terça-feira, 19 de novembro de 2019

Emily Dickinson - Carta J498


Emily Dickinson - Carta J498

Dear friend.

I cannot let the Grass come without remembering you, and half resent my rapid Feet, when they are not your's - The power to fly is sweet, though one defer the flying, as Liberty is Joy, though never used.

I give you half my Birds - upon the sweet condition that you will bring them back - yourself, and dwell a Day with me, and Bliss without a price, I earned myself of Nature -

Of whose electric Adjunct
Not anything is known -
Though it's unique Momentum
Inebriate our own.

Forgive me if I come too much - the time to live is frugal - and good as is a better earth, it will not quite be this.

How could I find the way to you and Mr Higginson without a Vane, or any Road?

They might not need me - yet they might -
I'll let my Heart be just in sight -
A smile so small as mine might be
Precisely their necessity -

Carta de Emily Dickinson endereçada à Senhora Mary Channing Higginson em 1877. Na ocasião a Senhora Higginson encontrava-se seriamente doente e viria a falecer alguns meses depois.

Este texto é um exemplo de como não escrever uma carta, de como não escrever uma prosa. Principalmente para uma pessoa adoentada e preste a morrer. O assunto é descabido e revela uma esquizofrenia patente. O destinatário e a própria carta são apenas pretextos para uma construção literária! Ao moribundo o que interessa uma escrita livresca, ambígua, lacunar e metafórica? Imagino a expressão indagativa da Senhora Higginson ao ler a carta! Verão que há escassez de preposições, conjunções e pronomes no texto. Ora, como uma prosa pode existir na ausência de conectivos? Barbaridade!

Vamos à tradução.

Cara amiga.

Não posso deixar sobrevir a relva sem me lembrar de você, e quase ressentir meus pés ligeiros quando não são os seus - O poder de voar é doce, entretanto procrastina-se o voo, assim como Liberdade é Contentamento, entretanto nunca usada.

Eu te dou metade dos meus Pássaros - sobre a doce condição de que você os trará de volta - você mesma, e habitará um Dia comigo, e Alegria sem preço, eu mesma ganhei da Natureza -

Deste Acessório elétrico
Nada se conhece -
Embora seu único Momentum
Inebria nosso próprio.

Perdoe-me se eu venho com muita freqüência - o tempo de viver é frugal - e boa como é uma terra melhor, não será exatamente esta.

Como podia encontrar o caminho até você e o Senhor Higginson sem uma Grimpa, ou uma Rota (estrada, caminho)?

Podem não precisar de mim - por ora talvez não precisem -
Deixarei meu Coração bem à vista -
Um sorriso tão pequeno quanto o meu pode ser
Precisamente sua necessidade (a necessidade deles) -

Uma pieguice de menina colegial. Fala sentimental afetada. Emoção exagerada e descabida, fora de proporção. Metáforas esdrúxulas com uma sintaxe que não se livrou da forma poética. Será que a autora não teve aula de produção de texto?

Comentemos as estranhezas do texto.

 I cannot let the Grass come without remembering you, and half resent my rapid Feet, when they are not your's -

Metáfora infantil e piegas. Extremo descabimento ao utilizar a palavra “half” no lugar de “almost”.

The power to fly is sweet, though one defer the flying, as Liberty is Joy, though never used.

Bela forma poética que traduz concepções existenciais relevantes. Porém, a frase se atrapalha ao usar repetitivamente a conjunção “though” e a conjunção “as” ligando duas sentenças que já contêm cada uma delas, conjunção adversativa. Como disse antes, uma prosa que não se livrou da forma poética. O que temos então? Uma construção capenga e de mau gosto. Há um erro gramatical na conjugação do verbo “to defer”: “one defer the flying”; o sujeito é um pronome no singular, a saber, “one”; logo, o verbo deveria ser conjugado na terceira pessoa do singular, ou seja, “one defers the flying”. A idéia de um plural semântico não é descartável, mas plural semântico retrata pobreza intelectual: “people are”, “a gente fomos” etc.. Não existe semântica sem sintaxe; o pensamento é sintaxe e tudo que contraria isso não passa de emoção delirante. Por último, as duas frases estão completamente desconectadas, dois pensamentos jogados no texto e inapropriadamente ligados por um ridículo travessão. Um vocativo não teria sentido e precisaria de uma vírgula.

I give you half my Birds - upon the sweet condition that you will bring them back - yourself, and dwell a Day with me, and Bliss without a price, I earned myself of Nature

O final da frase é embolado e faltam conectivos para a sintaxe funcionar, caso contrário fica parecendo língua de índio como podemos notar na tradução feita. Na expressão “without a price” não cabe de forma alguma o artigo indefinido “a”. Deveria ser: “without price”.

Of whose electric Adjunct
Not anything is known -
Though it's unique Momentum
Inebriate our own.

Reparem no termo “of whose” e na denominação “electric Adjunct”. O primeiro simplesmente não existe e foi substituído por “of this” como aparece em outras versões do poema. O segundo: quem em sã consciência chamará um relâmpago de “acessório elétrico”?  Além disso, o apelo ao mistério reflete ignorância interiorana, visto que, o iluminista Benjamin Franklin já desvendara as crendices medievais com relação ás descargas elétricas no século 18, cerca de cem anos antes dessa carta. Outro erro gramatical de concordância verbal e um viracento sem sentido: “it’s unique momentum inebriate our own”. O sujeito “it’s unique momemtum” está no singular e o verbo “to inebriate” está no plural. Deveria ser: “it’s unique momentum inebriates our own”. O pronome possessivo é “its”, não há apóstrofo! Credo. O poema foi simplesmente enxertado no texto sem a mínima conexão com os outros parágrafos. Total esquizofrenia! Mesmo se “it’s” fosse “it is” a concordância estaria errada.

Forgive me if I come too much - the time to live is frugal - and good as is a better earth, it will not quite be this.

A primeira sentença é uma tremenda cacofonia semântica. Não sei como uma moça pode escrever uma coisa dessas para uma senhora moribunda. A terceira frase é simplesmente um amontoado de palavras tentando dizer algo, as classes gramaticais não se ajustam e a sintaxe se esvazia. Com isso o sentido fica louco. Quem escreve uma frase dessas certamente tem problema de cabeça! Possivelmente faltam modos subjuntivos e conexões apropriadas. Não estou disposto a descobri-las e fazer o trabalho do autor que deveria saber produzir um texto e usar corretamente a gramática.

O poema final, no entanto, é belíssimo e compensa todo o texto anterior. Deve ser lido separadamente da carta, pois ninguém sabe quem são eles “They who?” cara pálida! Na verdade não é uma carta, é um mosaico de poemas e pedaços de poemas completamente desarticulados.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Escola Sem Partido


Escola Sem Partido

Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto ao que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. Se Deus é por nós, quem será contra nós? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? Se é Deus quem os justifica. Quem os condenará? Se é Cristo Jesus, à direita de Deus, quem intercede por nós.

Rom8.26-34

Em 2004 começaram uma discussão que foi chamada de Escola Sem Partido. Bem, este assunto já era conhecido em Magdalen College School na cidade de Oxford provavelmente desde a sua fundação no século XV. A alegação é muito simples, qual seja, toda escola só pode ensinar a verdade. Só isso! Sandrine Piau, professora de história da Escola Magdalen sabe muito bem disso e suas aulas são realmente impecáveis; seguem estritamente o conceito da Escola Sem Partido.

Sandrine nasceu na Inglaterra, mas sua mãe é francesa, uma famosa cantora lírica especialista em áreas e recitativos barrocos. Atualmente trabalha no Jacqueline du Pré Music Building. O pai, britânico, nascido em Oxford é um puritano. Calvinista fervoroso! Formado em geografia, trabalha no Instituto de Mudança Ambiental, (Environmental Change Institute). A família mora na Iflley Rd. número 19.

Magdalen é uma escola de ensino secundário que ostenta tanto sua qualidade quanto a qualidade de seus alunos. Quase todos vão direto para importantes e qualificadas universidades da Inglaterra. Sandrine, apesar de professora de história, não gosta muito dos termos Reino Unido e Grã-Bretanha. Tudo é Inglaterra, assim como Alemanha e Germânia, Canal da Mancha ou Canal Inglês. São detalhes como muitos outros. Morada do diabo, foram criados por Elohim como torpe tarefa dada aos filhos dos homens para atarefá-los. Entre os detalhes se procuram causas para efeitos e se vangloriam, perdem a fé e assim, se desviam da verdade. Sandrine dizia: a um pedaço de terra chamado Inglaterra, juntam-se algumas montanhas do norte e outras do oeste. Esse pedaço de terra passa agora a se chamar Grã-Bretanha. Acrescenta-se ainda uma minúscula porção de terra que está ao oeste, tão pequena e mesmo assim consegue se dividir em duas. A Grã-Bretanha mais a parte menor dessa minúscula e insignificante região passa a se chamar Reino Unido. Ela se pergunta: pode isso? E a Bretanha mesmo fica na França! Mais detalhes: eles não são bretões, são anglo-saxões da Germânia e da Dinamarca. Entorpece qualquer estudo!

Estamos às vésperas dos exames finais e como de costume, Sandrine faz revisões sucintas sobre história da Inglaterra. Este ano ela discorrerá sobre a esquadra invencível, a revolução puritana e a revolução gloriosa.

Sempre com tom irônico, como todos os ingleses, Sandrine chamava a frota de guerra ibérica de esquadra invencível. Os espanhóis queriam o domínio comercial na região dos países baixos, para isso teriam que eliminar ou neutralizar a atuação da Inglaterra e seus hábeis e fieis corsários. Porém, vencer a Inglaterra era algo impossível. O Senhor dos Exércitos estava com a Rainha Isabel que estabelecera uma igreja protestante na Inglaterra. Além disso, os jejuns e orações dos puritanos para a proteção da pátria a tornava inexpugnável. Por isso não seria a esquadra de Felipe II capaz de invadir a ilha. O próprio mar se encarregou de destruir mais da metade da esquadra espanhola e o canal da mancha em seu estreito impediu qualquer desembarque em terras britânicas. Para baterem em retirada, os navios foram obrigados a voltear as ilhas e descer pelo atlântico norte, pois os navios ingleses bloquearam a retaguarda da invencível esquadra. Derrotado, Felipe II se viu frustrado em sua tentativa de agredir o protestantismo inglês. A Rainha Isabel, o último Tudor, se tornou um ícone da realeza. Derrotou bravamente os idólatras colocando-os no obscurantismo. Assim, a tripudiante vitória estabeleceu de vez a identidade protestante e a rejeição global ao mundo católico. Deus mostrou que tudo contribui para o bem de seus escolhidos. Até as ações dos corsários liderados por Sir Francis Drake foram importantes para o desarranjo desastroso da esquadra ibérica. O vento marítimo e a geografia do canal foram generais do Senhor dos Exércitos. Os puritanos se estabeleceram, mas a reforma ainda não estava completa, o anglicanismo muito próximo ao catolicismo e a igreja episcopal deveria se tornar presbiteriana para ficar de acordo com a igreja primeira descrita por Lucas no livro de Atos.

Finda a dinastia Tudor com a magnífica Rainha Isabel, entra em cena o inimigo que está sempre à espreita e não desiste, mesmo sabendo que já está derrotado. A dinastia Stuart instala o absolutismo, desconsideram o parlamento e se volta para o catolicismo idólatra. O Rei Carlos persegue os puritanos e dissolve o parlamento. Tudo isso dura muito pouco. O militar puritano Oliver Cromwell forma um exército inédito cujo posto de cada soldado se baseia em sua capacidade e não em sua linhagem. (New Model Army). Era o início da meritocracia, o meio mais eficaz de se fundamentar qualquer sociedade. Certamente o inimigo não aguenta o golpe e o Rei Carlos é degolado em praça pública. Cromwell faz questão de espremer a cabeça até a última gota de sangue para mostrar que não há nada de divino em um rei, seu sangue é vermelho como qualquer outro. (Curioso que a França se gaba de ter feito a mesma coisa com Luis XVI. Gaba-se de ineditismo! Uma revolução ridícula e risível que depois de tanto horror coloca um Imperador no trono, contrariando tudo que combateu). Uma grande vitória dos puritanos que retomam o regime republicano e o poder do parlamento.

O inimigo em seu último suspiro faz mais uma tentativa. Aproveitando-se de uma distração de Cromwell que deveria estar vigilante, dissolve o parlamento novamente. Não contava com a capacidade dos eleitos: se Deus é por nós quem poderá ser contra e nos deter? Habilmente, os puritanos tecem um acordo de moderação e fundam um reinado parlamentar. Nada mais astucioso e sagaz: temos ao mesmo tempo um reinado e um parlamento! Sem nenhuma gota de sangue derramada; eis a Revolução Gloriosa!

Como tudo concorre para o bem dos escolhidos, Cromwell deixa um valioso legado: Os Atos de Navegação. Esta medida cria a exclusividade do comércio marítimo nos portos da Inglaterra aos navios de bandeira inglesa. Só os ingleses podiam comprar e levar mercadorias para a Inglaterra. A base para o desenvolvimento do imperialismo marítimo da Inglaterra está estabelecida.

Ao final da revisão, Sandrine comenta: no exame, provavelmente, haverá perguntas sobre detalhes inúteis, nomes e datas. Esta parte é muito fácil e grande porção dela é desnecessária, só serve para alimentar a vaidade de acadêmicos que buscam causas entre os meios utilizados por Deus para cumprir os seus propósitos. Torpe tarefa!
Desviando do assunto da aula, Sandrine resolveu acrescentar outros feitos do Senhor dos Exércitos. Os puritanos perseguidos por considerarem a reforma incompleta fugiram para a Nova Inglaterra ao nordeste do Novo Mundo, a grandiosa América de Américo Vespúcio que medindo as longitudes avisou que não se tratava da Índia. Nesta nova terra, já de antemão preparada para eles como uma nova Terra Prometida, prosperaram e se tornaram a mais rica nação do globo, prosperidade oriunda da bênção divina: os abençoados são prósperos, pois Deus tudo provê para aqueles que o amam, os seus filhos em Cristo Jesus. A resignação não faz parte da vida do cristão, pois como filhos de Deus lhes cabe a prosperidade, vida plena e vida em abundância.

Napoleão, com seu ridículo bloqueio continental bloqueou o próprio continente e não a Inglaterra, pois isolou este da civilização. Precisava comprar armamentos para manter seus domínios. Vejam bem como Deus age: quem foi que socorreu Napoleão? O presidente dos Estados Unidos, da Nova Inglaterra. Simplesmente comprou da França todo o vale do Mississipi desde o extremo norte em Wisconsin até o extremo sul na Louisiana. Comprou nada menos que o Middle West americano por um milhão de dólares. Este ato ficou conhecido como The Louisiana Purchase. Deste ponto em diante o limite era o Pacífico. E assim se formou um novo povo de Deus, do Atlântico ao Pacífico testemunhamos a glória de Deus. E o que aconteceu com Napoleão? Esmagado, humilhado e tripudiado em Waterloo assim como foi a esquadra invencível dos idólatras.

Na próxima aula, Sandrine comentará a Quarta Querra Árabe-Israelense: Guerra do Yom Kippur, guerra de outubro, o Ramadã. Antes de sair da sala disse aos alunos: vocês conhecerão, neste novo episódio, como Deus age em prol de seu povo, não só no passado como no presente; e continuará sempre, pois Ele é fiel e sempre será.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O Desatendimento de Hadassah Carlebach


O Desatendimento de Hadassah Carlebach

E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.

Mc16.15,16

E assim, a fé vem pela pregação, e pregação, pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura, não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e a suas palavras, até aos confins do mundo.

Rm10.17,18

Foi um belo casamento, singelo e com poucos convidados. Não ouso dizer que foi abençoado por Deus! Se tivesse ocorrido antes de Cristo certamente teria sido abençoado, mas com a recusa dos judeus em aceitar Cristo como o Messias Salvador, dúvidas são suscitadas e me impedem de fazer tal afirmação.

Hadassah Carlebach se casou com o filho do rabino de uma sinagoga em Columbus e foi morar na S Lazelle St bem próximo à Snap Fitness German Village onde trabalhava como personal trainer. Seu marido sempre muito ocupado com os afazeres da sinagoga ficava muito pouco em casa. Quando chegou a geladeira nova, Hadassah teve dificuldades para desembalar e ligar a mercadoria. Esqueceu-se de retirar a proteção do motor e houve um superaquecimento. Uma vizinha, sentindo o cheiro e vendo o movimento apavorado de Hadassah foi ajudar e resolveu o problema. A vizinha, antes de sair, perguntou: você nunca observou um refrigerador sendo desembalado e instalado na casa de seus pais? Ela respondeu que nunca havia observado tal coisa.

Alguns dias depois, Hadassah foi tirar uma forma de gelo que estava presa ao congelador. Vendo que a forma estava realmente agarrada, ela pegou uma faca pontiaguda e usou-a como alavanca para levantar e soltar a forma da placa inferior do compartimento. O estrago previsível, qual foi? A faca furou o duto de gás do aparelho que consequentemente parou de funcionar.

Ao anoitecer o marido chegou a casa e se dirigiu à geladeira com a intenção de saborear uma agradável água gelada. De súbito percebeu que o refrigerador não estava gelando! Em voz alta perguntou à Hadassah: por que a geladeira não está esfriando? Aconteceu alguma coisa? Hadassah respondeu: deve estar desligada. O marido, irritado com a resposta, retrucou: desligada? Quem desligaria uma geladeira? Claro que não está desligada, a lâmpada interna está acendendo. Como é que eu vou saber o que aconteceu, falou ela. A geladeira para de gelar e eu tenho que saber o motivo? O marido, ainda calmo, perguntou: tente lembrar se você mexeu em alguma coisa, qualquer que seja. Hadassah parou, pensou e lembrou: eu usei uma faca para desgrudar a forma de gelo do congelador, estava agarrada e eu não conseguia fazer com que ela se soltasse, aí usei uma faca, coloquei a ponta debaixo da forma, dei uma batida mais ou menos de leve e ela se soltou facilmente. Sem a faca seria impossível, estava mesmo grudada, como uma pedra no muro.

O marido ficou furioso, mas se conteve e não alterou o tom de voz, afinal há sempre o respeito conjugal. Pelo amor de Deus, Hadassah! Seu pai certamente já chamou atenção para este fato em sua casa. Sua mãe também. Você estudou princípios de termodinâmica no ensino médio, sabe muito bem que não pode furar os dutos de gás de um congelador. Toda geladeira tem uma pazinha de plástico pendurada na parte interna do compartimento com os seguintes dizeres: não use metal pontiagudo para limpar o congelador, utilize esta pá, feita de material plástico apropriado para evitar danos aos dutos. Não é possível, não é mesmo! Não é possível que não saiba disso ou nunca teve informação sobre este procedimento. Todo mundo sabe e você se faz de despercebida. Nunca ouviu falar, nunca perguntou, nunca teve curiosidade, nunca comentou, nunca, nunca, nada. E ainda há pedagogo afirmando que a culpa é da qualidade do ensino. Ora, o problema é a qualidade do aluno e não a qualidade da escola, esta é consequência daquela. Nunca te chamaram de sonsa, de avoada de palerma? Declare agora: eu sou culpada por não saber. Vamos, declare sua culpa e nunca diga que lhe faltou oportunidade de conhecer.

Depois do falatório, se acalmou o marido e acarinhou Hadassah. A geladeira foi consertada e parece que a moça aprendeu. Pelo menos isso! Quanto despercebimento! Continuarão despercebidos, nunca revelados, nunca apreendidos. A culpa, porém, sempre é daquele que não percebe e inevitavelmente sofrerá a consequência. Não há desculpa: nunca ouvi falar, ninguém me alertou; ninguém me contou. Velhacos. Querem justificar o desconhecimento alegando desatendimento por sonsice. Esquecem estes que a sonsice é um erro, um desvio de caráter, um desvio moral e passível de prisão.

Calvino, bem fundamentado nas sagradas escrituras, resolve este dilema: Deus desde o princípio já escolheu aqueles que vão ser salvos. São os eleitos; os quais o desatendimento jamais acolhe. Contudo, sempre é bom esclarecer que o fato de ser eleito, de ser escolhido, predestinado, não isenta de culpa os que não foram e nem é recompensa dos que foram. Tudo é obra da graça e da misericórdia.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Recompensa e Justiça


Recompensa e Justiça

Quando uma nação cai nas mãos dos ímpios, Deus venda os olhos de seus juízes.

Jó 9.24

Jéssica, seu caso é muito difícil! Não será nada fácil persuadir o juiz a reduzir sua pena. Eu, como sua advogada, tenho a obrigação de dizer-lhe isso. O júri já se decidiu e o veredito foi pela culpabilidade. O juiz definirá a pena, vamos esperar. Entra o juiz, todos se levantam e a ré já está pronta para ouvir a sentença. O juiz, sem delonga alguma e com uma brevíssima exposição de motivos declara: assassinato do esposo por motivo torpe e fútil. Condeno a ré, Jéssica Joabe, a vinte e três anos de prisão.

O julgamento foi rápido, seco e impiedoso. Jéssica sofrerá por vinte e três anos em um presídio. Isolada e privada de sua liberdade. Prisioneira! Sua advogada se esforçou, mas as evidências eram muitas e não permitiam restar dúvidas. Como dizem: apodrecerá na cadeia.

Jéssica trabalhava como voluntária em um hospital de crianças com câncer. Cuidava da casa e de seus dois filhos. Tinha um ótimo casamento, um bom marido. Não havia motivo algum para matá-lo. Nem sequer suspeitar de um crime passional. Jéssica era uma mulher virtuosa e acima de qualquer suspeita. Por que então, um acusamento com tamanha convicção de todos?

Há mais ou menos um mês Jéssica voltava do hospital a pé como de costume. Já estava escuro, ou quase escuro, a hora em que o dia se mistura com a noite e a visão se turva. Passava por um beco ermo quando viu um corpo caído no chão e com uma faca enterrada no peito. O corpo estava imóvel e havia muito sangue derramado na terra. Jéssica se aproximou e quando mais perto, reconheceu o marido ali caído e sem movimento. Ela gritou, apavorou-se e em um ato contínuo tentou tirar a faca cravada no peito do marido. Porém, seus gritos haviam chamado atenção de algumas pessoas que em um átimo se aproximaram, vendo in loco, Jéssica arrancar o punhal que estava fincado bem no osso esterno do marido. Neste instante o moribundo exalou seu último suspiro. Jéssica tinha acabado de matar o homem e não, em seu ingênuo desespero, tentado salvá-lo. Esta foi a conclusão.

O leitor acredita que ela seja inocente. Acredita, pois confia no narrador. Mas, este pode muito bem estar enganado ou mesmo mentindo. Com quem iria Jéssica argumentar? O narrador não é um humano como ela. Como, então poderia responder-lhe e enfrentá-lo em juízo? Se pelo menos houvesse alguém para servir de árbitro entre eles, para impor as mãos sobre ambos! Não é este o caso, visto que não há.

Jéssica foi amassada, moída, perdeu tudo, sua família e sua liberdade. Vive em inteira solidão e completamente amargurada. Nem mesmo aqueles do hospital lembravam-se dela. Seus filhos muito menos. Jéssica ora a Deus: bem sabes que não sou culpada, mas ninguém há que me livre da Tua mão. Sei também que não me tens por inocente. Quem, então poderá dizer que sou? Tu és a justiça e sabes que humano algum merece recompensa. Suplico, todavia, a tua graça e a tua misericórdia; tudo mais é esforço em vão.

Jéssica Joabe faleceu no vigésimo ano do cumprimento de sua pena. Expirou no presídio e foi enterrada como indigente. Ninguém reclamou o corpo. Ela sempre afirmou sua inocência e ausência de qualquer iniquidade sobre si. Mulher virtuosa! Contudo, ninguém há que possa livrá-la das mãos de Deus. Padecem igualmente ambos, tanto o justo quanto o pecador, tanto o bondoso quanto o perverso.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A Moça com a Valise


A Moça com a Valise

O Sol parou e a Lua ficou onde estava, até que o povo tivesse derrotado seus inimigos.
Como está escrito no livro de Jasar.
O Sol parou no meio do céu e não se pôs por cerca de um dia inteiro.

Josué 10.13


Na cidade de Pataskala no estado de Ohio há um renomado hospital veterinário: o Animal Hospital of Pataskala. Walery Zurlini, médica veterinária, trabalha neste hospital há mais de trinta anos. Além do trabalho Walery frequenta assiduamente a biblioteca pública de sua pequena cidade e assiste aos cultos da igreja metodista. Reside em uma modesta casa localizada na Avenida Linda número 200. A residência, o hospital, a igreja e a biblioteca ficam todos bem próximos e o trajeto é feito a pé.

Dizem que a cidade margeia o rio South Fork Licking River. Não é exatamente um rio, mas uma comprida confluência de córregos que deleita os habitantes de Pataskala. Este esdrúxulo nome se origina de línguas de tribos indígenas do extremo leste Delaware ou Dalamare.

Walery se dedica aos cuidados sanitários da pecuária da suinocultura e da criação dos galiformes. Trabalha muito visitando todos os dias fazendas da região. Sempre calçando botas e carregando sua valise com aparelhos e medicamentos de uso rotineiro.

A biblioteca pública tem um acervo razoável e como cientista, Walery a frequenta constantemente para estudar e se manter atualizada. A Doutora Zurlini faz parte de um grupo bastante restrito de pessoas influentes de Pataskala. Este grupo se caracteriza por não acreditar em alguns fatos tidos como certos. Acreditam que a Terra é plana, por exemplo. O Sol e a Lua que se movem, e não a Terra. Em alusão ao elo perdido, o líder do grupo diz: do ovo de um jacaré não sai uma galinha. Afirmam com veemência: uma classe não se transforma em outra por seleção natural seguindo a lei da sobrevivência do mais apto. Mostre-me um fóssil de uma classe intermediária!

O líder deste grupo chama-se Lorenzo, um rico negociante e vereador da cidade. Pode parecer estranho a senhora Walery fazer parte desta gente. Como uma cientista pode ter estas crenças, ou melhor, não ter as outras crenças? Walery afirma com a maior tranquilidade: sendo a Terra plana ou não eu vou à padaria e volto todos os dias. Esta frase resumia perfeitamente a atitude do grupo. Não há necessidade de saber o que não traz consequência. O significado de um conceito consiste em suas consequências. Walery certa vez leu um volume de W. James na biblioteca e se entusiasmou.

Com a influência de Lorenzo fundaram um clube. Os membros tinham carteirinha e contribuíam mensalmente para custear a manutenção e as atividades. Alugaram uma casa para ser a sede da organização. Havia uma sala de jogos, um bar, salas para reuniões temáticas, uma ampla copa e cozinha. Havia ainda um auditório adaptado para conferências, uma pequena biblioteca, sala de estar, varandas e jardins. Diariamente serviam o chá vespertino e uma vez por mês convidavam um conferencista ou palestrantes para mesa-redonda. O clube tem glamour! Elegante e austero. Todos zelam por sua reputação e excelência. O mote do clube é: não se cogita sobre o óbvio.

Hoje, 26 de setembro, última quinta-feira do mês, temos conferência no clube. Chega o conferencista convidado. Recebido muito cordialmente, almoçou no hotel e descansou durante a tarde. A conferência começa às vinte horas. O assunto é intrigante: o homem foi à Lua ou isso não passa de uma armação da NASA? O nome do conferencista é Marcello Tradi. Veio de Chicago e adora uma provocação. Na sala de estar do clube Walery vai ao seu encontro e comenta: Doutor Tradi, descobriram um planeta cuja massa é 0,37% da massa de sua estrela. A massa de Júpiter é 0,09% da massa do Sol. Logo, este planeta não pode existir. O Doutor prontamente concorda com ela. Com toda razão senhora, disse ele. Walery continua: o avião da Malásia ainda não foi encontrado. Tenho certeza que o voo MH370 não existiu, inventaram esta história com algum propósito. Certamente senhora! Não há dúvida alguma, exclamou o doutor.

Começa a conferência. Marcello informa: sobe para 113 os locais com manchas de óleo no litoral nordeste do Brasil. Um senhor do auditório interrompe: há alguém contando manchas misteriosas de óleo? Walery se levanta e também fala, aproveitando a interrupção feita pelo senhor: li no jornal hoje pela manhã que os recifes do Amazonas que não existiam estão vivos e crescendo, falaram que eles existem, sim.

Não há como começar a conferência, murmúrio completo. Por inabilidade ou propositalmente Marcello começou mal ao lançar informação fora do tema. Cada um dos ouvintes agora triunfa com citações de manchetes descabidas. O auditório se transforma em um ensaio de orquestra, diria Fellini. O Federico cujo pai esqueceu-se de colocar o “r” que agora falta. Marcello vai ao microfone e silencia o auditório. Vou dar início à palestra, diz ele.

A plateia já em silêncio; Marcello fala: o fato de ter ido à Lua ou não é completamente irrelevante, não faz diferença alguma, assim como o fato da Terra ser redonda ou plana. Este clube é paradoxal. Qual é o mote? Todos respondem em coro: não se cogita sobre o óbvio. Estão vendo? Paradoxal! A existência do clube já é uma cogitação sobre o óbvio.
Não tem sentido este clube, sua existência também não faz a menor diferença, pura inocuidade! As crenças do clube são óbvias, logo não há necessidade de indagações ou reflexões. O ditado antigo já dizia: com elas ou sem elas o mundo continua tal e qual. Encerremos por hoje e vamos ao lanche. Muito obrigado, agradeceu Marcello Tradi.

No dia seguinte Lorenzo faz uma visita a Walery e decidem não desfazer o clube, mas transformá-lo em espaço cultural, uma espécie de campo de gravidade artificial.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Uma Noite em Valadares


Uma Noite em Valadares

Nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé.

1Timóteo1.4

Valadares, ou melhor, Governador Valadares é uma importante cidade localizada às margens do Rio Doce em Minas Gerais. O calor é insuportável durante todo o ano e principalmente no verão. A cidade formou-se ao pé de uma pedra gigante chamada Pico do Ibituruna. A pedra se aquece ao sol durante o dia e à noite radia o calor sobre a cidade. Nada mais abafado e quente do que aquele cobertor de pedra escaldante.

A Ilha dos Araújos é um de seus bairros. Uma ilha dentro do Rio Doce. Só há uma entrada e uma saída: a Ponte da Ilha. Na esquina da Rua Seis com a Rua Trinta e Quatro morava Eugênia. Formou-se na Escola Estadual Nacle Miguel Habib e estava noiva de Estácio, um jovem formado em engenharia de minas. Trabalhava no comércio de pedras preciosas e semipreciosas. Percorria todo o vale do Rio Doce e do Jequitinhonha, regiões propícias para negócios concernentes a riquezas minerais.

No sábado haveria um baile na ilha. A irmã de uma das amigas de Eugênia faria quinze anos. Um baile de debutante! Grande evento para o bairro. Estácio trabalhou até às quatro da tarde, foi para casa, descansou um pouco e se aprontou para o baile. Por volta das sete foi encontrar-se com Eugênia. Foi a pé. Desceu a Rua Trinta e Seis e parou por um momento na Praça Caparaó. Respirou o ar quente que emanava do rio e seguiu pela Av. Rio Doce até a Rua Trinta e Quatro. Dobrou à esquerda e chegou à casa de Eugênia na Rua Seis. Estava muito quente. A grande pedra irradiava todo o calor que havia recebido do Sol. Não havia refrigério. Até a Av. Rio Doce que margeia o rio estava escaldante, parecia que a água do rio fervia e exalava vapor. Era verão, e neste horário a tarde mistura-se com a noite.

O pai de Eugênia, sentado em sua poltrona, assistia à televisão. Estava só de calção, suava muito e o som do aparelho era excessivo. Duas crianças brincavam no canto da sala e seus gritos eram atordoantes. A mãe de Eugênia passava várias vezes pela sala: do quarto para a área de serviço e da área de serviço para o quarto. Eugênia e mais duas amigas se aprontavam e a mãe as auxiliava. O calor não cedia à noite; a pedra era um aliado poderoso que atuava na ausência do sol.

A porta da sala aberta e Estácio em pé sob o marco aguardava em vão uma brisa e sua noiva. Arriscou uma conversa com o sogro que não tirava o olho da televisão. O calor parecia não incomodá-lo. Uma aparência repulsiva! Quem foi Nacle Habib? Perguntou Estácio. O homem respondeu: Habib é o nome da escola em que Eugênia estudou. Respondeu secamente sem desviar o olho. O volume da televisão estava já aborrecendo Estácio. A gritaria dos dois meninos continuava. Os decibéis subiam e desciam atingindo picos ensurdecedores. Eugênia não ficava pronta. Da sala era possível ouvir o murmurinho das mulheres se enfeitando. Muxoxos e mais muxoxos!

Estácio fez outra pergunta: por que não constroem outra ponte de acesso à ilha? Para que outra ponte, rapaz? Uma já é demais. Só fossem barcos seria melhor. Atreveu-se com uma terceira: por que os nomes das ruas da Ilha são somente números pares? O que há aqui contra os ímpares? O pai de Eugênia desta vez olhou para Estácio, fixou o olhar e respondeu: número ímpar não forma par, moço. Onde já se viu! A mãe passa novamente pela sala. Apavorada e apressada murmura: para essas meninas nada fica bem, só eu mesmo para aguentar! Neste momento, Estácio, já muito irritado, foi dar uma volta na Praça Caparaó.

Quando voltou, Eugênia ainda se aprontava. Não é possível, gritou Estácio, não aguento mais esta espera, que coisa mais fútil, tanta demora apenas para colocar um vestido! O pai continuava sentado vendo televisão e os meninos fazendo barulho. Foi então, que Estácio, em um relance, olhou para o homem sentado na poltrona e viu uma mosca que passeava sossegadamente em seu rosto. Isso foi demasiado para o comedimento de Estácio. Pegou o paletó e foi embora subindo a Rua Trinta e Quatro em direção à ponte. A ideia do casamento estava adiada.

sábado, 7 de setembro de 2019

A Purificação de Irene


A Purificação de Irene

Eliseu enviou um mensageiro para lhe dizer: “Vá e lave-se sete vezes no rio Jordão; sua pele será restaurada e você ficará purificado”.

2Reis5.10

Na Avenida Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal, fica o suntuoso prédio do Conservatório de Música da cidade de Belo Horizonte. Embrenhado nas árvores frondosas do parque encontra-se o complexo arquitetônico que leva o pomposo nome de Palácio das Artes.

A adolescente Irene Tecla estudava violino no conservatório e todo domingo pela manhã assistia a concertos no Grande Teatro do Palácio das Artes. A instituição promovia a série Concertos para a Juventude com entrada franca. Esta iniciativa era coordenada pelo maestro Sérgio Magnani e trouxe a Belo Horizonte eminentes músicos internacionais como, por exemplo, o flautista Jean Pierre Rampal com sua inusitada flauta de ouro. A série permaneceu por vários anos e foi o maior evento cultural do Brasil. A orquestra sinfônica não era das melhores, mas incentivou e produziu grandes instrumentistas. Com o tempo se tornou uma competente orquestra.

Os estudos de Irene avançavam. Começou a ter aulas com professores especializados e desde então sua técnica aprimorou-se bastante. Havia um quê de virtuosidade em Irene. Adquiriu um ouvido absoluto, sabia o piano com primor, ótima leitura à primeira vista, ditado e solfejo de primeira vez. Tornou-se uma musicista completa e não só uma instrumentista desprovida de conhecimento musical.

Uma bolsa de estudo custeou sua estada em Berlim por três proveitosos anos. Neste período Irene teve a oportunidade de atuar em duas grandes orquestras de vulto técnico e artístico. De volta ao Brasil foi aprovada em concurso e se tornou membro integrante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

Irene Tecla estava então em um bom trabalho. Poderia expor toda sua habilidade artística musical. Ministrava aulas particulares de violino e piano. Atuava como solista em alguns espetáculos.

Podia-se dizer que Irene era uma profissional bem sucedida e realizada. Casou-se com um colega de orquestra e o casal teve duas filhas. Gostavam de estudar partituras do barroco mineiro e divulgar essas composições do século XVIII, mesmo não sendo elas de grande qualidade. Juntamente com as esculturas, pinturas e a arquitetura revelavam o espírito barroco da cultura das Minas Gerais. Ambos estudavam e ensaiavam muito: a orquestra exigia ensaios constantes.

Irene trabalhava com paixão, envolta por uma esfera cultural nobre. Encontros, saraus, reuniões e estudos formavam o cotidiano de sua família. A sinfônica tinha suas atribuições e cumpria anualmente uma agenda de concertos por todo o estado. Algumas vezes em outros estados e até internacionais. A orquestra atuava regularmente e discretamente como deveria toda atividade artística. A indústria da arte é o que mais a empobrece.

A orquestra, soberba, e sob a batuta de seu regente, escolhia com rigor primoroso o repertório. Irene Tecla, com orgulho, compunha a comissão que determinava o repertório de cada apresentação. O maestro, sempre admirado, apreciava e levava em conta seus argumentos que com grande propriedade e pertinência embasavam a escolha do “répertoire”. A qualidade de uma orquestra depende da qualidade de seu repertório, sem dúvida alguma!

Chegou o ano em que a orquestra completaria 50 anos. Em setembro haveria uma grande apresentação que marcaria a expressiva data. O governador do estado acatou o patrocínio de uma empresa sem escrúpulos e muito deselegante. Uma empresa avarenta da pior espécie. Fez da orquestra um de seus muitos haveres. Que horror!

Irene Tecla não pôde mais opinar sobre o repertório. O maestro não se conformou e foi substituído pelo maestro assistente. O repertório foi escolhido pela empresa que visava um grande público. Cunhou o título para o evento: Música de Cinema. O repertório virou um menu, um cardápio, acreditem! O menu consistia em trilhas sonoras de Harry Potter, Star Wars, Superman e outras como Jurassic Park, Indiana Jones e A Lista de Schindler. Extensa lista de contribuições do compositor John Williams à sétima arte.

Para Irene, John Williams era apenas um mercenário da música. Como poderia ela, uma musicista de verdade, mergulhar neste submundo da música? Mergulhar neste imundo e lamacento rio Jordão?

O concerto foi um sucesso de bilheteria. A orquestra pôde saldar suas dívidas, aumentar o salário dos músicos e até conseguiu alugar um amplo salão para ensaios.

Irene e seu esposo exclamaram: só falta agora convidarem o André Rieu para reger uma apresentação!

Os valores culturais de Irene foram se decompondo um a um, até o sétimo mergulho no Jordão. Percebeu ela que não era nada custoso favorecer o gosto menor e em troca receber condições para aprimorar o gosto maior. A orquestra agora podia até promover degustações musicais e exibir, sem avareza, seu virtuosismo artístico e intelectual.