quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1158 (J1158) (FH436)


Emily Dickinson - Poema F1158 (J1158) (FH436)

Há dois manuscritos deste poema. Um deles somente uma parte. Há também uma variação. Escrito em 1869 a lápis, uma cópia completa foi recuperada em um fragmento de papel de escritório que também continha o poema F1157. Publicado em 1932.

O segundo manuscrito, incompleto talvez, tinha sido enviado para Susan Dickinson havia vinte anos. Continha somente as duas primeiras linhas com uma variação na segunda. O primeiro manuscrito, completo, juntamente com o poema F1157 mencionado acima não estava endereçado nem assinado e de algum modo foi parar nas mãos de Susan, cunhada de ED.

Best Witchcraft is Geometry
To the magician’s mind -
His ordinary acts are feats
To thinking of mankind -

Melhor Encanto é Geometria
Para a mente do mágico -
Seus atos ordinários são façanhas
Para o pensamento da humanidade -

Em princípio a tradução da última linha pode ser melhorada, visto que as palavras utilizadas são exageradas. Poderíamos escrever: seus atos ordinários são façanhas, ou proezas, para as outras pessoas ou para a mente dos outros, para a mente das pessoas. Muito bem, como eu já disse, ED não brinca com as palavras. Mesmo em inglês, as palavras são exageradas, abrangentes por demais. Acredito eu, que ED quer a força abrangente e tem exatamente esta intenção. Uma abrangência total: humanidade e pensamento. Além disso, “mankind” conjuga com “mind” e une as duas primeiras linhas com as duas últimas como veremos.

A palavra encanto está no sentido de poderes mágicos de enfeitiçar, encantamento. No sentido de jogar um encanto, lançar um encanto. Exatamente no sentido que a palavra witchcraft está sendo usada.

As duas primeiras linhas, como dissemos, foram escritas vinte anos antes e enviadas à Susan. Logo, o poema só tinha duas linhas, as outras duas foram acrescentadas depois e como era de se esperar há uma rima unindo as duas partes formando um só poema. Ainda, a segunda linha original, do poema enviado à Susan foi modificada depois. A segunda linha do poema enviado à Susan é assim:

To a magician’s eye -

Para o olhar de um mágico -

Nas duas versões há quebra de linhas no manuscrito. Vejamos:

Best Witchcraft is
Geometry
To the magician’s mind -
His ordinary acts
are feats
To thinking of mankind -

Best Witchcraft
is Geometry
To a magician’s
eye -

Como Susan Dickinson era formada em matemática, comenta-se que ED alude à geometria devido à profissão de Susan. Para mim não é necessário comentário algum, pois é óbvio que a alusão feita tem como objetivo agradar ou ironizar a amiga.

Podemos pensar que o uso da palavra witchcraft não foi uma boa escolha, visto que, witch, esta palavra; significa bruxa, mulher velha e feia. Craft é um ofício, uma perícia uma arte. Logo, witchcraft significa a arte da bruxa, o ofício e a perícia da bruxa ou de uma bruxa, bruxaria. Vejam que a palavra não é adequada. A palavra spell poderia ter sido utilizada.

Por outro lado, tudo isso que acabei de falar pode ser apenas um desejo de conduzir a interpretação por um viés mais ameno apelando para eufemismos e semânticas dadas por extensão de sentido. O que fizemos na tradução também foi um eufemismo. Porém, quem sabe ED queria mesmo usar witchcraft sem qualquer eufemismo? Ela não está fazendo elogio algum à geometria, ao contrário, ela a está depreciando e ironizando assim como também está criticando a mente soberba dos mágicos e a ingenuidade do ser humano. Ela genialmente fez uma analogia muito sutil traçando condutas comuns entre geometria, geômetras, mágicos e magias. Eu fico com esta última análise.

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