Emily
Dickinson - Poema F1158 (J1158) (FH436)
Há dois manuscritos deste poema. Um deles somente uma parte.
Há também uma variação. Escrito em 1869 a lápis, uma cópia completa foi
recuperada em um fragmento de papel de escritório que também continha o poema
F1157. Publicado em 1932.
O segundo manuscrito, incompleto talvez, tinha sido enviado
para Susan Dickinson havia vinte anos. Continha somente as duas primeiras
linhas com uma variação na segunda. O primeiro manuscrito, completo, juntamente
com o poema F1157 mencionado acima não estava endereçado nem assinado e de
algum modo foi parar nas mãos de Susan, cunhada de ED.
Best Witchcraft is Geometry
To the magician’s mind -
His ordinary acts are feats
To thinking of mankind -
Melhor Encanto é Geometria
Para a mente do mágico -
Seus atos ordinários são façanhas
Para o pensamento da humanidade -
Em princípio a tradução da última linha pode ser melhorada,
visto que as palavras utilizadas são exageradas. Poderíamos escrever: seus atos
ordinários são façanhas, ou proezas, para as outras pessoas ou para a mente dos
outros, para a mente das pessoas. Muito bem, como eu já disse, ED não brinca
com as palavras. Mesmo em inglês, as palavras são exageradas, abrangentes por
demais. Acredito eu, que ED quer a força abrangente e tem exatamente esta
intenção. Uma abrangência total: humanidade e pensamento. Além disso, “mankind” conjuga com “mind” e une as duas primeiras linhas com
as duas últimas como veremos.
A palavra encanto está no sentido de poderes mágicos de
enfeitiçar, encantamento. No sentido de jogar um encanto, lançar um encanto.
Exatamente no sentido que a palavra witchcraft está sendo usada.
As duas primeiras linhas, como dissemos, foram escritas
vinte anos antes e enviadas à Susan. Logo, o poema só tinha duas linhas, as outras
duas foram acrescentadas depois e como era de se esperar há uma rima unindo as
duas partes formando um só poema. Ainda, a segunda linha original, do poema
enviado à Susan foi modificada depois. A segunda linha do poema enviado à Susan
é assim:
To a magician’s eye
-
Para o olhar de um mágico -
Nas duas versões há quebra de linhas no manuscrito. Vejamos:
Best Witchcraft is
Geometry
To the magician’s mind -
His ordinary acts
are feats
To thinking of mankind -
Best Witchcraft
is Geometry
To a magician’s
eye -
Como Susan Dickinson era formada em matemática, comenta-se
que ED alude à geometria devido à profissão de Susan. Para mim não é necessário
comentário algum, pois é óbvio que a alusão feita tem como objetivo agradar ou
ironizar a amiga.
Podemos pensar que o uso da palavra witchcraft não foi uma boa escolha, visto que, witch, esta palavra; significa bruxa, mulher velha e feia. Craft é um ofício, uma perícia uma arte.
Logo, witchcraft significa a arte da
bruxa, o ofício e a perícia da bruxa ou de uma bruxa, bruxaria. Vejam que a
palavra não é adequada. A palavra spell
poderia ter sido utilizada.
Por outro lado, tudo isso que acabei de falar pode ser
apenas um desejo de conduzir a interpretação por um viés mais ameno apelando para
eufemismos e semânticas dadas por extensão de sentido. O que fizemos na
tradução também foi um eufemismo. Porém, quem sabe ED queria mesmo usar witchcraft sem qualquer eufemismo? Ela
não está fazendo elogio algum à geometria, ao contrário, ela a está depreciando
e ironizando assim como também está criticando a mente soberba dos mágicos e a
ingenuidade do ser humano. Ela genialmente fez uma analogia muito sutil
traçando condutas comuns entre geometria, geômetras, mágicos e magias. Eu fico
com esta última análise.
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