O
Jardim de Laila
Meu
filho, se der ouvidos à sabedoria e inclinar o coração para o discernimento;
então
você entenderá o que é temer o SENHOR e achará o conhecimento de Deus.
Pois
o SENHOR é quem dá sabedoria; de sua boca procedem o conhecimento e o
discernimento.
Então
você entenderá o que é justiça, juízo e equidade.
Provérbios2.1-10
Em
uma movimentada rua do bairro Luxemburgo há um lote muito íngreme, na verdade é
uma sólida montanha cercada por quatro muros. Uma escada lateral, quase
vertical, beirando o muro de arrimo conduz até o topo do monte. Aí, bem no topo
há uma grande área plana cimentada; uma espaçosa casa tipo rústica bem simples
e um belo jardim que contorna toda a casa. O jardim é de fato uma floricultura
e sua proprietária chama-se Laila Cardoso. Ela mora na casa e a floricultura
possui dois funcionários, jardineiros, para os serviços de jardinagem e
paisagismo supervisionados por Laila. A floricultura tem por nome Atelier
Luxemburgo. A especialidade do atelier é o cultivo de suculentas, porém faz
qualquer serviço de jardinagem, desde vendas de mudas a manutenções periódicas
de jardins paisagísticos e caseiros. Funciona também como flora.
Laila
é formada em biologia e especialista em botânica. Tem também cursos de
jardinagem e paisagismo. Grande conhecedora da classificação das plantas, ela
diz que esta arte se chama fitotaxonomia.
O
jardim de Laila era um ponto de encontro de artistas e intelectuais que às
noites e fins de semana se reuniam, ouviam músicas, cantavam - comida de boteco, vegetariana e outras extravagâncias. Ali normalmente se lamentavam e
conversavam sobre política, crenças, costumes, moral, sociedade, políticas
públicas, etc.. As reuniões eram o grande amparo para a geração Danoninho,
(alguns falam Todinho), afetada, sensível e melindrada. Tinham isso como
virtudes e direitos. A indústria do medo os acolhia, falam também em cultura do
medo, nomenclaturas da moda! O planeta está em risco, o clima está se desestabilizando,
aquecimento global, incêndios, aumento da violência a cada dia, não se tem mais
segurança, estupros e mais estupros, violência doméstica, feminicídio,
desigualdade ou igualdade de gênero, identidade de gênero, e por aí vai, a
lista de preocupações é interminável.
Enquanto
se lamentavam e expurgavam suas melancolias, as suculentas de Laila brilhavam
de tão verdes e coloridas, sol, chuva e alimento, tudo na medida certa. Bem
nutridas, saudáveis, férteis e acima de tudo maravilhosas. A calota polar ainda
não se derreteu.
Pode
parecer estranho, mas o convívio social de Laila começou na faculdade e o
cultivo de flores agrada aos artistas. Consideram o cuidado e a admiração das
plantinhas um ato de conduta política. Algo parecido com o que faziam os
hippies: distribuíam flores. Flower Power - que rima perfeita - Podemos dizer
que também são semelhantes aos minions, seres milenares, amarelos cuja missão é
servir aos poderosos vilões. Agora eles estão em depressão devido à morte de
seu antigo mestre - tentam encontrar um novo chefe. Sandra Bullock e Scarlet
Overkill estão na convenção dos vilões, quem sabe?
Fatos
curiosos, digamos inusitados - acontecem no jardim de Laila. Semana passada
passou por aqui uma cantora com um apelido estranho, lembro-me: Tiê. Não sabia
a princípio que era um nome de mulher. Ela foi ao Jardim; angustiada começou a
desabafar suas mágoas com o grupo. Dizia: Faço canções para fugir da melancolia
permanente; tenho novas canções na gaveta, entro em 2020 querendo superar as
angústias do ano passado. Continuou ela: passei para o papel minhas
preocupações com o momento político e social do Brasil. Todos começaram a ficar
perplexos. Silenciaram-se para ouvi-la. Nunca vi tanta compaixão e
cumplicidade! Laila indagou: o que aconteceu Tiê? Passou bem o ano? Ela
responde: são tempos duros, tive até dificuldade de celebrar. Mas, sigo fazendo
música e pensando em possibilidade. Não podemos desistir. Laila não entendeu a
resposta e pensou: será que La Résistance voltou a atuar contra o eixo? Será
que Tiê virou uma partisan?
Tiê
não parava de falar. Sair da bolha também é sinônimo de não deixar que a
internet e as redes sociais nos tornem pessoas cínicas e falsas. Tentar achar
um equilíbrio na meditação, voltar a fazer trabalhos voluntários, resistir,
resistir artisticamente e plantar a semente de um novo mundo nas minhas filhas
são as armas que tenho para mudar o que considero danoso, concluiu ela com
veemência. Neste momento de pausa, Laila olhou para os convidados e fez um
sinal com o ombro querendo insinuar que não via sentido naquele desabafo. Houve
descontentamento com o desentendimento. Laila se dirigiu à cozinha murmurando:
eu hem! Não se pode nem mesmo não entender, credo!
A
dona da casa muito respeitava a cantora, pois em 2009 Tiê gravou uma canção em
homenagem ao jardim de Laila. A canção se chama Sweet Jardim.
Entre
o pessoal daquela noite no jardim estava também a grande deputada estadual
Andreia de Jesus. Assim como os minions, não podia perder a oportunidade e
começou a falar: em 2019 cumpri nosso primeiro ano de mandato, inaugurado com o
feito histórico na política institucional mineira - pela primeira vez, uma
mulher negra do PSOL ocupou uma cadeira na Assembleia Legislativa de Minas
Gerais. Laila, ouvindo lá da cozinha ironizou: quanta eloquência! E Andreia não se calava. Comentou sobre a estrutura do mandato coletivo - ela e mais três
eleitas. Como são quatro eleitas em um mandato coletivo resolveram mudar o
nome: em vez de mandato coletivo agora é mandata coletiva, para concordar com o
gênero. Nada mais revolucionário, importante e inovador! As quatro trabalham em
pautas marginalizadas. Falei isso antes: os minions têm como missão servir
vilões. Eis os vilões que estão no mapa de lutas, ouçam os brados de Andreia:
combate ao racismo e à LGBT-fobia, feminismo, moradia popular,
desencarceramento e respeito às comunidades tradicionais, como indígenas,
quilombolas, ciganos, congadeiros e raizeiros. Andreia termina: o ano acaba; a
luta não. Laila, ocupada com a comida que estava a cozer para os convidados
ouvia e se perguntava: que luta será esta, meu Deus do céu? Olhava para o
jardim e o apreciava. Os pequenos holofotes ornavam as plantas com feixes quase
paralelos de luz. Das camadas superiores pendiam cachos e mais cachos de flores
e folhas coloridas pela luz. A rainha da Babilônia ficaria com uma pitada de
inveja das cascatas florais! A bióloga exclamava: estas meninas estão
maluquinhas, maluquinhas! Palavras esquisitas elas usam, piores do que as
usadas em taxonomia!
Um
grupo exaltado se levantou e com copos nas mãos gritaram: vozes por Marielle Franco!
Entre o grupo estava uma mulher agitada cujo nome era Marina Íris. Outro, já
idoso, atendia por Antônio Nóbrega. Marina, em altos brados e rouca
pronunciava: eu garanto que o samba é político e defendo o ritmo como uma forma
de resistir. Houve aplauso geral. Os dois jardineiros, funcionários de Laila,
olhavam um para o outro e diziam: será que vem guerra por aí? Não pode ser - o
jardim está lindo, olha a cor dessas Helicônias! O outro completou: veja então
o vermelho dos cachos das Alpínias sob o efeito da luz! Que maravilha! Neste
momento Antônio Nóbrega levantou a voz e berrou: Não podemos ficar condenados a
sermos um país que dizima o seu próprio povo. Os dois jardineiros se levantaram
e foram ter com Laila na cozinha. Laila, falou um deles, toda semana é isso, falam
esbravejam, gritam e até ficam roucos de tanta fala perdida e jogada ao jardim.
Laila, o jardim está se ressentindo, eu acho, disse o jardineiro. Laila
responde: não seja tolinho rapaz. Nosso jardim tudo suporta. Laila, insistiu o
jardineiro, quem é essa Danielle ou Marielle? Ela responde: e eu sei lá, este
pessoal fala qualquer nome que lhe vem à cabeça. Eu hem! Exclamou assustado o
jardineiro. O pessoal começou a cantar, se divertiam! Laila falou: faz escuro,
mas eu canto. Parou a música e alguém perguntou: você sabe quem falou esta
frase poética, Laila? Ela responde em tom debochado: eu? Sei não, mas já ouvi.
Não sei se precisa fazer escuro para cantar, será que de dia não se pode
cantar? Perguntou Laila.
Laila
grita da cozinha: gente, a comida está pronta. Venham se servir. Ligaram um
telão improvisado e - assistindo a um filme de gente fantasiada de gatinhos - todos
jantaram entre as flores de Laila.
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