Insuperável
Comunicabilidade (1)
Portanto, assim
diz o Senhor Deus dos Exércitos, o Deus de Israel: Eis que Eu trarei sobre
Judá, e sobre todos os habitantes de Jerusalém, todo o mal que Eu pronunciei
contra eles, porque Eu lhes falei, mas eles não ouviram, Eu os chamei, porém
eles não responderam.
Jeremias35.17
Hora
do início da aula. O professor José Machado entra em sala de aula. Classe do
curso de odontologia da Universidade de Alfenas. O murmurinho de sempre! O
professor Machado vai para diante do quadro negro e repetidas vezes pede
silêncio dizendo: hora de começar, façam silêncio e assentem-se. Após alguns
minutos faz-se quietude na sala. Machado tira o livro texto da pasta, abre na
página 92 e dirige-se para a turma: hoje vamos fazer a leitura de uma situação
odontológica elucidativa que está descrita no Capítulo 5 de nosso livro. O
professor passa os olhos na página, pensa um pouco e pede aos alunos que abram
o livro na página 92. Escutam-se barulhos de folhas e livros batendo na madeira
das carteiras. José Machado pede silêncio e começa a ler em voz alta o conteúdo
da página. Em menos de dois minutos ouve-se a pergunta de um aluno: qual
página, professor? Ele responde: página 92. Começa novamente a leitura. Os
alunos seguem o texto acompanhando a leitura do professor. Outro aluno
distraído interrompe a leitura e pergunta: qual a página, professor? José
pacientemente diz: página 92. Devido à interrupção provocada pelo aluno
distraído e sua intrepidez em perguntar, José é obrigado a recomeçar a leitura
desde o início.
A
leitura já transcorria dentro de um clima de concentração da classe quando um
terceiro aluno, folheando ruidosamente o livro sobre a carteira como se
estivesse procurando a página, indaga com a voz elevada: qual é mesmo a página?
José interrompe a aula e começa a andar pela sala passando de fila em fila como
se passasse em revista um pelotão. Foi até ao aluno que folheava o livro e
falou: um pouco mais para frente, você está no Capítulo 4, a página 92 fica no
Capítulo 5. Viu? Aqui está! Mostrou o professor. O aluno sem demostrar o menor
constrangimento agradece: obrigado pela ajuda!
José
Machado continua sua revista e caminha para a parte de trás da sala. Percebe
então, que um aluno se encontra sentado e com o livro fechado em cima da
carteira. Machado pergunta: você não vai abrir o livro e acompanhar a leitura
que estamos fazendo? Este responde apressado com olhar fingindo espanto: vou
sim professor, mas me diz qual é a página, estou sem saber. José calmamente
fala: página 92. O aluno continua: de qual capítulo professor? Nesta hora toda
a turma começa a rir e uma voz vinda da sala diz: só pode ser do Capítulo 5 sua
anta! José pede silêncio e respeito aos colegas em sala de aula. Finalmente ele
abre o livro na página certa e passa a olhar fixamente o conteúdo que lhe
fugia. Não tinha a menor ideia do que poderia estar no livro e do que se
passava dentro daquela sala de aula. Limitado ao mero conhecimento empírico
estava certamente no lugar errado. Sua presença ali já é um deboche à docência.
O
professor continuou sua caminhada até o final da sala, na última fileira. Parou.
Outro aluno, mas agora sentado sem livro algum em cima da carteira. José
perguntou: você não vai participar da aula? O aluno respondeu: vou sim
professor, claro, claro, vou sim. Então abra o livro, replicou José Machado. O
aluno, um rapagão forte, cabelo louro oxigenado, cortado rente, olhou para José
com meiguice preguiçosa e soltou a pergunta: qual livro professor?
Essa
rotina permanecia por anos e anos, toda aula era a mesma coisa, por mais
divulgado que seja o aviso sempre há quem não ouve. Por mais que se decrete uma
regra há sempre quem não cumpre. Na comunicação há um limite sempre aquém da
abrangência total, pois não existe o que se fala, mas somente o que se ouve.

Nenhum comentário:
Postar um comentário