sábado, 4 de janeiro de 2020

O Ovo e a Galinha


O Ovo e a Galinha

O temor do SENHOR é o princípio do saber,
mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino.

Provérbios1.7

De manhã na Via Ricasoli 60, em Florença, Itália, vejo uma escultura. Um homem nu feito de mármore. Não fale que é de mármore, ele perde sua identidade. Chama-se David, mas individualmente ele não existe. Ele não tem um si mesmo. Fico pensando: essa escultura é apenas uma pedra que estava dentro de outra pedra e fazia parte desta outra pedra, não havia duas, havia uma pedra só. Alguém arrancou este pedaço de dentro da outra. Logo, esta escultura já existia antes de ser feita, ela só estava escondida dentro da outra pedra. Ou será que não existia de fato? Será que só havia a outra que chamamos agora de restos e que nem vemos mais?

Este David é um personagem bíblico. Não, este não é o David, pois o David já morreu há muito tempo. Magritte há de concordar comigo. Por muito menos ele duvidou de um simples cachimbo! Ao meu lado estava um senhor chamado Baudrillar. Gentilmente perguntei a ele: senhor, esta estátua aqui na nossa frente é um simulacro ou uma simulação do David? Eu penso que não é um simulacro. Baudrillar retrucou: como não é? Claro que é. Repare bem, Baudrillar, repare: não está vendo que o pênis está com a capa de pele? Aliás, de pedra? Sim, estou vendo e daí? Disse ele. Então, este David, sofre de fimose. Um judeu jamais teria este problema, logo, não é um simulacro. Baudrillar se irritou e saiu de minha visão. Continuei olhando. Não gostei da posição da cintura, dos pulsos e nem das pernas. Uma posição pouco máscula, duvidosa! Suspeita! Não sei se ele carrega nas costas uma casca de cobra ou uma cobra seca. Ou será um cinturão de couro em forma de cobra e com cabeça de cobra? Não vejo motivo para colocar este detalhe. O que tem uma cobra a ver com o Rei David? Estão de brincadeira!

Ali estava eu, parado e meditando sobre a estátua e seu em si mesmo. Ao sentir que estava me apaixonando por ela lembrei-me que na antiga cidade de Bizâncio, capital do Império Romano do Oriente, Império Bizantino, havia uma rainha muito querida e bela. Chamava-se Clarice. Um lindo nome, perfeito para uma rainha. Clarice, ainda jovem começou a sofrer de um mal espiritual. Os grandes sábios bizantinos foram chamados para cuidar da rainha enferma, acometida de um mal obscuro: ela tinha se apaixonado por um ovo. Mas este ovo na verdade não existia, só na imaginação dela. Porém, para a rainha, existir em sua imaginação já é existir, já é ter um si mesmo, afinal ela era a rainha, e a imaginação de uma rainha existe só pelo fato dela ser rainha. Seu amor pelo ovo era tamanho que ninguém via o ovo, a rainha proibiu a visibilidade do ovo. Ele era infinito, um triângulo que se transformou em ovo, infinito, sem início e sem fim.

Certa vez houve um agravamento do mal espiritual e a rainha resolveu, sem nenhuma razão aparente, dedicar ao ovo o Império Otomano. Rapaz, nem te conto! Os sábios bizantinos ficaram furiosos, pois isso podia causar uma guerra entre impérios. Imaginem se os otomanos ficam sabendo deste ato da rainha! A coisa piorou quando a rainha falou que o ovo era originário da Macedônia. Meu Deus do céu! A briga começou de vez. Dizem que a situação beligerante do oriente médio vem desde esta época e a causa foi o ovo macedônico da rainha.

Dois sábios bizantinos cuidaram da rainha até sua morte e ainda hoje os homenageamos. São eles: José Miguel Wisnik e Benedito Nunes. O primeiro, por amor e dedicação à rainha provou que o mal obscuro era um tratado poético sobre o olhar e o segundo provou que o mal não passava de uma real meditação.

Saí da galeria de arte e fui tomar um café. Surpresa minha foi quando Baudrillar chegou à minha mesa e perguntou se podia se assentar. Falei: claro Baudrillar, será um prazer conversar com o senhor. Baudrillar se assentou, pediu um café e alguma coisa para comer. Conversa vai, conversa vem e com coragem perguntei: Baudrillar, o senhor não acredita nesta história de simulacro e simulação, acredita? Ele riu debochadamente e respondeu: meu caro, só acadêmico acredita nisto. Eles têm que acreditar, caso contrário vão viver de quê? Nem todos, ou quase nenhum, podem se casar com embaixadores ou embaixatrizes. Aproveitei uma piada que Magritte fez com o desenho de um cachimbo e elaborei uma teoria, disse ele. Já de saída, Baudrillar enfatizou: o melhor de tudo mesmo é a piada do cachimbo, muito boa! Despediu-se e foi embora.

Fiquei ainda um instante pensando na rainha Clarice. Pode ser loucura minha, mas sendo a rainha judia, não deveria ter participado do Congresso das Bruxas. O mal espiritual começou ainda quando ela estava nesse evento. Escreveu alguma coisa sobre ovo para apresentar no congresso e depois disso não conseguiu mais se separar do ovo e também de um cão chamado Ulisses. Ela, coitada, chegava a conversar com o cachorro e dizia que sabia até falar a língua dele. Este mal espiritual começou a se manifestar desde então. Ato inconsequente e sem temor algum a Deus. Pensei ainda em sua morte: triste a morte de uma pessoa tão jovem e já com alto grau de demência. O mal obscuro!

Paguei a conta, inclusive a parte de Baudrillar, e fui para o hotel.

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