quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1146 (J1127)


Emily Dickinson - Poema F1146 (J1127)

Poema escrito em 1868, a lápis em um recorte ou fragmento de papel de escritório. Publicado em 1945.

Soft as the massacre of Suns
By Evening’s sabres slain

Ou

Soft as the massacre of
Suns
By Evening’s sabres
slain

Ou ainda,

Soft as the [massacre]s of Suns
By Evening’s sabre slain

Seguirei a primeira versão.

Suave como o massacre dos Dias
Pelos sabres da noite chacinados

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1145 (J1145)


Emily Dickinson - Poema F1145 (J1145)

Poema escrito em 1868, a lápis em um fragmento ou recorte de papel de escritório. Publicado em 1945.

In thy long Paradise of Light
No moment will there be
When I shall long for Earthly Play
And mortal Company -

No fragmento de papel, o manuscrito aparece com mais duas quebras de linha. As quebras de linha, aparentemente foram provocadas por falta de continuidade do papel. Imaginem, ela está escrevendo em um fragmento de papel, em um dado momento a linha acaba e ela simplesmente passa a escrever no espaço abaixo, não porque queria começar outro verso, mas porque não havia mais papel naquela linha. Como ela não passava a limpo, simplesmente guardava o recorte de papel escrito. Futuramente, quando ela passou a se vestir de branco e se enclausurou em seu quarto, ela tentou organizar seus poemas. Separou-os em fascículos, mas nem sempre colocava datas e nem indicava qual a ordem seguiam os agrupamentos, em geral eram aleatórios, alguns poemas ela revisou, outros não. Muita desordem!

In thy long Paradise
of Light
No moment will there be
When I shall long
for Earthly Play
And mortal Company -

Em teu longo Paraíso de Luz
Nenhum momento haverá
Quando eu almejar Diversões Terrenas
E Companhia mortal -

Neste caso, eu acredito que as quebras de linhas não foram por falta de espaço no recorte. Em português não faz realmente diferença. Vamos reparar o ritmo do poema em inglês:

In thy long Paradise  (grifei a palavra long)
of Light
No moment will there be
Whem I shall long  (grifei novamente)
for Earthly Play
And mortal Company

Notamos que o “long” da quarta linha ficou separado do “for” que passou para a quinta linha. Com esta separação a pronúncia do “long” da quarta linha conjuga com o “long” da primeira linha definindo um ritmo. A pergunta é essa: por que a quebra de linha mudou o ritmo do poema. Explico: a expressão “long for” significa um anseio forte, um desejo grande e soará como se fosse uma palavra só, ou seja, se colocarmos as duas no mesmo verso a sonoridade será como de uma palavra só. Se estiverem separadas, a sonoridade cairá sobre a palavra “long” conjugando assim com a primeira linha.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1143 (J1132)


Emily Dickinson - Poema F1143 (J1132)

Este é um poema rico em vocabulário, profundo e denso. Difícil compreensão e não muito aceito pelos editores. Foi modificado várias vezes e a própria autora apontou várias alternativas que ela mesma ficava em dúvida.

Escrito em 1868, a lápis, em uma folha de papel de escritório gravada em relevo com a letra T. Publicado em 1945.

The smouldering embers blush -
Oh Cheek within the Coal
Hast thou survived so many nights?
The smouldering embers smile -

Soft stirs the News of Light
The stolid Rafters glow
One requisite has Fire that lasts
Prometheus never knew -

Esta é a reprodução passada a limpo do poema que está escrito na folha de papel de escritório. Digo isso porque a autora fez várias correções ou variações no mesmo manuscrito. Rabiscando, cortando palavras, grifando palavras até com dois grifos, separando e juntando linhas e sublinhas e mais sublinhas. Falaremos também das modificações feitas pelos editores. Na verdade, o que temos no manuscrito é um rascunho de poema.

Vamos à primeira tentativa de tradução do rascunho transcrito acima.

As fumegantes brasas se enrubescem -
Oh Face entre o Carvão
Tu tens remanescido muitas noites?
As fumegantes brasas sorriem -

Suavidade mistura as notícias da Claridade
Os estólidos esteios ardem
Um requisito possui Fogo que dura
Prometeu nunca soube -

Na primeira linha da segunda estrofe, ED usa a palavra “soft” como substantivo e o verbo “to stir” em seguida. Não é tão incomum usar “soft” como substantivo, mas o recurso poético aqui é o uso de “soft” como substantivo concreto, visto que não há complemento algum, nem mesmo o artigo. O uso comum seria: “The soft of the cheek”; “The soft of this pillow is superb”. Reparem que o substantivo é abstrato, necessita de um referente. Como recurso poético ED cria um substantivo concreto. Ainda, nesta primeira linha da segunda estrofe, podemos considerar a palavra “stir” como substantivo e “soft” como adjetivo. Ficaria assim: Suaves movimentos as notícias da Claridade. Parece-me que a frase não está muito bem construída. Nem mesmo ED gostou. Como veremos, ela vai propor outra construção.

Vejamos as formas alternativas que ED anotou. Na segunda linha, no lugar de Cheek ela coloca Heart grifando duas vezes a palavra. Oh Heart within the Coal. Oh Coração entre o Carvão. Reparem que a tradução de within é estar entre alguma coisa, estar dentro misturando-se, dentro e ao mesmo tempo junto, ou seja, with + in. Nem sempre o sentido de within é este, pode ser simplesmente dentro, mas diferente de inside. Logo, a tradução pode ser: no meio do Carvão ou entre o Carvão.

Na terceira linha, a palavra nights é trocada por years também grifada duas vezes. Esta terceira linha tem uma peculiaridade. Ela também foi escrita da seguinte forma:

So many nights hast thou survived?

Muitas noites tens tu remanecido?

(hast thou é simplesmente a forma antiga de tu tens)

Nesta forma a linha foi marcada para ser transposta, possivelmente para um fascículo. Não se assustem, junto com seu legado veio também um trabalho de arqueologia.

Na quinta linha, primeira da segunda estrofe, no lugar de “stirs the News” ela colocou “stir the Flakes”. Esta mudança muda realmente a frase e o poema. Agora, o verbo stir está conjugado de maneira correta, mas soft é usado como advérbio:

Soft (Softly) stir the Flakes of Light

Fagulhas de Luz movimentam-se suave (suavemente, maciamente)

A expressão “Fagulhas de luz” não deveria ser usada, pois fagulha é fagulha, não existe fagulha de luz ou floco de luz. Pode ser que a palavra Flakes está sendo usada no sentido de camadas de luz se misturando, se superpondo de maneira suave, delicadamente. De qualquer forma ela necessita da palavra Light para rimar com nights do verso acima. Trocar the News por the Flakes foi uma boa troca e ainda corrigiu a conjugação do verbo, se é que estava errada!

À sexta linha, segunda da segunda estrofe, foram acrescentadas palavras alternativas para o poema, No lugar de Rafters, ED coloca quatro alternativas: Hours, instants, centres ou seconds. (Horas, instantes, centros ou núcleos, ou segundos. Grifados duas vezes).

À linha sete também foram acrescentadas expressões alternativas. No lugar de Fire that lasts temos três alternativas: earthly [Fire], mortal [Fire] e thorough Fire. (Fogo terrestre, da terra, do mundo; Fogo mortal, implacável, inexorável; Fogo completo, inteiro, perfeito.) Os colchetes estão lá, colocados por ED! Vai entender!

Na última linha never knew foi trocado por did not know. (Nunca soube por não sabia ou não soube.) A força dada pela palavra never se perdeu.

As duas últimas linhas foram mudadas e as mudanças aparecem em várias publicações. Vejamos:

This requisite has Fire that lasts
It must at first be true -

Este requisito tem Fogo que dura
Deve a princípio ser verdade -

Retirou-se a alusão ao mito Prometeu. Empobreceu o poema.

Bem, encontramos publicações com todo tipo de modificação mostrada acima. Acho que ED também se perdeu no meio das palavras e não soube definir um poema, ficou apenas no rascunho, no esboço. Acontece! Mas, ela deveria tomar cuidado e separar o que é rascunho do que não é rascunho e isso ela definitivamente não sabia fazer. Várias divisões de linhas também aparecem, não vale a pena mostrar todas, já há variações em demasia. Há até publicação incompleta que omite linhas e palavras.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1136 (J1151)


Emily Dickinson - Poema F1136 (J1151)

Poema escrito em 1867, a lápis em um recorte de papel de escritório. No lado de trás deste fragmento de papel havia desenhado, também a lápis, uma campa - uma laje sepulcral - sobre um gramado alto. Foi publicado em 1945.

Soul, take thy risk,
With Death to be
Were better than be not with thee

Ou, com uma quebra de linha:

Soul, take thy risk,
With Death to be
Were better than be not
with thee

Há duas variações de leitura:

Soul, take thy [risk]s,
With Death to be
Were better than be not with thee

Soul, take thy chance,
With Death to be
Were better than be not with thee

Não consigo explicar o motivo de manter a palavra “risk” entre colchetes e deixar o “s” do lado de fora. Usaremos a opção “chance” em vez de “risk”. As opções foram propostas pela própria autora.

Notamos um vocativo, um imperativo e um subjuntivo (condicional). Vejamos:

Alma, aproveita tua chance,
Estar Com a Morte
Fosse melhor do que não estar contigo

Interessante: a autora não flexiona o condicional - o modo condicional fica implícito. Uma maneira inusitada e elegante de ser ao mesmo tempo uma forma nominal e um modo condicional. Ainda, um bonito ritmo ocorre com “to be” e “be not”.

Obs. Não me venham dizer tempo do modo indicativo em vez de condicional, eu não aceito isso e é irritante!

Vejamos a outra opção sugerida pela autora:


Alma, corre teus riscos,
Estar Com a Morte
Fosse melhor do que não estar contigo

Outra maneira:

Alma, corre teus riscos,
Estar Com a Morte
Fosse melhor não estar contigo

Ou ainda:

Alma, corre teus riscos,
Estar Com a Morte
Não fosse melhor do que estar contigo

Ou

Alma, corre teus riscos,
Estar Com a Morte
Não fosse melhor estar contigo.

Para mim, o poema muda de sentido, aliás, perde o sentido. Acredito que a autora confundiu um pouco as semânticas, que na verdade, em alguns casos são bem próximas. Mas, neste caso a troca muda bastante o sentido, mesmo porque a expressão “corra teus riscos” é bem diferente de “aproveite tua chance”.


Poema muito indagativo este! 

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Emily Dickinson - Poema F1158 (J1158) (FH436)


Emily Dickinson - Poema F1158 (J1158) (FH436)

Há dois manuscritos deste poema. Um deles somente uma parte. Há também uma variação. Escrito em 1869 a lápis, uma cópia completa foi recuperada em um fragmento de papel de escritório que também continha o poema F1157. Publicado em 1932.

O segundo manuscrito, incompleto talvez, tinha sido enviado para Susan Dickinson havia vinte anos. Continha somente as duas primeiras linhas com uma variação na segunda. O primeiro manuscrito, completo, juntamente com o poema F1157 mencionado acima não estava endereçado nem assinado e de algum modo foi parar nas mãos de Susan, cunhada de ED.

Best Witchcraft is Geometry
To the magician’s mind -
His ordinary acts are feats
To thinking of mankind -

Melhor Encanto é Geometria
Para a mente do mágico -
Seus atos ordinários são façanhas
Para o pensamento da humanidade -

Em princípio a tradução da última linha pode ser melhorada, visto que as palavras utilizadas são exageradas. Poderíamos escrever: seus atos ordinários são façanhas, ou proezas, para as outras pessoas ou para a mente dos outros, para a mente das pessoas. Muito bem, como eu já disse, ED não brinca com as palavras. Mesmo em inglês, as palavras são exageradas, abrangentes por demais. Acredito eu, que ED quer a força abrangente e tem exatamente esta intenção. Uma abrangência total: humanidade e pensamento. Além disso, “mankind” conjuga com “mind” e une as duas primeiras linhas com as duas últimas como veremos.

A palavra encanto está no sentido de poderes mágicos de enfeitiçar, encantamento. No sentido de jogar um encanto, lançar um encanto. Exatamente no sentido que a palavra witchcraft está sendo usada.

As duas primeiras linhas, como dissemos, foram escritas vinte anos antes e enviadas à Susan. Logo, o poema só tinha duas linhas, as outras duas foram acrescentadas depois e como era de se esperar há uma rima unindo as duas partes formando um só poema. Ainda, a segunda linha original, do poema enviado à Susan foi modificada depois. A segunda linha do poema enviado à Susan é assim:

To a magician’s eye -

Para o olhar de um mágico -

Nas duas versões há quebra de linhas no manuscrito. Vejamos:

Best Witchcraft is
Geometry
To the magician’s mind -
His ordinary acts
are feats
To thinking of mankind -

Best Witchcraft
is Geometry
To a magician’s
eye -

Como Susan Dickinson era formada em matemática, comenta-se que ED alude à geometria devido à profissão de Susan. Para mim não é necessário comentário algum, pois é óbvio que a alusão feita tem como objetivo agradar ou ironizar a amiga.

Podemos pensar que o uso da palavra witchcraft não foi uma boa escolha, visto que, witch, esta palavra; significa bruxa, mulher velha e feia. Craft é um ofício, uma perícia uma arte. Logo, witchcraft significa a arte da bruxa, o ofício e a perícia da bruxa ou de uma bruxa, bruxaria. Vejam que a palavra não é adequada. A palavra spell poderia ter sido utilizada.

Por outro lado, tudo isso que acabei de falar pode ser apenas um desejo de conduzir a interpretação por um viés mais ameno apelando para eufemismos e semânticas dadas por extensão de sentido. O que fizemos na tradução também foi um eufemismo. Porém, quem sabe ED queria mesmo usar witchcraft sem qualquer eufemismo? Ela não está fazendo elogio algum à geometria, ao contrário, ela a está depreciando e ironizando assim como também está criticando a mente soberba dos mágicos e a ingenuidade do ser humano. Ela genialmente fez uma analogia muito sutil traçando condutas comuns entre geometria, geômetras, mágicos e magias. Eu fico com esta última análise.

sábado, 4 de janeiro de 2020

O Ovo e a Galinha


O Ovo e a Galinha

O temor do SENHOR é o princípio do saber,
mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino.

Provérbios1.7

De manhã na Via Ricasoli 60, em Florença, Itália, vejo uma escultura. Um homem nu feito de mármore. Não fale que é de mármore, ele perde sua identidade. Chama-se David, mas individualmente ele não existe. Ele não tem um si mesmo. Fico pensando: essa escultura é apenas uma pedra que estava dentro de outra pedra e fazia parte desta outra pedra, não havia duas, havia uma pedra só. Alguém arrancou este pedaço de dentro da outra. Logo, esta escultura já existia antes de ser feita, ela só estava escondida dentro da outra pedra. Ou será que não existia de fato? Será que só havia a outra que chamamos agora de restos e que nem vemos mais?

Este David é um personagem bíblico. Não, este não é o David, pois o David já morreu há muito tempo. Magritte há de concordar comigo. Por muito menos ele duvidou de um simples cachimbo! Ao meu lado estava um senhor chamado Baudrillar. Gentilmente perguntei a ele: senhor, esta estátua aqui na nossa frente é um simulacro ou uma simulação do David? Eu penso que não é um simulacro. Baudrillar retrucou: como não é? Claro que é. Repare bem, Baudrillar, repare: não está vendo que o pênis está com a capa de pele? Aliás, de pedra? Sim, estou vendo e daí? Disse ele. Então, este David, sofre de fimose. Um judeu jamais teria este problema, logo, não é um simulacro. Baudrillar se irritou e saiu de minha visão. Continuei olhando. Não gostei da posição da cintura, dos pulsos e nem das pernas. Uma posição pouco máscula, duvidosa! Suspeita! Não sei se ele carrega nas costas uma casca de cobra ou uma cobra seca. Ou será um cinturão de couro em forma de cobra e com cabeça de cobra? Não vejo motivo para colocar este detalhe. O que tem uma cobra a ver com o Rei David? Estão de brincadeira!

Ali estava eu, parado e meditando sobre a estátua e seu em si mesmo. Ao sentir que estava me apaixonando por ela lembrei-me que na antiga cidade de Bizâncio, capital do Império Romano do Oriente, Império Bizantino, havia uma rainha muito querida e bela. Chamava-se Clarice. Um lindo nome, perfeito para uma rainha. Clarice, ainda jovem começou a sofrer de um mal espiritual. Os grandes sábios bizantinos foram chamados para cuidar da rainha enferma, acometida de um mal obscuro: ela tinha se apaixonado por um ovo. Mas este ovo na verdade não existia, só na imaginação dela. Porém, para a rainha, existir em sua imaginação já é existir, já é ter um si mesmo, afinal ela era a rainha, e a imaginação de uma rainha existe só pelo fato dela ser rainha. Seu amor pelo ovo era tamanho que ninguém via o ovo, a rainha proibiu a visibilidade do ovo. Ele era infinito, um triângulo que se transformou em ovo, infinito, sem início e sem fim.

Certa vez houve um agravamento do mal espiritual e a rainha resolveu, sem nenhuma razão aparente, dedicar ao ovo o Império Otomano. Rapaz, nem te conto! Os sábios bizantinos ficaram furiosos, pois isso podia causar uma guerra entre impérios. Imaginem se os otomanos ficam sabendo deste ato da rainha! A coisa piorou quando a rainha falou que o ovo era originário da Macedônia. Meu Deus do céu! A briga começou de vez. Dizem que a situação beligerante do oriente médio vem desde esta época e a causa foi o ovo macedônico da rainha.

Dois sábios bizantinos cuidaram da rainha até sua morte e ainda hoje os homenageamos. São eles: José Miguel Wisnik e Benedito Nunes. O primeiro, por amor e dedicação à rainha provou que o mal obscuro era um tratado poético sobre o olhar e o segundo provou que o mal não passava de uma real meditação.

Saí da galeria de arte e fui tomar um café. Surpresa minha foi quando Baudrillar chegou à minha mesa e perguntou se podia se assentar. Falei: claro Baudrillar, será um prazer conversar com o senhor. Baudrillar se assentou, pediu um café e alguma coisa para comer. Conversa vai, conversa vem e com coragem perguntei: Baudrillar, o senhor não acredita nesta história de simulacro e simulação, acredita? Ele riu debochadamente e respondeu: meu caro, só acadêmico acredita nisto. Eles têm que acreditar, caso contrário vão viver de quê? Nem todos, ou quase nenhum, podem se casar com embaixadores ou embaixatrizes. Aproveitei uma piada que Magritte fez com o desenho de um cachimbo e elaborei uma teoria, disse ele. Já de saída, Baudrillar enfatizou: o melhor de tudo mesmo é a piada do cachimbo, muito boa! Despediu-se e foi embora.

Fiquei ainda um instante pensando na rainha Clarice. Pode ser loucura minha, mas sendo a rainha judia, não deveria ter participado do Congresso das Bruxas. O mal espiritual começou ainda quando ela estava nesse evento. Escreveu alguma coisa sobre ovo para apresentar no congresso e depois disso não conseguiu mais se separar do ovo e também de um cão chamado Ulisses. Ela, coitada, chegava a conversar com o cachorro e dizia que sabia até falar a língua dele. Este mal espiritual começou a se manifestar desde então. Ato inconsequente e sem temor algum a Deus. Pensei ainda em sua morte: triste a morte de uma pessoa tão jovem e já com alto grau de demência. O mal obscuro!

Paguei a conta, inclusive a parte de Baudrillar, e fui para o hotel.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O Estranho Caso do Dr Jekyll


O Estranho Caso do Dr Jekyll

Rogo-vos que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados,
com toda a humildade e mansidão, com longanimidade,
suportando-vos uns aos outros em amor.


Efésios4.1,2

A ala de atendimento do hospital estava bem movimentada. Um grande corredor espaçoso com consultórios e salas que funcionavam como clínicas para pequenas intervenções cirúrgicas. Os pacientes eram chamados pelo nome e assim eram atendidos um por um, em uma interminável rotina diária. O Doutor Jekyll prestava atendimento neste setor do hospital. Era especialista em pequenas cirurgias, principalmente vasectomia.

Uma médica abriu a porta, o paciente saiu e ela chamou o próximo: senhor Gustavo Almeida. Ele prontamente se levantou e foi ao encontro da doutora que deixara a porta aberta e já sentada à sua mesa o aguardava. Outro médico, da mesma forma, abriu o consultório e chamou o paciente: senhor Adilson Pereira. Mais outro médico e mais outro. Os pacientes iam sendo atendidos. O doutor Jekyll terminou uma cirurgia e chamou o próximo da fila. Senhor Gonçalves dos Anjos. Este, sentado e distraído ouviu e perguntou: eu doutor? O senhor se chama Gonçalves? Perguntou Jekyll. Sim, doutor. Então venha, entre e deite de bruços ali naquela mesa. Deitar como doutor? Deite de barriga para baixo.

Uma enfermeira entrou e preparou o paciente para a cirurgia que iria suceder: uma vasectomia. O doutor Jekyll fez o procedimento e em quinze minutos o paciente já estava de pé. Prescreveu um remédio para dor e solicitou que voltasse no prazo de cinco dias. Finalizou as instruções e liberou o paciente.

Neste instante, o senhor Gonçalves, de pé junto à porta já pronto para sair da sala, parou, olhou para Jekyll e perguntou: doutor, o senhor não vai examinar o meu olho? Jekyll não entendeu o propósito da pergunta e com semblante expressando dúvida fez outra pergunta: Por que o olho, Gonçalves? E este calmamente explicou: ora, doutor, eu vim aqui para fazer um exame de vista, meu olho está lacrimejando muito e pela manhã acordo com ele grudado, depois melhora. Falaram para marcar uma consulta, tal de conjuntivite que está pegando em muita gente. O Doutor Jekyll, espantado, olhou para a ficha do paciente que estava sobre a mesa, olhou novamente para Gonçalves e indagou: seu nome é Gonçalves dos Anjos? Sim, doutor, Gonçalves Araújo. Jekyll ficou nervoso. Eu chamei Gonçalves dos Anjos e não Gonçalves Araújo, o senhor não ouviu? Claro que ouvi doutor, o senhor chamou o meu nome e eu atendi.

Fez-se silêncio e Jekyll fechou a porta e começou a falar com Gonçalves. Muito bem, senhor Gonçalves Araújo, muito bem. O senhor sabe a qual procedimento cirúrgico o senhor foi submetido? Gonçalves balbuciou: submetido? Procedimento cirúrgico? Sei não doutor. O médico continuou. O senhor é casado? Sim senhor. E tem filhos? Sim, doutor; tenho cinco filhos, três homens e duas mulheres. Ah! Ainda bem! Exclamou Jekyll um pouco aliviado. Chega aqui, vou examinar o seu olho. Examinou e prescreveu um colírio. Agora vá, está tudo bem. Se sentir dor volte aqui. Sim senhor, doutor, muito obrigado, fica com Deus. Em seguida, Jekyll chamou o próximo paciente.