sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O Discurso de Álvaro Alvim


O Discurso de Álvaro Alvim

Pois nunca deixará de haver pobres na terra; por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre da tua terra.

Deuteronômio11.15

Discursava a deputada Andreia de Jesus do alto da tribuna em uma das sessões da câmera. Audiência pequena, poucos parlamentares na plateia, mas todos prestavam muita atenção. Um deles era o deputado Álvaro Alvim, de cabeça baixa tomava nota constantemente.

Andreia falava o que sempre falou, repetia e repetia. Aplicava a ideia de Joseph Goebbels: a repetição de uma mentira a torna verdade. Ela repetia: em 2019 cumpri nosso primeiro ano de mandato, inaugurado com o feito histórico na política institucional mineira - pela primeira vez, uma mulher negra do PSOL ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Comentou sobre o mandato coletivo. Mandata Coletiva, dizia ela, pois somos quatro mulheres neste trabalho. A plateia já ouvira isso diversas vezes! Trabalhamos em pautas marginalizadas, continuou a deputada, nossa pauta abrange um mapa de lutas: combate ao racismo e à LGBT-fobia, feminismo, moradia popular, desencarceramento e respeito às comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ciganos, congadeiros e raizeiros. Andreia termina: o ano acaba; a luta não. Todos aplaudem!

Em seu canto, quieto, estava o deputado Alvim que pediu a palavra. Foi ao microfone e iniciou sua fala. Senhora deputada, neste mapa de lutas que a senhora citou há poucas, talvez nenhuma, que eu conheça. Não entendo toda essa veemência! Pergunto a Vossa Excelência: o que são ou quem são congadeiros? Será algo relacionado à congada? A deputada responde: sim, senhor Alvim, muito comum em Pernambuco. O deputado pensou um pouco e calmamente retrucou: ora, então é uma música misturada com dança, oriunda de escravos e relembram ou provocam antigas lutas entre tribos rivais do Congo e de Angola. A senhora vai me desculpar, retrucou Alvim, mas apoiar congadeiros é um ato fascista que vangloria guerras, agressões e atrocidades entre seres humanos; verdadeiro discurso de ódio. O partido socialista alemão iria simpatizar em apoiar o extermínio de tribos rivais por elas mesmas. Já pensou a senhora, estivessem em guerra os dois países até hoje? Angola tem sorte de falar português e o Congo, se é que existe ainda com este nome, mais vantagem ainda por falar francês. Note, então, deputada, que o colonialismo melhorou muito as condições sociais da África. Vou lhe dar mais um pouco de exemplos senhora deputada, falou Alvim, vejamos: o que seria da Índia sem os ingleses? O Quênia? África do Sul? Seriam um amontoado de tribos até hoje, analfabetos e selvagens! Os índios brasileiros, se não fosse Portugal, estariam comendo uns aos outros até hoje, isso se já não tivessem sido extintos! Os colonizadores salvaram os colonizados deles mesmos, completou Alvim.

A deputada Andreia se exaltou, deu uma tapa na mesa da tribuna e gritou: Vossa Excelência está me ofendendo. Senhor presidente, não quero mais ouvir este senhor, corte seu microfone. O presidente nada fez e pediu à Alvim que continuasse.

O deputado não quis prolongar muito e soltou uma frase de efeito: deputada Andreia, a senhora quer defender antropofagia e tacape ou vagabundo com pena na cabeça e sandália havaiana no pé? Ainda deu tempo de mais uma frase antes do chilique de Andreia. Enfatizou o deputado: se índio tivesse cultura não seria índio, ora!

Deus nos acuda! O tumulto tomou conta. As partidárias de Andreia xingavam, ralhavam, insultavam, injúrias e mais injúrias, ofensas e descomposturas. Alvim permanecia calado. Outros parlamentares entraram na balbúrdia e ninguém sabia quem defendia e quem atacava, não sabiam nem mesmo o que atacavam e o que defendiam, exceto as partidárias de Andreia, insuportáveis!

O presidente com muito custo pôs ordem na casa. Alvim foi ao microfone e conseguiu falar e ser ouvido. Disse ele: as senhoras deputadas da turma da deputada Andreia querem, com esta pauta, transformar o Brasil em um punhado de tribos. Querem manter estas minorias da mesma forma que elas eram há anos, as senhoras já perguntaram a eles se este é mesmo o desejo deles? A propósito, continuou Alvim, não vi no seu mapa, senhora Andreia, menção alguma em relação aos judeus. Acho que, na verdade, a senhora os odeia, é antissemita, antissionista, odeia os brancos, os bem sucedidos e os que trabalham para sustentar as famílias; mas todo final de semana está lá no jardim da Laila, semana passada vi a senhora lá, com o mesmo discurso de hoje. Ainda, deputada, excluir os judeus é um ato nazista e dizer que o “ano termina, mas a luta não” é um ato de extremo nacionalismo, não muito diferente do nacional socialismo de Goebbels. Se eu colocar uma música de Wagner ao fundo vamos nos sentir no quartel general de Hitler. Alvim continuou: sei que a senhora estava envolvida na pichação do mural dos reformadores em Genebra, pensa a senhora que eu não sei, mas sei e tenho provas. A senhora odeia os cristãos e está ligada aos muçulmanos. Sei que se sente bem com todo ato terrorista praticado por eles. Esqueceu-se de colocar no seu mapa a luta contra a islamofobia. Aprecia a islamização da Europa, não é mesmo senhora Andreia?

Novo tumulto, mas Alvim conseguiu retomar a palavra. Vou dizer algo muito importante e sério. Ouçam-me e já me calo, disse ele. Começou: senhoras e senhores; digo que todos nós, digo, todos, somos; homens, brancos, europeus e cristãos. Acabou de falar e protestos já soaram de imediato. Porém, acalmaram e Alvim disse: vou explicar o que quero dizer. Vou dar alguns exemplos e logo entenderão. Vamos lá. Pergunto: Barack Obama é homem, branco, europeu e cristão. Sim ou não? Outro exemplo; continuou Alvim: Margaret Thatcher é homem, branco, europeu e cristão. Discordam? Mais um: Nelson Mandela é homem, branco, europeu e cristão. Outro: Michael Jackson é preto ou branco? Criança ou adulto? Alvim sorriu: só uma brincadeirinha pessoal! Vejamos outro exemplo: Spike Lee é homem, branco, europeu e cristão. Oprah Winfrey é homem, branco, europeu e cristão. Bem, falou Alvim, chega de exemplos, já é o suficiente para perceberem que ser Homem, Branco, Europeu e Cristão é um conceito e não é definido por etnia, cor da pele, crença religiosa ou gênero. Senhora Andreia, entendo sua causa, sua conduta é cabível; o que é incabível é sua postura e de suas seguidoras, apesar de sentidos próximos as duas palavras são diferentes. Não interessa a nação alguma ter pessoas, maiorias ou minorias, desvalidas. Isso prejudica a nação, dá prejuízo, pois um desvalido não tem nada a perder. Uma pessoa que não tem nada a perder se torna perigosa e um bandido custa muito caro. É muito mais barato cuidar de um desvalido com ações públicas remediadoras do que sustentar um presidiário. Bandido preso é caro, solto é ameaço. Classes sociais diferentes são essenciais à nação. Uma empregada doméstica está muito bem incluída socialmente, um lixeiro também. Todos os grupos que a deputada colocou em sua pauta são muito bem incluídos e qualificados, não são desvalidos. O senhor se esqueceu dos LGBT’s deputado, disse uma partidária de Andreia interrompendo a fala de Alovim. Ah sim! Esqueci-me, mas não é difícil um exemplo, quer ouvir senhora? Sim, quero, respondeu. Pois bem: Elton John é homem, branco, europeu e cristão. Ficou satisfeita? Alvim voltou-se novamente para Andreia e continuou. Portanto, deputada Andreia, preocupe-se com os desvalidos e não fique aí fazendo papel ridículo tentando arrancar força política vinda de falsa piedade para com marginalizados. Nenhum deles é marginalizado, mas é conveniente para a senhora que o sejam. Isso se chama hipocrisia. A senhora quer que os outros pensem que Vossa Excelência não é homem, branco, europeu e cristão. Não adianta, pois só de ser deputada e frequentar o jardim da Laila já te torna homem, branco, europeu e cristão. Não há outra opção a menos que queira ser um excluído socialmente. E é democrático, pois todos podem ser HBEC. Não há lei que impeça.

Alvim agradece a presidência da mesa e antes de se virar para a direção de seu assento se desculpou: presidente; peço desculpas por ter ocupado seu tempo com argumentos enfadonhos e já tão desgastados. Argumentos repetitivos, caducos, tanto os meus quanto os da deputada carregando a bandeira dos oprimidos. É a mesma coisa que ouvir CD de piada do Juca Chaves ou assistir replay do Chacrinha. Transformamos esta casa em um centro de estudos da teologia da libertação e com este ato profanamos este templo e sua dignidade inerente. Finalizou: Desculpe-me e agora me retiro.

Andreia de Jesus, enfurecida e revoltada, fugindo do assunto, tentou uma última provocação. Gritou lá da tribuna onde estava: Senhor deputado Álvaro Alvim, o que me diz de um país que permite empresa construir barragens sem cumprir as devidas normas de segurança colocando a população em risco? Alvim percebeu que ela falava sobre a Vale do Rio Doce na cidade de Brumadinho, visto que a deputada é mineira. Alvim refletiu por um instante e respondeu com outra pergunta: muito bem cara colega deputada Andreia de Jesus, quero que antes me responda: o que a senhora me diz de um país cujas pessoas se mudam para Brumadinho adulterando local de residência só para receber indenização?

O presidente encerrou a sessão.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Reino Unido UK


Reino Unido UK


Inglaterra! Se acrescentarmos algo chamado Escócia e ainda, uma outra coisa estranha que ninguém sabe ao certo sobre sua ontologia, chamada de País de Gales (quem será esse tal de Gales? Gaulês tem a ver com França, Gália, Júlio César), teremos um outro nome, a saber, Grã-Bretanha. Se a isso juntarmos uma pedrinha insignificante denominada Irlanda, que, por incrível que pareça, ainda consegue se dividir em duas: norte e sul, com um outro nome que ninguém sabe de onde vem: Eire; ou será IRA? Esse IRA é o norte ou o sul? Ele é protestante ou católico? Vai ver é igual a Tom Jobim que é uma só pessoa, parece dupla, mas não é, podem acreditar, é um só. Já o Toquinho e Vinícius é uma dupla, nunca se esqueçam disso! Pois bem, como estava falando, se juntarmos esse átomo, que por sinal é divisível (norte e sul), aliás, se juntarmos só o norte, passa a se chamar Reino Unido, ou melhor, United Kingdom – UK. No final fica ainda a pergunta, quem é a Bretanha?

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O Jardim de Laila


O Jardim de Laila

Meu filho, se der ouvidos à sabedoria e inclinar o coração para o discernimento;
então você entenderá o que é temer o SENHOR e achará o conhecimento de Deus.
Pois o SENHOR é quem dá sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o discernimento.
Então você entenderá o que é justiça, juízo e equidade.

Provérbios2.1-10

Em uma movimentada rua do bairro Luxemburgo há um lote muito íngreme, na verdade é uma sólida montanha cercada por quatro muros. Uma escada lateral, quase vertical, beirando o muro de arrimo conduz até o topo do monte. Aí, bem no topo há uma grande área plana cimentada; uma espaçosa casa tipo rústica bem simples e um belo jardim que contorna toda a casa. O jardim é de fato uma floricultura e sua proprietária chama-se Laila Cardoso. Ela mora na casa e a floricultura possui dois funcionários, jardineiros, para os serviços de jardinagem e paisagismo supervisionados por Laila. A floricultura tem por nome Atelier Luxemburgo. A especialidade do atelier é o cultivo de suculentas, porém faz qualquer serviço de jardinagem, desde vendas de mudas a manutenções periódicas de jardins paisagísticos e caseiros. Funciona também como flora.

Laila é formada em biologia e especialista em botânica. Tem também cursos de jardinagem e paisagismo. Grande conhecedora da classificação das plantas, ela diz que esta arte se chama fitotaxonomia.

O jardim de Laila era um ponto de encontro de artistas e intelectuais que às noites e fins de semana se reuniam, ouviam músicas, cantavam - comida de boteco, vegetariana e outras extravagâncias. Ali normalmente se lamentavam e conversavam sobre política, crenças, costumes, moral, sociedade, políticas públicas, etc.. As reuniões eram o grande amparo para a geração Danoninho, (alguns falam Todinho), afetada, sensível e melindrada. Tinham isso como virtudes e direitos. A indústria do medo os acolhia, falam também em cultura do medo, nomenclaturas da moda! O planeta está em risco, o clima está se desestabilizando, aquecimento global, incêndios, aumento da violência a cada dia, não se tem mais segurança, estupros e mais estupros, violência doméstica, feminicídio, desigualdade ou igualdade de gênero, identidade de gênero, e por aí vai, a lista de preocupações é interminável.

Enquanto se lamentavam e expurgavam suas melancolias, as suculentas de Laila brilhavam de tão verdes e coloridas, sol, chuva e alimento, tudo na medida certa. Bem nutridas, saudáveis, férteis e acima de tudo maravilhosas. A calota polar ainda não se derreteu.

Pode parecer estranho, mas o convívio social de Laila começou na faculdade e o cultivo de flores agrada aos artistas. Consideram o cuidado e a admiração das plantinhas um ato de conduta política. Algo parecido com o que faziam os hippies: distribuíam flores. Flower Power - que rima perfeita - Podemos dizer que também são semelhantes aos minions, seres milenares, amarelos cuja missão é servir aos poderosos vilões. Agora eles estão em depressão devido à morte de seu antigo mestre - tentam encontrar um novo chefe. Sandra Bullock e Scarlet Overkill estão na convenção dos vilões, quem sabe?

Fatos curiosos, digamos inusitados - acontecem no jardim de Laila. Semana passada passou por aqui uma cantora com um apelido estranho, lembro-me: Tiê. Não sabia a princípio que era um nome de mulher. Ela foi ao Jardim; angustiada começou a desabafar suas mágoas com o grupo. Dizia: Faço canções para fugir da melancolia permanente; tenho novas canções na gaveta, entro em 2020 querendo superar as angústias do ano passado. Continuou ela: passei para o papel minhas preocupações com o momento político e social do Brasil. Todos começaram a ficar perplexos. Silenciaram-se para ouvi-la. Nunca vi tanta compaixão e cumplicidade! Laila indagou: o que aconteceu Tiê? Passou bem o ano? Ela responde: são tempos duros, tive até dificuldade de celebrar. Mas, sigo fazendo música e pensando em possibilidade. Não podemos desistir. Laila não entendeu a resposta e pensou: será que La Résistance voltou a atuar contra o eixo? Será que Tiê virou uma partisan?

Tiê não parava de falar. Sair da bolha também é sinônimo de não deixar que a internet e as redes sociais nos tornem pessoas cínicas e falsas. Tentar achar um equilíbrio na meditação, voltar a fazer trabalhos voluntários, resistir, resistir artisticamente e plantar a semente de um novo mundo nas minhas filhas são as armas que tenho para mudar o que considero danoso, concluiu ela com veemência. Neste momento de pausa, Laila olhou para os convidados e fez um sinal com o ombro querendo insinuar que não via sentido naquele desabafo. Houve descontentamento com o desentendimento. Laila se dirigiu à cozinha murmurando: eu hem! Não se pode nem mesmo não entender, credo!

A dona da casa muito respeitava a cantora, pois em 2009 Tiê gravou uma canção em homenagem ao jardim de Laila. A canção se chama Sweet Jardim.

Entre o pessoal daquela noite no jardim estava também a grande deputada estadual Andreia de Jesus. Assim como os minions, não podia perder a oportunidade e começou a falar: em 2019 cumpri nosso primeiro ano de mandato, inaugurado com o feito histórico na política institucional mineira - pela primeira vez, uma mulher negra do PSOL ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Laila, ouvindo lá da cozinha ironizou: quanta eloquência! E Andreia não se calava. Comentou sobre a estrutura do mandato coletivo - ela e mais três eleitas. Como são quatro eleitas em um mandato coletivo resolveram mudar o nome: em vez de mandato coletivo agora é mandata coletiva, para concordar com o gênero. Nada mais revolucionário, importante e inovador! As quatro trabalham em pautas marginalizadas. Falei isso antes: os minions têm como missão servir vilões. Eis os vilões que estão no mapa de lutas, ouçam os brados de Andreia: combate ao racismo e à LGBT-fobia, feminismo, moradia popular, desencarceramento e respeito às comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ciganos, congadeiros e raizeiros. Andreia termina: o ano acaba; a luta não. Laila, ocupada com a comida que estava a cozer para os convidados ouvia e se perguntava: que luta será esta, meu Deus do céu? Olhava para o jardim e o apreciava. Os pequenos holofotes ornavam as plantas com feixes quase paralelos de luz. Das camadas superiores pendiam cachos e mais cachos de flores e folhas coloridas pela luz. A rainha da Babilônia ficaria com uma pitada de inveja das cascatas florais! A bióloga exclamava: estas meninas estão maluquinhas, maluquinhas! Palavras esquisitas elas usam, piores do que as usadas em taxonomia!

Um grupo exaltado se levantou e com copos nas mãos gritaram: vozes por Marielle Franco! Entre o grupo estava uma mulher agitada cujo nome era Marina Íris. Outro, já idoso, atendia por Antônio Nóbrega. Marina, em altos brados e rouca pronunciava: eu garanto que o samba é político e defendo o ritmo como uma forma de resistir. Houve aplauso geral. Os dois jardineiros, funcionários de Laila, olhavam um para o outro e diziam: será que vem guerra por aí? Não pode ser - o jardim está lindo, olha a cor dessas Helicônias! O outro completou: veja então o vermelho dos cachos das Alpínias sob o efeito da luz! Que maravilha! Neste momento Antônio Nóbrega levantou a voz e berrou: Não podemos ficar condenados a sermos um país que dizima o seu próprio povo. Os dois jardineiros se levantaram e foram ter com Laila na cozinha. Laila, falou um deles, toda semana é isso, falam esbravejam, gritam e até ficam roucos de tanta fala perdida e jogada ao jardim. Laila, o jardim está se ressentindo, eu acho, disse o jardineiro. Laila responde: não seja tolinho rapaz. Nosso jardim tudo suporta. Laila, insistiu o jardineiro, quem é essa Danielle ou Marielle? Ela responde: e eu sei lá, este pessoal fala qualquer nome que lhe vem à cabeça. Eu hem! Exclamou assustado o jardineiro. O pessoal começou a cantar, se divertiam! Laila falou: faz escuro, mas eu canto. Parou a música e alguém perguntou: você sabe quem falou esta frase poética, Laila? Ela responde em tom debochado: eu? Sei não, mas já ouvi. Não sei se precisa fazer escuro para cantar, será que de dia não se pode cantar? Perguntou Laila.

Laila grita da cozinha: gente, a comida está pronta. Venham se servir. Ligaram um telão improvisado e - assistindo a um filme de gente fantasiada de gatinhos - todos jantaram entre as flores de Laila.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1146 (J1127)


Emily Dickinson - Poema F1146 (J1127)

Poema escrito em 1868, a lápis em um recorte ou fragmento de papel de escritório. Publicado em 1945.

Soft as the massacre of Suns
By Evening’s sabres slain

Ou

Soft as the massacre of
Suns
By Evening’s sabres
slain

Ou ainda,

Soft as the [massacre]s of Suns
By Evening’s sabre slain

Seguirei a primeira versão.

Suave como o massacre dos Dias
Pelos sabres da noite chacinados

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1145 (J1145)


Emily Dickinson - Poema F1145 (J1145)

Poema escrito em 1868, a lápis em um fragmento ou recorte de papel de escritório. Publicado em 1945.

In thy long Paradise of Light
No moment will there be
When I shall long for Earthly Play
And mortal Company -

No fragmento de papel, o manuscrito aparece com mais duas quebras de linha. As quebras de linha, aparentemente foram provocadas por falta de continuidade do papel. Imaginem, ela está escrevendo em um fragmento de papel, em um dado momento a linha acaba e ela simplesmente passa a escrever no espaço abaixo, não porque queria começar outro verso, mas porque não havia mais papel naquela linha. Como ela não passava a limpo, simplesmente guardava o recorte de papel escrito. Futuramente, quando ela passou a se vestir de branco e se enclausurou em seu quarto, ela tentou organizar seus poemas. Separou-os em fascículos, mas nem sempre colocava datas e nem indicava qual a ordem seguiam os agrupamentos, em geral eram aleatórios, alguns poemas ela revisou, outros não. Muita desordem!

In thy long Paradise
of Light
No moment will there be
When I shall long
for Earthly Play
And mortal Company -

Em teu longo Paraíso de Luz
Nenhum momento haverá
Quando eu almejar Diversões Terrenas
E Companhia mortal -

Neste caso, eu acredito que as quebras de linhas não foram por falta de espaço no recorte. Em português não faz realmente diferença. Vamos reparar o ritmo do poema em inglês:

In thy long Paradise  (grifei a palavra long)
of Light
No moment will there be
Whem I shall long  (grifei novamente)
for Earthly Play
And mortal Company

Notamos que o “long” da quarta linha ficou separado do “for” que passou para a quinta linha. Com esta separação a pronúncia do “long” da quarta linha conjuga com o “long” da primeira linha definindo um ritmo. A pergunta é essa: por que a quebra de linha mudou o ritmo do poema. Explico: a expressão “long for” significa um anseio forte, um desejo grande e soará como se fosse uma palavra só, ou seja, se colocarmos as duas no mesmo verso a sonoridade será como de uma palavra só. Se estiverem separadas, a sonoridade cairá sobre a palavra “long” conjugando assim com a primeira linha.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1143 (J1132)


Emily Dickinson - Poema F1143 (J1132)

Este é um poema rico em vocabulário, profundo e denso. Difícil compreensão e não muito aceito pelos editores. Foi modificado várias vezes e a própria autora apontou várias alternativas que ela mesma ficava em dúvida.

Escrito em 1868, a lápis, em uma folha de papel de escritório gravada em relevo com a letra T. Publicado em 1945.

The smouldering embers blush -
Oh Cheek within the Coal
Hast thou survived so many nights?
The smouldering embers smile -

Soft stirs the News of Light
The stolid Rafters glow
One requisite has Fire that lasts
Prometheus never knew -

Esta é a reprodução passada a limpo do poema que está escrito na folha de papel de escritório. Digo isso porque a autora fez várias correções ou variações no mesmo manuscrito. Rabiscando, cortando palavras, grifando palavras até com dois grifos, separando e juntando linhas e sublinhas e mais sublinhas. Falaremos também das modificações feitas pelos editores. Na verdade, o que temos no manuscrito é um rascunho de poema.

Vamos à primeira tentativa de tradução do rascunho transcrito acima.

As fumegantes brasas se enrubescem -
Oh Face entre o Carvão
Tu tens remanescido muitas noites?
As fumegantes brasas sorriem -

Suavidade mistura as notícias da Claridade
Os estólidos esteios ardem
Um requisito possui Fogo que dura
Prometeu nunca soube -

Na primeira linha da segunda estrofe, ED usa a palavra “soft” como substantivo e o verbo “to stir” em seguida. Não é tão incomum usar “soft” como substantivo, mas o recurso poético aqui é o uso de “soft” como substantivo concreto, visto que não há complemento algum, nem mesmo o artigo. O uso comum seria: “The soft of the cheek”; “The soft of this pillow is superb”. Reparem que o substantivo é abstrato, necessita de um referente. Como recurso poético ED cria um substantivo concreto. Ainda, nesta primeira linha da segunda estrofe, podemos considerar a palavra “stir” como substantivo e “soft” como adjetivo. Ficaria assim: Suaves movimentos as notícias da Claridade. Parece-me que a frase não está muito bem construída. Nem mesmo ED gostou. Como veremos, ela vai propor outra construção.

Vejamos as formas alternativas que ED anotou. Na segunda linha, no lugar de Cheek ela coloca Heart grifando duas vezes a palavra. Oh Heart within the Coal. Oh Coração entre o Carvão. Reparem que a tradução de within é estar entre alguma coisa, estar dentro misturando-se, dentro e ao mesmo tempo junto, ou seja, with + in. Nem sempre o sentido de within é este, pode ser simplesmente dentro, mas diferente de inside. Logo, a tradução pode ser: no meio do Carvão ou entre o Carvão.

Na terceira linha, a palavra nights é trocada por years também grifada duas vezes. Esta terceira linha tem uma peculiaridade. Ela também foi escrita da seguinte forma:

So many nights hast thou survived?

Muitas noites tens tu remanecido?

(hast thou é simplesmente a forma antiga de tu tens)

Nesta forma a linha foi marcada para ser transposta, possivelmente para um fascículo. Não se assustem, junto com seu legado veio também um trabalho de arqueologia.

Na quinta linha, primeira da segunda estrofe, no lugar de “stirs the News” ela colocou “stir the Flakes”. Esta mudança muda realmente a frase e o poema. Agora, o verbo stir está conjugado de maneira correta, mas soft é usado como advérbio:

Soft (Softly) stir the Flakes of Light

Fagulhas de Luz movimentam-se suave (suavemente, maciamente)

A expressão “Fagulhas de luz” não deveria ser usada, pois fagulha é fagulha, não existe fagulha de luz ou floco de luz. Pode ser que a palavra Flakes está sendo usada no sentido de camadas de luz se misturando, se superpondo de maneira suave, delicadamente. De qualquer forma ela necessita da palavra Light para rimar com nights do verso acima. Trocar the News por the Flakes foi uma boa troca e ainda corrigiu a conjugação do verbo, se é que estava errada!

À sexta linha, segunda da segunda estrofe, foram acrescentadas palavras alternativas para o poema, No lugar de Rafters, ED coloca quatro alternativas: Hours, instants, centres ou seconds. (Horas, instantes, centros ou núcleos, ou segundos. Grifados duas vezes).

À linha sete também foram acrescentadas expressões alternativas. No lugar de Fire that lasts temos três alternativas: earthly [Fire], mortal [Fire] e thorough Fire. (Fogo terrestre, da terra, do mundo; Fogo mortal, implacável, inexorável; Fogo completo, inteiro, perfeito.) Os colchetes estão lá, colocados por ED! Vai entender!

Na última linha never knew foi trocado por did not know. (Nunca soube por não sabia ou não soube.) A força dada pela palavra never se perdeu.

As duas últimas linhas foram mudadas e as mudanças aparecem em várias publicações. Vejamos:

This requisite has Fire that lasts
It must at first be true -

Este requisito tem Fogo que dura
Deve a princípio ser verdade -

Retirou-se a alusão ao mito Prometeu. Empobreceu o poema.

Bem, encontramos publicações com todo tipo de modificação mostrada acima. Acho que ED também se perdeu no meio das palavras e não soube definir um poema, ficou apenas no rascunho, no esboço. Acontece! Mas, ela deveria tomar cuidado e separar o que é rascunho do que não é rascunho e isso ela definitivamente não sabia fazer. Várias divisões de linhas também aparecem, não vale a pena mostrar todas, já há variações em demasia. Há até publicação incompleta que omite linhas e palavras.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1136 (J1151)


Emily Dickinson - Poema F1136 (J1151)

Poema escrito em 1867, a lápis em um recorte de papel de escritório. No lado de trás deste fragmento de papel havia desenhado, também a lápis, uma campa - uma laje sepulcral - sobre um gramado alto. Foi publicado em 1945.

Soul, take thy risk,
With Death to be
Were better than be not with thee

Ou, com uma quebra de linha:

Soul, take thy risk,
With Death to be
Were better than be not
with thee

Há duas variações de leitura:

Soul, take thy [risk]s,
With Death to be
Were better than be not with thee

Soul, take thy chance,
With Death to be
Were better than be not with thee

Não consigo explicar o motivo de manter a palavra “risk” entre colchetes e deixar o “s” do lado de fora. Usaremos a opção “chance” em vez de “risk”. As opções foram propostas pela própria autora.

Notamos um vocativo, um imperativo e um subjuntivo (condicional). Vejamos:

Alma, aproveita tua chance,
Estar Com a Morte
Fosse melhor do que não estar contigo

Interessante: a autora não flexiona o condicional - o modo condicional fica implícito. Uma maneira inusitada e elegante de ser ao mesmo tempo uma forma nominal e um modo condicional. Ainda, um bonito ritmo ocorre com “to be” e “be not”.

Obs. Não me venham dizer tempo do modo indicativo em vez de condicional, eu não aceito isso e é irritante!

Vejamos a outra opção sugerida pela autora:


Alma, corre teus riscos,
Estar Com a Morte
Fosse melhor do que não estar contigo

Outra maneira:

Alma, corre teus riscos,
Estar Com a Morte
Fosse melhor não estar contigo

Ou ainda:

Alma, corre teus riscos,
Estar Com a Morte
Não fosse melhor do que estar contigo

Ou

Alma, corre teus riscos,
Estar Com a Morte
Não fosse melhor estar contigo.

Para mim, o poema muda de sentido, aliás, perde o sentido. Acredito que a autora confundiu um pouco as semânticas, que na verdade, em alguns casos são bem próximas. Mas, neste caso a troca muda bastante o sentido, mesmo porque a expressão “corra teus riscos” é bem diferente de “aproveite tua chance”.


Poema muito indagativo este! 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1158 (J1158) (FH436)


Emily Dickinson - Poema F1158 (J1158) (FH436)

Há dois manuscritos deste poema. Um deles somente uma parte. Há também uma variação. Escrito em 1869 a lápis, uma cópia completa foi recuperada em um fragmento de papel de escritório que também continha o poema F1157. Publicado em 1932.

O segundo manuscrito, incompleto talvez, tinha sido enviado para Susan Dickinson havia vinte anos. Continha somente as duas primeiras linhas com uma variação na segunda. O primeiro manuscrito, completo, juntamente com o poema F1157 mencionado acima não estava endereçado nem assinado e de algum modo foi parar nas mãos de Susan, cunhada de ED.

Best Witchcraft is Geometry
To the magician’s mind -
His ordinary acts are feats
To thinking of mankind -

Melhor Encanto é Geometria
Para a mente do mágico -
Seus atos ordinários são façanhas
Para o pensamento da humanidade -

Em princípio a tradução da última linha pode ser melhorada, visto que as palavras utilizadas são exageradas. Poderíamos escrever: seus atos ordinários são façanhas, ou proezas, para as outras pessoas ou para a mente dos outros, para a mente das pessoas. Muito bem, como eu já disse, ED não brinca com as palavras. Mesmo em inglês, as palavras são exageradas, abrangentes por demais. Acredito eu, que ED quer a força abrangente e tem exatamente esta intenção. Uma abrangência total: humanidade e pensamento. Além disso, “mankind” conjuga com “mind” e une as duas primeiras linhas com as duas últimas como veremos.

A palavra encanto está no sentido de poderes mágicos de enfeitiçar, encantamento. No sentido de jogar um encanto, lançar um encanto. Exatamente no sentido que a palavra witchcraft está sendo usada.

As duas primeiras linhas, como dissemos, foram escritas vinte anos antes e enviadas à Susan. Logo, o poema só tinha duas linhas, as outras duas foram acrescentadas depois e como era de se esperar há uma rima unindo as duas partes formando um só poema. Ainda, a segunda linha original, do poema enviado à Susan foi modificada depois. A segunda linha do poema enviado à Susan é assim:

To a magician’s eye -

Para o olhar de um mágico -

Nas duas versões há quebra de linhas no manuscrito. Vejamos:

Best Witchcraft is
Geometry
To the magician’s mind -
His ordinary acts
are feats
To thinking of mankind -

Best Witchcraft
is Geometry
To a magician’s
eye -

Como Susan Dickinson era formada em matemática, comenta-se que ED alude à geometria devido à profissão de Susan. Para mim não é necessário comentário algum, pois é óbvio que a alusão feita tem como objetivo agradar ou ironizar a amiga.

Podemos pensar que o uso da palavra witchcraft não foi uma boa escolha, visto que, witch, esta palavra; significa bruxa, mulher velha e feia. Craft é um ofício, uma perícia uma arte. Logo, witchcraft significa a arte da bruxa, o ofício e a perícia da bruxa ou de uma bruxa, bruxaria. Vejam que a palavra não é adequada. A palavra spell poderia ter sido utilizada.

Por outro lado, tudo isso que acabei de falar pode ser apenas um desejo de conduzir a interpretação por um viés mais ameno apelando para eufemismos e semânticas dadas por extensão de sentido. O que fizemos na tradução também foi um eufemismo. Porém, quem sabe ED queria mesmo usar witchcraft sem qualquer eufemismo? Ela não está fazendo elogio algum à geometria, ao contrário, ela a está depreciando e ironizando assim como também está criticando a mente soberba dos mágicos e a ingenuidade do ser humano. Ela genialmente fez uma analogia muito sutil traçando condutas comuns entre geometria, geômetras, mágicos e magias. Eu fico com esta última análise.

sábado, 4 de janeiro de 2020

O Ovo e a Galinha


O Ovo e a Galinha

O temor do SENHOR é o princípio do saber,
mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino.

Provérbios1.7

De manhã na Via Ricasoli 60, em Florença, Itália, vejo uma escultura. Um homem nu feito de mármore. Não fale que é de mármore, ele perde sua identidade. Chama-se David, mas individualmente ele não existe. Ele não tem um si mesmo. Fico pensando: essa escultura é apenas uma pedra que estava dentro de outra pedra e fazia parte desta outra pedra, não havia duas, havia uma pedra só. Alguém arrancou este pedaço de dentro da outra. Logo, esta escultura já existia antes de ser feita, ela só estava escondida dentro da outra pedra. Ou será que não existia de fato? Será que só havia a outra que chamamos agora de restos e que nem vemos mais?

Este David é um personagem bíblico. Não, este não é o David, pois o David já morreu há muito tempo. Magritte há de concordar comigo. Por muito menos ele duvidou de um simples cachimbo! Ao meu lado estava um senhor chamado Baudrillar. Gentilmente perguntei a ele: senhor, esta estátua aqui na nossa frente é um simulacro ou uma simulação do David? Eu penso que não é um simulacro. Baudrillar retrucou: como não é? Claro que é. Repare bem, Baudrillar, repare: não está vendo que o pênis está com a capa de pele? Aliás, de pedra? Sim, estou vendo e daí? Disse ele. Então, este David, sofre de fimose. Um judeu jamais teria este problema, logo, não é um simulacro. Baudrillar se irritou e saiu de minha visão. Continuei olhando. Não gostei da posição da cintura, dos pulsos e nem das pernas. Uma posição pouco máscula, duvidosa! Suspeita! Não sei se ele carrega nas costas uma casca de cobra ou uma cobra seca. Ou será um cinturão de couro em forma de cobra e com cabeça de cobra? Não vejo motivo para colocar este detalhe. O que tem uma cobra a ver com o Rei David? Estão de brincadeira!

Ali estava eu, parado e meditando sobre a estátua e seu em si mesmo. Ao sentir que estava me apaixonando por ela lembrei-me que na antiga cidade de Bizâncio, capital do Império Romano do Oriente, Império Bizantino, havia uma rainha muito querida e bela. Chamava-se Clarice. Um lindo nome, perfeito para uma rainha. Clarice, ainda jovem começou a sofrer de um mal espiritual. Os grandes sábios bizantinos foram chamados para cuidar da rainha enferma, acometida de um mal obscuro: ela tinha se apaixonado por um ovo. Mas este ovo na verdade não existia, só na imaginação dela. Porém, para a rainha, existir em sua imaginação já é existir, já é ter um si mesmo, afinal ela era a rainha, e a imaginação de uma rainha existe só pelo fato dela ser rainha. Seu amor pelo ovo era tamanho que ninguém via o ovo, a rainha proibiu a visibilidade do ovo. Ele era infinito, um triângulo que se transformou em ovo, infinito, sem início e sem fim.

Certa vez houve um agravamento do mal espiritual e a rainha resolveu, sem nenhuma razão aparente, dedicar ao ovo o Império Otomano. Rapaz, nem te conto! Os sábios bizantinos ficaram furiosos, pois isso podia causar uma guerra entre impérios. Imaginem se os otomanos ficam sabendo deste ato da rainha! A coisa piorou quando a rainha falou que o ovo era originário da Macedônia. Meu Deus do céu! A briga começou de vez. Dizem que a situação beligerante do oriente médio vem desde esta época e a causa foi o ovo macedônico da rainha.

Dois sábios bizantinos cuidaram da rainha até sua morte e ainda hoje os homenageamos. São eles: José Miguel Wisnik e Benedito Nunes. O primeiro, por amor e dedicação à rainha provou que o mal obscuro era um tratado poético sobre o olhar e o segundo provou que o mal não passava de uma real meditação.

Saí da galeria de arte e fui tomar um café. Surpresa minha foi quando Baudrillar chegou à minha mesa e perguntou se podia se assentar. Falei: claro Baudrillar, será um prazer conversar com o senhor. Baudrillar se assentou, pediu um café e alguma coisa para comer. Conversa vai, conversa vem e com coragem perguntei: Baudrillar, o senhor não acredita nesta história de simulacro e simulação, acredita? Ele riu debochadamente e respondeu: meu caro, só acadêmico acredita nisto. Eles têm que acreditar, caso contrário vão viver de quê? Nem todos, ou quase nenhum, podem se casar com embaixadores ou embaixatrizes. Aproveitei uma piada que Magritte fez com o desenho de um cachimbo e elaborei uma teoria, disse ele. Já de saída, Baudrillar enfatizou: o melhor de tudo mesmo é a piada do cachimbo, muito boa! Despediu-se e foi embora.

Fiquei ainda um instante pensando na rainha Clarice. Pode ser loucura minha, mas sendo a rainha judia, não deveria ter participado do Congresso das Bruxas. O mal espiritual começou ainda quando ela estava nesse evento. Escreveu alguma coisa sobre ovo para apresentar no congresso e depois disso não conseguiu mais se separar do ovo e também de um cão chamado Ulisses. Ela, coitada, chegava a conversar com o cachorro e dizia que sabia até falar a língua dele. Este mal espiritual começou a se manifestar desde então. Ato inconsequente e sem temor algum a Deus. Pensei ainda em sua morte: triste a morte de uma pessoa tão jovem e já com alto grau de demência. O mal obscuro!

Paguei a conta, inclusive a parte de Baudrillar, e fui para o hotel.