quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O Desatendimento de Hadassah Carlebach


O Desatendimento de Hadassah Carlebach

E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.

Mc16.15,16

E assim, a fé vem pela pregação, e pregação, pela palavra de Cristo. Mas pergunto: Porventura, não ouviram? Sim, por certo: Por toda a terra se fez ouvir a sua voz, e a suas palavras, até aos confins do mundo.

Rm10.17,18

Foi um belo casamento, singelo e com poucos convidados. Não ouso dizer que foi abençoado por Deus! Se tivesse ocorrido antes de Cristo certamente teria sido abençoado, mas com a recusa dos judeus em aceitar Cristo como o Messias Salvador, dúvidas são suscitadas e me impedem de fazer tal afirmação.

Hadassah Carlebach se casou com o filho do rabino de uma sinagoga em Columbus e foi morar na S Lazelle St bem próximo à Snap Fitness German Village onde trabalhava como personal trainer. Seu marido sempre muito ocupado com os afazeres da sinagoga ficava muito pouco em casa. Quando chegou a geladeira nova, Hadassah teve dificuldades para desembalar e ligar a mercadoria. Esqueceu-se de retirar a proteção do motor e houve um superaquecimento. Uma vizinha, sentindo o cheiro e vendo o movimento apavorado de Hadassah foi ajudar e resolveu o problema. A vizinha, antes de sair, perguntou: você nunca observou um refrigerador sendo desembalado e instalado na casa de seus pais? Ela respondeu que nunca havia observado tal coisa.

Alguns dias depois, Hadassah foi tirar uma forma de gelo que estava presa ao congelador. Vendo que a forma estava realmente agarrada, ela pegou uma faca pontiaguda e usou-a como alavanca para levantar e soltar a forma da placa inferior do compartimento. O estrago previsível, qual foi? A faca furou o duto de gás do aparelho que consequentemente parou de funcionar.

Ao anoitecer o marido chegou a casa e se dirigiu à geladeira com a intenção de saborear uma agradável água gelada. De súbito percebeu que o refrigerador não estava gelando! Em voz alta perguntou à Hadassah: por que a geladeira não está esfriando? Aconteceu alguma coisa? Hadassah respondeu: deve estar desligada. O marido, irritado com a resposta, retrucou: desligada? Quem desligaria uma geladeira? Claro que não está desligada, a lâmpada interna está acendendo. Como é que eu vou saber o que aconteceu, falou ela. A geladeira para de gelar e eu tenho que saber o motivo? O marido, ainda calmo, perguntou: tente lembrar se você mexeu em alguma coisa, qualquer que seja. Hadassah parou, pensou e lembrou: eu usei uma faca para desgrudar a forma de gelo do congelador, estava agarrada e eu não conseguia fazer com que ela se soltasse, aí usei uma faca, coloquei a ponta debaixo da forma, dei uma batida mais ou menos de leve e ela se soltou facilmente. Sem a faca seria impossível, estava mesmo grudada, como uma pedra no muro.

O marido ficou furioso, mas se conteve e não alterou o tom de voz, afinal há sempre o respeito conjugal. Pelo amor de Deus, Hadassah! Seu pai certamente já chamou atenção para este fato em sua casa. Sua mãe também. Você estudou princípios de termodinâmica no ensino médio, sabe muito bem que não pode furar os dutos de gás de um congelador. Toda geladeira tem uma pazinha de plástico pendurada na parte interna do compartimento com os seguintes dizeres: não use metal pontiagudo para limpar o congelador, utilize esta pá, feita de material plástico apropriado para evitar danos aos dutos. Não é possível, não é mesmo! Não é possível que não saiba disso ou nunca teve informação sobre este procedimento. Todo mundo sabe e você se faz de despercebida. Nunca ouviu falar, nunca perguntou, nunca teve curiosidade, nunca comentou, nunca, nunca, nada. E ainda há pedagogo afirmando que a culpa é da qualidade do ensino. Ora, o problema é a qualidade do aluno e não a qualidade da escola, esta é consequência daquela. Nunca te chamaram de sonsa, de avoada de palerma? Declare agora: eu sou culpada por não saber. Vamos, declare sua culpa e nunca diga que lhe faltou oportunidade de conhecer.

Depois do falatório, se acalmou o marido e acarinhou Hadassah. A geladeira foi consertada e parece que a moça aprendeu. Pelo menos isso! Quanto despercebimento! Continuarão despercebidos, nunca revelados, nunca apreendidos. A culpa, porém, sempre é daquele que não percebe e inevitavelmente sofrerá a consequência. Não há desculpa: nunca ouvi falar, ninguém me alertou; ninguém me contou. Velhacos. Querem justificar o desconhecimento alegando desatendimento por sonsice. Esquecem estes que a sonsice é um erro, um desvio de caráter, um desvio moral e passível de prisão.

Calvino, bem fundamentado nas sagradas escrituras, resolve este dilema: Deus desde o princípio já escolheu aqueles que vão ser salvos. São os eleitos; os quais o desatendimento jamais acolhe. Contudo, sempre é bom esclarecer que o fato de ser eleito, de ser escolhido, predestinado, não isenta de culpa os que não foram e nem é recompensa dos que foram. Tudo é obra da graça e da misericórdia.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Recompensa e Justiça


Recompensa e Justiça

Quando uma nação cai nas mãos dos ímpios, Deus venda os olhos de seus juízes.

Jó 9.24

Jéssica, seu caso é muito difícil! Não será nada fácil persuadir o juiz a reduzir sua pena. Eu, como sua advogada, tenho a obrigação de dizer-lhe isso. O júri já se decidiu e o veredito foi pela culpabilidade. O juiz definirá a pena, vamos esperar. Entra o juiz, todos se levantam e a ré já está pronta para ouvir a sentença. O juiz, sem delonga alguma e com uma brevíssima exposição de motivos declara: assassinato do esposo por motivo torpe e fútil. Condeno a ré, Jéssica Joabe, a vinte e três anos de prisão.

O julgamento foi rápido, seco e impiedoso. Jéssica sofrerá por vinte e três anos em um presídio. Isolada e privada de sua liberdade. Prisioneira! Sua advogada se esforçou, mas as evidências eram muitas e não permitiam restar dúvidas. Como dizem: apodrecerá na cadeia.

Jéssica trabalhava como voluntária em um hospital de crianças com câncer. Cuidava da casa e de seus dois filhos. Tinha um ótimo casamento, um bom marido. Não havia motivo algum para matá-lo. Nem sequer suspeitar de um crime passional. Jéssica era uma mulher virtuosa e acima de qualquer suspeita. Por que então, um acusamento com tamanha convicção de todos?

Há mais ou menos um mês Jéssica voltava do hospital a pé como de costume. Já estava escuro, ou quase escuro, a hora em que o dia se mistura com a noite e a visão se turva. Passava por um beco ermo quando viu um corpo caído no chão e com uma faca enterrada no peito. O corpo estava imóvel e havia muito sangue derramado na terra. Jéssica se aproximou e quando mais perto, reconheceu o marido ali caído e sem movimento. Ela gritou, apavorou-se e em um ato contínuo tentou tirar a faca cravada no peito do marido. Porém, seus gritos haviam chamado atenção de algumas pessoas que em um átimo se aproximaram, vendo in loco, Jéssica arrancar o punhal que estava fincado bem no osso esterno do marido. Neste instante o moribundo exalou seu último suspiro. Jéssica tinha acabado de matar o homem e não, em seu ingênuo desespero, tentado salvá-lo. Esta foi a conclusão.

O leitor acredita que ela seja inocente. Acredita, pois confia no narrador. Mas, este pode muito bem estar enganado ou mesmo mentindo. Com quem iria Jéssica argumentar? O narrador não é um humano como ela. Como, então poderia responder-lhe e enfrentá-lo em juízo? Se pelo menos houvesse alguém para servir de árbitro entre eles, para impor as mãos sobre ambos! Não é este o caso, visto que não há.

Jéssica foi amassada, moída, perdeu tudo, sua família e sua liberdade. Vive em inteira solidão e completamente amargurada. Nem mesmo aqueles do hospital lembravam-se dela. Seus filhos muito menos. Jéssica ora a Deus: bem sabes que não sou culpada, mas ninguém há que me livre da Tua mão. Sei também que não me tens por inocente. Quem, então poderá dizer que sou? Tu és a justiça e sabes que humano algum merece recompensa. Suplico, todavia, a tua graça e a tua misericórdia; tudo mais é esforço em vão.

Jéssica Joabe faleceu no vigésimo ano do cumprimento de sua pena. Expirou no presídio e foi enterrada como indigente. Ninguém reclamou o corpo. Ela sempre afirmou sua inocência e ausência de qualquer iniquidade sobre si. Mulher virtuosa! Contudo, ninguém há que possa livrá-la das mãos de Deus. Padecem igualmente ambos, tanto o justo quanto o pecador, tanto o bondoso quanto o perverso.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A Moça com a Valise


A Moça com a Valise

O Sol parou e a Lua ficou onde estava, até que o povo tivesse derrotado seus inimigos.
Como está escrito no livro de Jasar.
O Sol parou no meio do céu e não se pôs por cerca de um dia inteiro.

Josué 10.13


Na cidade de Pataskala no estado de Ohio há um renomado hospital veterinário: o Animal Hospital of Pataskala. Walery Zurlini, médica veterinária, trabalha neste hospital há mais de trinta anos. Além do trabalho Walery frequenta assiduamente a biblioteca pública de sua pequena cidade e assiste aos cultos da igreja metodista. Reside em uma modesta casa localizada na Avenida Linda número 200. A residência, o hospital, a igreja e a biblioteca ficam todos bem próximos e o trajeto é feito a pé.

Dizem que a cidade margeia o rio South Fork Licking River. Não é exatamente um rio, mas uma comprida confluência de córregos que deleita os habitantes de Pataskala. Este esdrúxulo nome se origina de línguas de tribos indígenas do extremo leste Delaware ou Dalamare.

Walery se dedica aos cuidados sanitários da pecuária da suinocultura e da criação dos galiformes. Trabalha muito visitando todos os dias fazendas da região. Sempre calçando botas e carregando sua valise com aparelhos e medicamentos de uso rotineiro.

A biblioteca pública tem um acervo razoável e como cientista, Walery a frequenta constantemente para estudar e se manter atualizada. A Doutora Zurlini faz parte de um grupo bastante restrito de pessoas influentes de Pataskala. Este grupo se caracteriza por não acreditar em alguns fatos tidos como certos. Acreditam que a Terra é plana, por exemplo. O Sol e a Lua que se movem, e não a Terra. Em alusão ao elo perdido, o líder do grupo diz: do ovo de um jacaré não sai uma galinha. Afirmam com veemência: uma classe não se transforma em outra por seleção natural seguindo a lei da sobrevivência do mais apto. Mostre-me um fóssil de uma classe intermediária!

O líder deste grupo chama-se Lorenzo, um rico negociante e vereador da cidade. Pode parecer estranho a senhora Walery fazer parte desta gente. Como uma cientista pode ter estas crenças, ou melhor, não ter as outras crenças? Walery afirma com a maior tranquilidade: sendo a Terra plana ou não eu vou à padaria e volto todos os dias. Esta frase resumia perfeitamente a atitude do grupo. Não há necessidade de saber o que não traz consequência. O significado de um conceito consiste em suas consequências. Walery certa vez leu um volume de W. James na biblioteca e se entusiasmou.

Com a influência de Lorenzo fundaram um clube. Os membros tinham carteirinha e contribuíam mensalmente para custear a manutenção e as atividades. Alugaram uma casa para ser a sede da organização. Havia uma sala de jogos, um bar, salas para reuniões temáticas, uma ampla copa e cozinha. Havia ainda um auditório adaptado para conferências, uma pequena biblioteca, sala de estar, varandas e jardins. Diariamente serviam o chá vespertino e uma vez por mês convidavam um conferencista ou palestrantes para mesa-redonda. O clube tem glamour! Elegante e austero. Todos zelam por sua reputação e excelência. O mote do clube é: não se cogita sobre o óbvio.

Hoje, 26 de setembro, última quinta-feira do mês, temos conferência no clube. Chega o conferencista convidado. Recebido muito cordialmente, almoçou no hotel e descansou durante a tarde. A conferência começa às vinte horas. O assunto é intrigante: o homem foi à Lua ou isso não passa de uma armação da NASA? O nome do conferencista é Marcello Tradi. Veio de Chicago e adora uma provocação. Na sala de estar do clube Walery vai ao seu encontro e comenta: Doutor Tradi, descobriram um planeta cuja massa é 0,37% da massa de sua estrela. A massa de Júpiter é 0,09% da massa do Sol. Logo, este planeta não pode existir. O Doutor prontamente concorda com ela. Com toda razão senhora, disse ele. Walery continua: o avião da Malásia ainda não foi encontrado. Tenho certeza que o voo MH370 não existiu, inventaram esta história com algum propósito. Certamente senhora! Não há dúvida alguma, exclamou o doutor.

Começa a conferência. Marcello informa: sobe para 113 os locais com manchas de óleo no litoral nordeste do Brasil. Um senhor do auditório interrompe: há alguém contando manchas misteriosas de óleo? Walery se levanta e também fala, aproveitando a interrupção feita pelo senhor: li no jornal hoje pela manhã que os recifes do Amazonas que não existiam estão vivos e crescendo, falaram que eles existem, sim.

Não há como começar a conferência, murmúrio completo. Por inabilidade ou propositalmente Marcello começou mal ao lançar informação fora do tema. Cada um dos ouvintes agora triunfa com citações de manchetes descabidas. O auditório se transforma em um ensaio de orquestra, diria Fellini. O Federico cujo pai esqueceu-se de colocar o “r” que agora falta. Marcello vai ao microfone e silencia o auditório. Vou dar início à palestra, diz ele.

A plateia já em silêncio; Marcello fala: o fato de ter ido à Lua ou não é completamente irrelevante, não faz diferença alguma, assim como o fato da Terra ser redonda ou plana. Este clube é paradoxal. Qual é o mote? Todos respondem em coro: não se cogita sobre o óbvio. Estão vendo? Paradoxal! A existência do clube já é uma cogitação sobre o óbvio.
Não tem sentido este clube, sua existência também não faz a menor diferença, pura inocuidade! As crenças do clube são óbvias, logo não há necessidade de indagações ou reflexões. O ditado antigo já dizia: com elas ou sem elas o mundo continua tal e qual. Encerremos por hoje e vamos ao lanche. Muito obrigado, agradeceu Marcello Tradi.

No dia seguinte Lorenzo faz uma visita a Walery e decidem não desfazer o clube, mas transformá-lo em espaço cultural, uma espécie de campo de gravidade artificial.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Uma Noite em Valadares


Uma Noite em Valadares

Nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé.

1Timóteo1.4

Valadares, ou melhor, Governador Valadares é uma importante cidade localizada às margens do Rio Doce em Minas Gerais. O calor é insuportável durante todo o ano e principalmente no verão. A cidade formou-se ao pé de uma pedra gigante chamada Pico do Ibituruna. A pedra se aquece ao sol durante o dia e à noite radia o calor sobre a cidade. Nada mais abafado e quente do que aquele cobertor de pedra escaldante.

A Ilha dos Araújos é um de seus bairros. Uma ilha dentro do Rio Doce. Só há uma entrada e uma saída: a Ponte da Ilha. Na esquina da Rua Seis com a Rua Trinta e Quatro morava Eugênia. Formou-se na Escola Estadual Nacle Miguel Habib e estava noiva de Estácio, um jovem formado em engenharia de minas. Trabalhava no comércio de pedras preciosas e semipreciosas. Percorria todo o vale do Rio Doce e do Jequitinhonha, regiões propícias para negócios concernentes a riquezas minerais.

No sábado haveria um baile na ilha. A irmã de uma das amigas de Eugênia faria quinze anos. Um baile de debutante! Grande evento para o bairro. Estácio trabalhou até às quatro da tarde, foi para casa, descansou um pouco e se aprontou para o baile. Por volta das sete foi encontrar-se com Eugênia. Foi a pé. Desceu a Rua Trinta e Seis e parou por um momento na Praça Caparaó. Respirou o ar quente que emanava do rio e seguiu pela Av. Rio Doce até a Rua Trinta e Quatro. Dobrou à esquerda e chegou à casa de Eugênia na Rua Seis. Estava muito quente. A grande pedra irradiava todo o calor que havia recebido do Sol. Não havia refrigério. Até a Av. Rio Doce que margeia o rio estava escaldante, parecia que a água do rio fervia e exalava vapor. Era verão, e neste horário a tarde mistura-se com a noite.

O pai de Eugênia, sentado em sua poltrona, assistia à televisão. Estava só de calção, suava muito e o som do aparelho era excessivo. Duas crianças brincavam no canto da sala e seus gritos eram atordoantes. A mãe de Eugênia passava várias vezes pela sala: do quarto para a área de serviço e da área de serviço para o quarto. Eugênia e mais duas amigas se aprontavam e a mãe as auxiliava. O calor não cedia à noite; a pedra era um aliado poderoso que atuava na ausência do sol.

A porta da sala aberta e Estácio em pé sob o marco aguardava em vão uma brisa e sua noiva. Arriscou uma conversa com o sogro que não tirava o olho da televisão. O calor parecia não incomodá-lo. Uma aparência repulsiva! Quem foi Nacle Habib? Perguntou Estácio. O homem respondeu: Habib é o nome da escola em que Eugênia estudou. Respondeu secamente sem desviar o olho. O volume da televisão estava já aborrecendo Estácio. A gritaria dos dois meninos continuava. Os decibéis subiam e desciam atingindo picos ensurdecedores. Eugênia não ficava pronta. Da sala era possível ouvir o murmurinho das mulheres se enfeitando. Muxoxos e mais muxoxos!

Estácio fez outra pergunta: por que não constroem outra ponte de acesso à ilha? Para que outra ponte, rapaz? Uma já é demais. Só fossem barcos seria melhor. Atreveu-se com uma terceira: por que os nomes das ruas da Ilha são somente números pares? O que há aqui contra os ímpares? O pai de Eugênia desta vez olhou para Estácio, fixou o olhar e respondeu: número ímpar não forma par, moço. Onde já se viu! A mãe passa novamente pela sala. Apavorada e apressada murmura: para essas meninas nada fica bem, só eu mesmo para aguentar! Neste momento, Estácio, já muito irritado, foi dar uma volta na Praça Caparaó.

Quando voltou, Eugênia ainda se aprontava. Não é possível, gritou Estácio, não aguento mais esta espera, que coisa mais fútil, tanta demora apenas para colocar um vestido! O pai continuava sentado vendo televisão e os meninos fazendo barulho. Foi então, que Estácio, em um relance, olhou para o homem sentado na poltrona e viu uma mosca que passeava sossegadamente em seu rosto. Isso foi demasiado para o comedimento de Estácio. Pegou o paletó e foi embora subindo a Rua Trinta e Quatro em direção à ponte. A ideia do casamento estava adiada.

sábado, 7 de setembro de 2019

A Purificação de Irene


A Purificação de Irene

Eliseu enviou um mensageiro para lhe dizer: “Vá e lave-se sete vezes no rio Jordão; sua pele será restaurada e você ficará purificado”.

2Reis5.10

Na Avenida Afonso Pena, em frente ao Parque Municipal, fica o suntuoso prédio do Conservatório de Música da cidade de Belo Horizonte. Embrenhado nas árvores frondosas do parque encontra-se o complexo arquitetônico que leva o pomposo nome de Palácio das Artes.

A adolescente Irene Tecla estudava violino no conservatório e todo domingo pela manhã assistia a concertos no Grande Teatro do Palácio das Artes. A instituição promovia a série Concertos para a Juventude com entrada franca. Esta iniciativa era coordenada pelo maestro Sérgio Magnani e trouxe a Belo Horizonte eminentes músicos internacionais como, por exemplo, o flautista Jean Pierre Rampal com sua inusitada flauta de ouro. A série permaneceu por vários anos e foi o maior evento cultural do Brasil. A orquestra sinfônica não era das melhores, mas incentivou e produziu grandes instrumentistas. Com o tempo se tornou uma competente orquestra.

Os estudos de Irene avançavam. Começou a ter aulas com professores especializados e desde então sua técnica aprimorou-se bastante. Havia um quê de virtuosidade em Irene. Adquiriu um ouvido absoluto, sabia o piano com primor, ótima leitura à primeira vista, ditado e solfejo de primeira vez. Tornou-se uma musicista completa e não só uma instrumentista desprovida de conhecimento musical.

Uma bolsa de estudo custeou sua estada em Berlim por três proveitosos anos. Neste período Irene teve a oportunidade de atuar em duas grandes orquestras de vulto técnico e artístico. De volta ao Brasil foi aprovada em concurso e se tornou membro integrante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

Irene Tecla estava então em um bom trabalho. Poderia expor toda sua habilidade artística musical. Ministrava aulas particulares de violino e piano. Atuava como solista em alguns espetáculos.

Podia-se dizer que Irene era uma profissional bem sucedida e realizada. Casou-se com um colega de orquestra e o casal teve duas filhas. Gostavam de estudar partituras do barroco mineiro e divulgar essas composições do século XVIII, mesmo não sendo elas de grande qualidade. Juntamente com as esculturas, pinturas e a arquitetura revelavam o espírito barroco da cultura das Minas Gerais. Ambos estudavam e ensaiavam muito: a orquestra exigia ensaios constantes.

Irene trabalhava com paixão, envolta por uma esfera cultural nobre. Encontros, saraus, reuniões e estudos formavam o cotidiano de sua família. A sinfônica tinha suas atribuições e cumpria anualmente uma agenda de concertos por todo o estado. Algumas vezes em outros estados e até internacionais. A orquestra atuava regularmente e discretamente como deveria toda atividade artística. A indústria da arte é o que mais a empobrece.

A orquestra, soberba, e sob a batuta de seu regente, escolhia com rigor primoroso o repertório. Irene Tecla, com orgulho, compunha a comissão que determinava o repertório de cada apresentação. O maestro, sempre admirado, apreciava e levava em conta seus argumentos que com grande propriedade e pertinência embasavam a escolha do “répertoire”. A qualidade de uma orquestra depende da qualidade de seu repertório, sem dúvida alguma!

Chegou o ano em que a orquestra completaria 50 anos. Em setembro haveria uma grande apresentação que marcaria a expressiva data. O governador do estado acatou o patrocínio de uma empresa sem escrúpulos e muito deselegante. Uma empresa avarenta da pior espécie. Fez da orquestra um de seus muitos haveres. Que horror!

Irene Tecla não pôde mais opinar sobre o repertório. O maestro não se conformou e foi substituído pelo maestro assistente. O repertório foi escolhido pela empresa que visava um grande público. Cunhou o título para o evento: Música de Cinema. O repertório virou um menu, um cardápio, acreditem! O menu consistia em trilhas sonoras de Harry Potter, Star Wars, Superman e outras como Jurassic Park, Indiana Jones e A Lista de Schindler. Extensa lista de contribuições do compositor John Williams à sétima arte.

Para Irene, John Williams era apenas um mercenário da música. Como poderia ela, uma musicista de verdade, mergulhar neste submundo da música? Mergulhar neste imundo e lamacento rio Jordão?

O concerto foi um sucesso de bilheteria. A orquestra pôde saldar suas dívidas, aumentar o salário dos músicos e até conseguiu alugar um amplo salão para ensaios.

Irene e seu esposo exclamaram: só falta agora convidarem o André Rieu para reger uma apresentação!

Os valores culturais de Irene foram se decompondo um a um, até o sétimo mergulho no Jordão. Percebeu ela que não era nada custoso favorecer o gosto menor e em troca receber condições para aprimorar o gosto maior. A orquestra agora podia até promover degustações musicais e exibir, sem avareza, seu virtuosismo artístico e intelectual.

sábado, 31 de agosto de 2019

A Curiosidade de Ana Gish


A Curiosidade de Ana Gish

Quero trazer à memória o que me pode dar esperança.

Lamentações 3.21

O ônibus de turismo chegou a Ajudá, que na língua local se chama Ouidah, uma cidade quase litorânea de Benin. Ajudá foi a maior fortificação de tráfico de escravos levados para as Américas de Américo Vespúcio que ao ver terras em paralelos tão baixos declarou de imediato que não se tratava da Índia e sim de um novo mundo.

Ana Gish desceu do ônibus e conduziu todos à recepção do Hotel Terra Nostra localizado próximo à Rue Olivier de Montaguerre. Informou aos turistas que o jantar seria no restaurante Les Délices de la Côte logo ao lado bem perto do hotel. Depois do jantar iriam se divertir no bar Blue Moon.

Havia em Ajudá uma árvore chamada Árvore do Esquecimento. Antes de embarcarem nos navios negreiros as mulheres davam sete voltas em torno dessa árvore e os homens nove. Iniciava-se ali o exílio eterno, sem volta e sem esperança. Toda memória deveria ser apagada. O Portal do Não-Retorno seria em breve permeado.

No dia seguinte visitaram o Museu de Ajudá instalado no imponente casarão de uma das maiores fortificações de Portugal. Destinada ao então tráfico escravista, a fortaleza marcava o início da Rota dos Escravos que se estende até à Porta do Não-Retorno, monumento banhado pelo Atlântico.

Ana nasceu em Albuquerque no estado de New Mexico e sua mãe a batizou com o nome da atriz de Hollywood Annabeth Gish que também nasceu em Albuquerque. Ao lado de Albuquerque fica Los Alamos, lugar do ultrassecreto laboratório onde o projeto Manhattan construiu as duas bombas atômicas que deram cabo da Segunda Guerra e do Império do Sol Nascente.

De Albuquerque a família de Ana mudou-se para Rock Springs no estado de Wyoming. Aí se estabeleceram e Ana se formou no Western Wyoming Community College. Graduou-se no curso de turismo.

Em uma de suas viagens levou um grupo de turistas a Saint Louis. Visitaram o maior monumento do mundo: o portal para o oeste, The Gateway Arch. Um arco com 192 metros de altura em forma de Catenária. Marca a saída para a conquista do oeste. A expansão territorial dos Estados Unidos. Thomas Jefferson iniciou a partir deste ponto o processo de mapeamento e anexação do oeste desde o Rio Mississipi até o oceano Pacífico. Gish admirava o suntuoso portal, pois sua pequena cidade de Roke Springs decorreu desta grande empreitada.
Por ser de Albuquerque, o ponto turístico preferido de Ana era o Museu Nacional de Ciência Nuclear e o laboratório de Los Alamos. As réplicas das duas bombas atômicas estão expostas neste museu, Little Boy e Fat Man. Os olhares e as fotos de turistas abraçados a elas são emblemáticos. Em Los Alamos, estátuas de bronze dos grandes heróis da bomba atômica: General Groves e Oppenheimer.

Em Ajudá Ana queria ver de perto o Museu de Ajudá, a Rota dos Escravos e a Porta do Não-Retorno. O grupo turístico estava eufórico. Uma excursão em um pequeno país da África é inusitada. Benin foi escolhido por sua trágica ligação com as Américas.

Ana Gish, uma profissional da indústria do turismo, conhecia inúmeros mementos e suas histórias. Ela cogitava: para cada memento há um algoz, mas nem para todo algoz há um memento. Jocosamente Ana falava aos turistas: há muito algoz sobrando! O que gerava dúvida, qual seja, o memento acusa ou rende homenagem ao predador? O que deveria ser óbvio àquele que se depara com um memento era obscuro a Ana.

Curiosa e sem respostas Gish preferia aquietar-se na asseveração moral de que não há topo da cadeia alimentar, visto não passar de um uróboro. A jovem Ana também escasseava a curiosidade com o alento africano proveniente do costume Sawabona e Shikoba.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Selah


Selah

Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus
Sl:46.10


O dia rompeu cinzento e triste. Ernane Galvez se levantou. Seria mais um dia comum sem acontecimentos: nem jornais nem notícias, levava a sério o ditado, “se não sei não existe”.

Foi à janela e olhou o céu. Cristo voltará. Ele sempre conferia o esperado retorno prometido: “entrou no sepulcro, e viu os panos de linho caídos, e que o lenço, que estivera sobre a sua cabeça, não estava caído com os panos de linho, mas dobrado, em um lugar à parte”. Havia fé em Galvez.

No metrô a caminho do trabalho algumas lembranças o aconchegaram: Arnaldo Marchezotti! Ernane o vira tocar uma vez na sala de concertos. Marchezotti era um pianista cego aos oito anos de idade. Diziam que uma gripe tirou-lhe a visão. Ernane frequentava sua casa em Lagoa Santa, cidade onde faleceu o naturalista dinamarquês Lund em 1880. Na casa havia um piano de armário e Marcheezotti tocava para Ernane, que na época tinha cerca de oito anos, ou talvez doze, a memória distante não distinguia. A música preferida era El Amor Brujo – Danza Ritual del Fuego – do compositor espanhol Manuel de Falla. Bonita música se tirarmos o dialeto esdrúxulo e a história adjunta que não passa de maléficas idolatrias ciganas. Marchezotti sentado ao piano era admirado pelo menino. Os cabelos brancos e o olhar sem olhado existente o fascinava.

Quem cuidava de Arnaldo era sua esposa Adelina: paciente e amorosa. Contrariamente, Arnaldo era uma pessoa difícil, irritadiço, nervoso e ranheta. Mesmo sendo um pianista de renome internacional, jamais aceitou a cegueira.

Escondido da mulher bebia vodca, cuja garrafa colocava dentro do armário do piano, longe da vista de Adelina. Com o tempo o etilismo corroeu-lhe o fígado e o matou precocemente.

Mais tarde Ernane soube que Arnaldo apreciava outras mulheres. Até em viagens de navio o pianista arranjava amantes. Ninguém sabia como Arnaldo conseguia ocultar seus encontros amorosos da esposa. Talvez se fizesse de cega para vivenciar a deficiência. Familiarizar-se com ela! Comportamento movido por grande compaixão.

O metrô subterrâneo provocava lembranças em Ernane. O pianista de grande estatura, pele do rosto avermelhada, cabelos brancos. Arnaldo era altivo, um virtuose! A atenção dispensada e o mero fato de estar junto, face a face, em um ambiente particular faziam com que Ernane se sentisse interlocutor do notável Marchezotti. Ter acesso ao sagrado enchia Ernane de orgulho. A soberba do pianista era compartilhada. A soberba das personalidades prodigiosas. Ernane seria um desses! Assim pensava e sentia-se bem.

No dia do concerto o menino Ernane esperava ansioso a entrada triunfante do pianista. Sentado no setor central em frente ao palco, aguardava. Não lembrava se estava acompanhado por seus pais. A memória o tinha a sós. A campainha tocou pela terceira vez. A cortina se abre e as luzes do palco se acendem. No centro um fabuloso piano de cauda. Preto, brilhante e imponente! A orquestra entra sem pressa. Faz-se silêncio. Entra o maestro. Aplausos! Silêncio novamente. Tudo quieto! Aparece Marchezotti guiado por Adelina e caminha até à banqueta do piano. Chegara ao lar!

Assentou-se, acertou a banqueta corrigindo a posição do assento almofadado como se ele estivesse na posição errada. Levantou a fronte sem olhar para ninguém: cegos não olham, mas determinam que os outros o olhem. Arrogantemente tocou a nota Lá do piano. Era o comando para que todos afinassem seus instrumentos corretamente. Quem determinava a frequência era o piano, o próprio Marchezotti. Tocou o concerto número 21 para piano e orquestra de Mozart.

O metrô chegou ao ponto onde Ernane descia. Ele saiu da estação, caminhou por alguns minutos e entrou no conservatório em que dava aulas de regência coral.

O menino Ernane tinha se tornado Arnaldo Marchezotti! Porém, ninguém se tornou Ernane Galvez.