O
Estranho Caso do Dr Jekyll
Rogo-vos
que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados,
com
toda a humildade e mansidão, com longanimidade,
suportando-vos
uns aos outros em amor.
Efésios4.1,2
A
ala de atendimento do hospital estava bem movimentada. Um grande corredor
espaçoso com consultórios e salas que funcionavam como clínicas para pequenas
intervenções cirúrgicas. Os pacientes eram chamados pelo nome e assim eram
atendidos um por um, em uma interminável rotina diária. O Doutor Jekyll
prestava atendimento neste setor do hospital. Era especialista em pequenas
cirurgias, principalmente vasectomia.
Uma
médica abriu a porta, o paciente saiu e ela chamou o próximo: senhor Gustavo
Almeida. Ele prontamente se levantou e foi ao encontro da doutora que deixara a
porta aberta e já sentada à sua mesa o aguardava. Outro médico, da mesma forma,
abriu o consultório e chamou o paciente: senhor Adilson Pereira. Mais outro
médico e mais outro. Os pacientes iam sendo atendidos. O doutor Jekyll terminou
uma cirurgia e chamou o próximo da fila. Senhor Gonçalves dos Anjos. Este,
sentado e distraído ouviu e perguntou: eu doutor? O senhor se chama Gonçalves?
Perguntou Jekyll. Sim, doutor. Então venha, entre e deite de bruços ali naquela
mesa. Deitar como doutor? Deite de barriga para baixo.
Uma
enfermeira entrou e preparou o paciente para a cirurgia que iria suceder: uma
vasectomia. O doutor Jekyll fez o procedimento e em quinze minutos o paciente
já estava de pé. Prescreveu um remédio para dor e solicitou que voltasse no
prazo de cinco dias. Finalizou as instruções e liberou o paciente.
Neste
instante, o senhor Gonçalves, de pé junto à porta já pronto para sair da sala,
parou, olhou para Jekyll e perguntou: doutor, o senhor não vai examinar o meu
olho? Jekyll não entendeu o propósito da pergunta e com semblante expressando
dúvida fez outra pergunta: Por que o olho, Gonçalves? E este calmamente
explicou: ora, doutor, eu vim aqui para fazer um exame de vista, meu olho está
lacrimejando muito e pela manhã acordo com ele grudado, depois melhora. Falaram
para marcar uma consulta, tal de conjuntivite que está pegando em muita gente.
O Doutor Jekyll, espantado, olhou para a ficha do paciente que estava sobre a
mesa, olhou novamente para Gonçalves e indagou: seu nome é Gonçalves dos Anjos?
Sim, doutor, Gonçalves Araújo. Jekyll ficou nervoso. Eu chamei Gonçalves dos
Anjos e não Gonçalves Araújo, o senhor não ouviu? Claro que ouvi doutor, o
senhor chamou o meu nome e eu atendi.
Fez-se
silêncio e Jekyll fechou a porta e começou a falar com Gonçalves. Muito bem,
senhor Gonçalves Araújo, muito bem. O senhor sabe a qual procedimento cirúrgico
o senhor foi submetido? Gonçalves balbuciou: submetido? Procedimento cirúrgico?
Sei não doutor. O médico continuou. O senhor é casado? Sim senhor. E tem
filhos? Sim, doutor; tenho cinco filhos, três homens e duas mulheres. Ah! Ainda
bem! Exclamou Jekyll um pouco aliviado. Chega aqui, vou examinar o seu olho.
Examinou e prescreveu um colírio. Agora vá, está tudo bem. Se sentir dor volte
aqui. Sim senhor, doutor, muito obrigado, fica com Deus. Em seguida, Jekyll
chamou o próximo paciente.