, olhou para José com meiguice preguiçosa e soltou a pergunta: qual livro professor?

Essa rotina permanecia por anos e anos, toda aula era a mesma coisa, por mais divulgado que seja o aviso sempre há quem não ouve. Por mais que se decrete uma regra há sempre quem não cumpre. Na comunicação há um limite sempre aquém da abrangência total, pois não existe o que se fala, mas somente o que se ouve.



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