segunda-feira, 8 de junho de 2020

Emily Dickinson - Poema F996 (J1039) (FH400)


Emily Dickinson - Poema F996 (J1039) (FH400)

Há dois manuscritos deste poema, um apenas em parte. O poema sofreu variações no período de 1865 até 1870. Uma cópia do poema inteiro foi registrada no agrupamento de número sete (Set 7) em 1965 e publicada em 1945. Vamos nos ater apenas à última estrofe do poema. Esta estrofe é ela mesma um poema separado e aparece com alterações juntamente a outros poemas em um rascunho de uma carta endereçada a T.W. Higginton. Rascunho escrito a lápis em 1870. A carta ficou inacabada e nunca foi expedida. No final colocamos os fac-símile da carta e do agrupamento 7 (Set 7).

The Spirit said unto the Dust
Old Friend, thou Knewest me
And Time went out to tell the news
Unto Eternity

Tradução:

O Espírito disse ao Pó
Velho Amigo, tu me conheceste
E o Tempo saiu para contar a notícia
À Eternidade

Este poema, quando compõe a última estrofe do poema inteiro, ele carrega seis variações, a saber,

And Spirit turned  unto the Dust
Old Friend, thou Knowest me
And Time went out to tell the News
And met Eternity

Tradução:

E o Espírito se virou para o Pó
“Velho Amigo, tu me conheces”
E o Tempo saiu para contar a notícia
E encontrou a Eternidade

Veremos agora o fac-símile do poema inteiro no agrupamento de número sete (Set 7) e o fac-símile do rascunho da carta onde a última estrofe é escrita separada e com as modificações. Vejam também os outros poemas constantes na carta. Observem que no agrupamento sete há quebras de linha que não foram mostradas aqui. Mostraremos também o rascunho da carta publicado por Johnson em 1958: Carta J353.






domingo, 17 de maio de 2020

Emily Dickinson - Poema F980 (J917) (FH370)


Emily Dickinson - Poema F980 (J917) (FH370)

Manuscrito em 1865 e encontra-se no agrupamento de número sete (Set 7), cujo fac-símile veremos no final. Publicado em 1896 com um título: “Love” e com uma modificação que comentaremos depois.

Love - is anterior to Life -
Posterior - to Death -
Initial of Creation, and
The Exponent of Earth -

A tradução não me parece difícil, a dificuldade maior é criar um significado para o poema e perceber o sublime.

Amor - anterior à Vida -
Posterior - à Morte -
Inicial de Criação, e
O exponente da Terra -

Reparem que “Initial” é um substantivo, traduzido por “inicial” - letra capitular, iniciais de um nome. A palavra “exponente” também um substantivo traduzido por “exponente” ou “expoente”.

Na primeira publicação lhe foi dado um título: “Love”. Além disso, Mrs Todd que transcreveu o texto do poema para publicação, trocou uma palavra alterando assim o texto, qual seja, em vez de “Earth”, Todd colocou “breath”. A última linha ficaria assim:

O Exponente da respiração -

Eu acredito que ED queria dizer realmente “respiração”, “hálito”, “respiro”, “alento”, “fôlego”, etc.. No entanto, a palavra “Terra” ou “Earth” diz tudo isso com muito mais propriedade se considerarmos o inteiro contexto do poema.

Acredito ainda que o poema seja a oração de um calvinista. Por sinal uma inspirada oração.



domingo, 10 de maio de 2020

Emily Dickinson - Poema F904 (J860) (FH350)


Emily Dickinson - Poema F904 (J860) (FH350)

Poema escrito no começo de 1865. Manuscrito encontra-se no agrupamento de número cinco (Set 5; A87-3). O fac-símile deste manuscrito será mostrado no final. Foi publicado em 1945.

Absence disembodies - so does Death
Hiding individuals from the Earth
Superstition helps, as well as love -
Tenderness decreases as we prove -

Ausência desencarna - igualmente a Morte
Escondendo indivíduos para longe da Terra
Superstição ajuda, tanto quanto o amor -
Ternura decresce assim que experimentamos -

Há duas quebras de linha no manuscrito:

Absence disembodies -
so does Death
Hiding individuals from
the Earth
Superstition helps, as well as love -
Tenderness decreases as we prove -

Vejamos agora o poema manuscrito no agrupamento de número cinco. (Set 5; A87-3/4)



quarta-feira, 29 de abril de 2020

A Moça do Vestido Rosa


A Moça do Vestido Rosa

Therefore shall a man leaue his father and his mother,
and shall cleaue vnto his wife: and they shalbe one flesh.

Gênesis2.24

Da janela do quinto andar Irene olha as avenidas movimentadas, veículos a ir ou a vir. O metrô suspenso passa de tempo em tempo, barulhento, ruidoso, estremecia o quarto. Irene morava aí, neste cubículo do quinto andar. Morava sozinha. Viúva já de idade avançada não tinha mais as visitas dos filhos. A parca pensão que recebia era suficiente: se alimentava bem, vestia-se com alinho, caminhava todos os dias, cozinhava e olhava pela janela de onde vinham suas recordações.

Aprendi a tocar bandolim com minha avó, ela havia estudado com Jacob do Bandolim, mas isso não fazia sentido nem era importante para mim naquela época, pensava Irene se debruçando para ver os carros distantes. Seu pensamento continuava insistente: aprendi também a bordar, com bastidor e controle de pedal na máquina bordadeira; riscos sobre tecido esticado, riscos de fios de tecidos. Um ziguezague que lentamente adensa-se preenche uma região, um pedaço de pano que se transforma; cores se abotoam entre emaranhados, labirintos, hachuras. Ariadne, salva Teseu, senhora dos labirintos.

Irene com olhar fixo e pensativo apenas recorda-se de fatos de sua infância. Aprendi a cobrir botões, contar histórias. Escutava durante horas as cartas que eram lidas, inúmeras cartas de amor, promessas, paixões, juras. Lidas quase que diariamente, memorizadas, em voz alta, recitadas. Cartas do marido que a deixou. Ela ainda jovem com dezessete anos e um filho no ventre. Este menino que iria nascer era o meu pai. Eu contemplava a cena, apreciava, uma perplexidade rompia a inocência!

Aprendi a colocar cartas, tarô, astrologia, o grande orbe celestial, zodíaco, horóscopo: escorpião, leão. Aprendi a ler palmas, mãos abertas e suas linhas marcavam destinos, fortuna traçada, imperatrix mundi. De onde vem este cigano, meu Deus? Não se sabe!

Irene na janela continuava pensativa. Havia um mundo de lembranças dentro dela e era aí, parece; que ela vivia em segredo.

A agitação era tanta que eu pedia uma benzedura: vó, me benze? Palavras balbuciadas seguidas de gestos persignatórios em minha face. Suas digitais tocavam minha testa e meus lábios. A serenidade aos poucos tomava posse. Permanecia então em um estado de repouso, uma inércia vitoriosa, resistia a qualquer mudança. Instantes de paz, serenidade e calma, produzidos por gestos mágicos e palavras murmurantes, indecifráveis. Sons que apaziguavam!

Aprendi com ela a arte da recitação, versos... Cantar melodias, cantigas de roda e a representar, a arte do teatro! Diálogos entre personagens, teatro! Uma cantiga de uma história! Será que ainda me lembro? Pensou Irene.

Andai, andai meu gadinho
Não se esqueçais do andar
Não faças como o Joãozinho
Esqueceu de Mariá Griná.

A inversão de pessoas do verbo é a licença poética para ajustar letra e ritmo; a gramática se sujeitava à beleza e não o inverso. A famosa licença poética já desgastada frase pelo uso.

Setenta anos depois Irene escutou suas últimas palavras, reminiscência de um passado longínquo, remoto, faculdade da memória; memória, faculdade de preservar o passado, apresentar o ontem: “o olhar do meu marido, quando ele me viu pela primeira vez, eu usava um belo vestido rosa, cortado em viés, godê elegante! Um cinto largo e espesso na cintura com uma grande rosa feita de tecido presa ao cinto um pouco à direita me enfeitava. Aquele olhar não deixava dúvida do seu desejo. No outro dia foi conversar com meu pai”.

Irene vai todos os dias à janela, aprecia a paisagem, o movimento, o barulho e também se conforta com as lembranças de sua avó.  

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Emily Dickinson - Poema F663 (J543) (FH221)


Emily Dickinson - Poema F663 (J543) (FH221)

Poema escrito a mão em 1863. Encontra-se no fascículo de número trinta que mostraremos depois. Publicado em 1929.

I fear a Man of frugal speech -
I fear a Silent Man -
Haranguer - I can overtake -
Or Babbler - entertain -

But He who weigheth - While the Rest -
Expend their furthest pound -
Of this Man - I am wary -
I fear that He is Grand -

No manuscrito ED propõe duas palavras alternativas, quais sejam; “scanty” no lugar de “frugal” e “inmost - ” no lugar de “furthest”. Veremos isso no fac-símile do fascículo de número trinta.

Vejamos a tradução:

Eu temo um Homem de poucas palavras -
Eu temo um Homem Silencioso -
Arengador - posso dar conta -
Ou palrador - entreter -

Mas Aquele que pondera - Enquanto os Outros -
Gastam seus últimos centavos -
Deste Homem - Tenho cautela -
Eu temo que Ele seja formidável -

Nas primeiras publicações de 1929 a palavra “weigheth” foi trocada por “waiteth” que significa “espera” do verbo esperar. Note que são formas arcaicas e elas estão na terceira pessoa do singular, modo indicativo presente. Estas primeiras publicações também utilizaram as duas palavras alternativas proposta por ED no fascículo e a segunda estrofe com cinco linhas: quebra de linha na palavra “weigheth - ”.

A palavra “Rest” é plural semântico, significa o que sobrou, o que restou de certa quantidade de coisas ou pessoas, os outros que não fazem parte de determinado conjunto, os restantes. Eu particularmente não concordo. Deveria haver o plural “The Rests”.

A última linha claramente pede o verbo no subjuntivo, o que a autora não percebe e conjuga o verbo no indicativo. Deveria ser: “I fear that He be Grand”. Na língua inglesa há sempre isso: o modo subjuntivo não é muito visível e sua conjugação é praticamente o infinitivo ou o indicativo sem as terminações do singular. O mesmo se dá com o imperativo. Digo: esses modos verbais são nebulosos na língua inglesa.

Vejam o manuscrito abaixo com as duas alterações propostas. Reparem nos dois sinais, cruzinhas (+), marcando as duas palavras e no final a forma alternativa proposta pela autora para cada uma das duas palavras. O número da esquerda é a numeração de Johnson (J543). A escrita muda de uma página para outra no meio da segunda estrofe.




I fear a Man of scanty speech -
I fear a Silent Man -
Haranguer - I can overtake -
Or Babbler - entertain -

But He who waiteth -
While the Rest -
Expend their inmost pound -
Of this Man - I am wary -
I fear that He is Grand -

Acima, o poema na forma alternativa.

sábado, 11 de abril de 2020

Insuperável Comunicabilidade (1)


Insuperável Comunicabilidade (1)

Portanto, assim diz o Senhor Deus dos Exércitos, o Deus de Israel: Eis que Eu trarei sobre Judá, e sobre todos os habitantes de Jerusalém, todo o mal que Eu pronunciei contra eles, porque Eu lhes falei, mas eles não ouviram, Eu os chamei, porém eles não responderam.

Jeremias35.17

Hora do início da aula. O professor José Machado entra em sala de aula. Classe do curso de odontologia da Universidade de Alfenas. O murmurinho de sempre! O professor Machado vai para diante do quadro negro e repetidas vezes pede silêncio dizendo: hora de começar, façam silêncio e assentem-se. Após alguns minutos faz-se quietude na sala. Machado tira o livro texto da pasta, abre na página 92 e dirige-se para a turma: hoje vamos fazer a leitura de uma situação odontológica elucidativa que está descrita no Capítulo 5 de nosso livro. O professor passa os olhos na página, pensa um pouco e pede aos alunos que abram o livro na página 92. Escutam-se barulhos de folhas e livros batendo na madeira das carteiras. José Machado pede silêncio e começa a ler em voz alta o conteúdo da página. Em menos de dois minutos ouve-se a pergunta de um aluno: qual página, professor? Ele responde: página 92. Começa novamente a leitura. Os alunos seguem o texto acompanhando a leitura do professor. Outro aluno distraído interrompe a leitura e pergunta: qual a página, professor? José pacientemente diz: página 92. Devido à interrupção provocada pelo aluno distraído e sua intrepidez em perguntar, José é obrigado a recomeçar a leitura desde o início.

A leitura já transcorria dentro de um clima de concentração da classe quando um terceiro aluno, folheando ruidosamente o livro sobre a carteira como se estivesse procurando a página, indaga com a voz elevada: qual é mesmo a página? José interrompe a aula e começa a andar pela sala passando de fila em fila como se passasse em revista um pelotão. Foi até ao aluno que folheava o livro e falou: um pouco mais para frente, você está no Capítulo 4, a página 92 fica no Capítulo 5. Viu? Aqui está! Mostrou o professor. O aluno sem demostrar o menor constrangimento agradece: obrigado pela ajuda!

José Machado continua sua revista e caminha para a parte de trás da sala. Percebe então, que um aluno se encontra sentado e com o livro fechado em cima da carteira. Machado pergunta: você não vai abrir o livro e acompanhar a leitura que estamos fazendo? Este responde apressado com olhar fingindo espanto: vou sim professor, mas me diz qual é a página, estou sem saber. José calmamente fala: página 92. O aluno continua: de qual capítulo professor? Nesta hora toda a turma começa a rir e uma voz vinda da sala diz: só pode ser do Capítulo 5 sua anta! José pede silêncio e respeito aos colegas em sala de aula. Finalmente ele abre o livro na página certa e passa a olhar fixamente o conteúdo que lhe fugia. Não tinha a menor ideia do que poderia estar no livro e do que se passava dentro daquela sala de aula. Limitado ao mero conhecimento empírico estava certamente no lugar errado. Sua presença ali já é um deboche à docência.

O professor continuou sua caminhada até o final da sala, na última fileira. Parou. Outro aluno, mas agora sentado sem livro algum em cima da carteira. José perguntou: você não vai participar da aula? O aluno respondeu: vou sim professor, claro, claro, vou sim. Então abra o livro, replicou José Machado. O aluno, um rapagão forte, cabelo louro oxigenado, cortado rente, olhou para José com meiguice preguiçosa e soltou a pergunta: qual livro professor?

Essa rotina permanecia por anos e anos, toda aula era a mesma coisa, por mais divulgado que seja o aviso sempre há quem não ouve. Por mais que se decrete uma regra há sempre quem não cumpre. Na comunicação há um limite sempre aquém da abrangência total, pois não existe o que se fala, mas somente o que se ouve.



sexta-feira, 10 de abril de 2020

Emily Dickinson - Poema F540 (J407) (FH157)


Emily Dickinson - Poema F540 (J407) (FH157)

Escrito em 1863 uma cópia foi enviada a Susan Dickinson assinada “Emily”. Esta cópia passou pelas mãos de várias pessoas e foi publicada em 1914. Outra cópia foi escrita no fascículo 28 que mostraremos no final. Veremos a cópia que está no fascículo. Há outra versão publicada na qual não há quebra de linha entre a primeira e a segunda, ou seja, as duas formam uma só linha.

If What we could - were
what we would -
Criterion - be small -
It is the Ultimate of Talk -
The Impotence to Tell -

Se o que pudéssemos - fosse
o que gostaríamos -
Critério - seja leve -
O que há de mais sublime em um discurso -
A Impotência de dizer -

Outras publicações têm as seguintes formas:

If What we could - were what we would -
Criterion - be small -
It is the Ultimate of Talk -
The Impotence to Tell -

If What we could
Were what we would;
Criterion be small -
It is the Ultimate - of Talk -
The Impotence to Tell.

Se o que pudéssemos - fosse o que gostaríamos -
Critério - seja leve -
O que há de mais sublime em um discurso -
A Impotência de dizer -