quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O Jardim de Laila


O Jardim de Laila

Meu filho, se der ouvidos à sabedoria e inclinar o coração para o discernimento;
então você entenderá o que é temer o SENHOR e achará o conhecimento de Deus.
Pois o SENHOR é quem dá sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o discernimento.
Então você entenderá o que é justiça, juízo e equidade.

Provérbios2.1-10

Em uma movimentada rua do bairro Luxemburgo há um lote muito íngreme, na verdade é uma sólida montanha cercada por quatro muros. Uma escada lateral, quase vertical, beirando o muro de arrimo conduz até o topo do monte. Aí, bem no topo há uma grande área plana cimentada; uma espaçosa casa tipo rústica bem simples e um belo jardim que contorna toda a casa. O jardim é de fato uma floricultura e sua proprietária chama-se Laila Cardoso. Ela mora na casa e a floricultura possui dois funcionários, jardineiros, para os serviços de jardinagem e paisagismo supervisionados por Laila. A floricultura tem por nome Atelier Luxemburgo. A especialidade do atelier é o cultivo de suculentas, porém faz qualquer serviço de jardinagem, desde vendas de mudas a manutenções periódicas de jardins paisagísticos e caseiros. Funciona também como flora.

Laila é formada em biologia e especialista em botânica. Tem também cursos de jardinagem e paisagismo. Grande conhecedora da classificação das plantas, ela diz que esta arte se chama fitotaxonomia.

O jardim de Laila era um ponto de encontro de artistas e intelectuais que às noites e fins de semana se reuniam, ouviam músicas, cantavam - comida de boteco, vegetariana e outras extravagâncias. Ali normalmente se lamentavam e conversavam sobre política, crenças, costumes, moral, sociedade, políticas públicas, etc.. As reuniões eram o grande amparo para a geração Danoninho, (alguns falam Todinho), afetada, sensível e melindrada. Tinham isso como virtudes e direitos. A indústria do medo os acolhia, falam também em cultura do medo, nomenclaturas da moda! O planeta está em risco, o clima está se desestabilizando, aquecimento global, incêndios, aumento da violência a cada dia, não se tem mais segurança, estupros e mais estupros, violência doméstica, feminicídio, desigualdade ou igualdade de gênero, identidade de gênero, e por aí vai, a lista de preocupações é interminável.

Enquanto se lamentavam e expurgavam suas melancolias, as suculentas de Laila brilhavam de tão verdes e coloridas, sol, chuva e alimento, tudo na medida certa. Bem nutridas, saudáveis, férteis e acima de tudo maravilhosas. A calota polar ainda não se derreteu.

Pode parecer estranho, mas o convívio social de Laila começou na faculdade e o cultivo de flores agrada aos artistas. Consideram o cuidado e a admiração das plantinhas um ato de conduta política. Algo parecido com o que faziam os hippies: distribuíam flores. Flower Power - que rima perfeita - Podemos dizer que também são semelhantes aos minions, seres milenares, amarelos cuja missão é servir aos poderosos vilões. Agora eles estão em depressão devido à morte de seu antigo mestre - tentam encontrar um novo chefe. Sandra Bullock e Scarlet Overkill estão na convenção dos vilões, quem sabe?

Fatos curiosos, digamos inusitados - acontecem no jardim de Laila. Semana passada passou por aqui uma cantora com um apelido estranho, lembro-me: Tiê. Não sabia a princípio que era um nome de mulher. Ela foi ao Jardim; angustiada começou a desabafar suas mágoas com o grupo. Dizia: Faço canções para fugir da melancolia permanente; tenho novas canções na gaveta, entro em 2020 querendo superar as angústias do ano passado. Continuou ela: passei para o papel minhas preocupações com o momento político e social do Brasil. Todos começaram a ficar perplexos. Silenciaram-se para ouvi-la. Nunca vi tanta compaixão e cumplicidade! Laila indagou: o que aconteceu Tiê? Passou bem o ano? Ela responde: são tempos duros, tive até dificuldade de celebrar. Mas, sigo fazendo música e pensando em possibilidade. Não podemos desistir. Laila não entendeu a resposta e pensou: será que La Résistance voltou a atuar contra o eixo? Será que Tiê virou uma partisan?

Tiê não parava de falar. Sair da bolha também é sinônimo de não deixar que a internet e as redes sociais nos tornem pessoas cínicas e falsas. Tentar achar um equilíbrio na meditação, voltar a fazer trabalhos voluntários, resistir, resistir artisticamente e plantar a semente de um novo mundo nas minhas filhas são as armas que tenho para mudar o que considero danoso, concluiu ela com veemência. Neste momento de pausa, Laila olhou para os convidados e fez um sinal com o ombro querendo insinuar que não via sentido naquele desabafo. Houve descontentamento com o desentendimento. Laila se dirigiu à cozinha murmurando: eu hem! Não se pode nem mesmo não entender, credo!

A dona da casa muito respeitava a cantora, pois em 2009 Tiê gravou uma canção em homenagem ao jardim de Laila. A canção se chama Sweet Jardim.

Entre o pessoal daquela noite no jardim estava também a grande deputada estadual Andreia de Jesus. Assim como os minions, não podia perder a oportunidade e começou a falar: em 2019 cumpri nosso primeiro ano de mandato, inaugurado com o feito histórico na política institucional mineira - pela primeira vez, uma mulher negra do PSOL ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Laila, ouvindo lá da cozinha ironizou: quanta eloquência! E Andreia não se calava. Comentou sobre a estrutura do mandato coletivo - ela e mais três eleitas. Como são quatro eleitas em um mandato coletivo resolveram mudar o nome: em vez de mandato coletivo agora é mandata coletiva, para concordar com o gênero. Nada mais revolucionário, importante e inovador! As quatro trabalham em pautas marginalizadas. Falei isso antes: os minions têm como missão servir vilões. Eis os vilões que estão no mapa de lutas, ouçam os brados de Andreia: combate ao racismo e à LGBT-fobia, feminismo, moradia popular, desencarceramento e respeito às comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas, ciganos, congadeiros e raizeiros. Andreia termina: o ano acaba; a luta não. Laila, ocupada com a comida que estava a cozer para os convidados ouvia e se perguntava: que luta será esta, meu Deus do céu? Olhava para o jardim e o apreciava. Os pequenos holofotes ornavam as plantas com feixes quase paralelos de luz. Das camadas superiores pendiam cachos e mais cachos de flores e folhas coloridas pela luz. A rainha da Babilônia ficaria com uma pitada de inveja das cascatas florais! A bióloga exclamava: estas meninas estão maluquinhas, maluquinhas! Palavras esquisitas elas usam, piores do que as usadas em taxonomia!

Um grupo exaltado se levantou e com copos nas mãos gritaram: vozes por Marielle Franco! Entre o grupo estava uma mulher agitada cujo nome era Marina Íris. Outro, já idoso, atendia por Antônio Nóbrega. Marina, em altos brados e rouca pronunciava: eu garanto que o samba é político e defendo o ritmo como uma forma de resistir. Houve aplauso geral. Os dois jardineiros, funcionários de Laila, olhavam um para o outro e diziam: será que vem guerra por aí? Não pode ser - o jardim está lindo, olha a cor dessas Helicônias! O outro completou: veja então o vermelho dos cachos das Alpínias sob o efeito da luz! Que maravilha! Neste momento Antônio Nóbrega levantou a voz e berrou: Não podemos ficar condenados a sermos um país que dizima o seu próprio povo. Os dois jardineiros se levantaram e foram ter com Laila na cozinha. Laila, falou um deles, toda semana é isso, falam esbravejam, gritam e até ficam roucos de tanta fala perdida e jogada ao jardim. Laila, o jardim está se ressentindo, eu acho, disse o jardineiro. Laila responde: não seja tolinho rapaz. Nosso jardim tudo suporta. Laila, insistiu o jardineiro, quem é essa Danielle ou Marielle? Ela responde: e eu sei lá, este pessoal fala qualquer nome que lhe vem à cabeça. Eu hem! Exclamou assustado o jardineiro. O pessoal começou a cantar, se divertiam! Laila falou: faz escuro, mas eu canto. Parou a música e alguém perguntou: você sabe quem falou esta frase poética, Laila? Ela responde em tom debochado: eu? Sei não, mas já ouvi. Não sei se precisa fazer escuro para cantar, será que de dia não se pode cantar? Perguntou Laila.

Laila grita da cozinha: gente, a comida está pronta. Venham se servir. Ligaram um telão improvisado e - assistindo a um filme de gente fantasiada de gatinhos - todos jantaram entre as flores de Laila.

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