terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F1128 (J1155) (FH435)


Emily Dickinson - Poema F1128 (J1155) (FH435)

Poema escrito em 1866 a lápis, assinado “Emily” e enviado à Susan Dickinson, sua cunhada, casada com seu irmão mais velho. Publicado em 1914.

Trata-se de um poema que se firma na escassez sintática, o que não é raro em ED. Esta escassez expõe uma beleza poética sem igual.

Distance - is not the Realm of Fox
Nor by Relay of Bird
Abated - Distance is
Until thyself, Beloved.

Na primeira folha de papel em que o poema foi escrito ele se encontra com duas linhas a mais:

Distance - is not
the Realm of Fox
Nor by Relay of
Bird
Abated - Distance is
Until thyself, Beloved.

Nas publicações o poema sofre mais mudanças. Ele foi publicado na seguinte forma:

Distance - is not the Realm of Fox
Nor by Relay as Bird
Abated - Distance is Until
thyself, Beloved.

Vamos à tradução acompanhando o texto em inglês da primeira forma acima, depois pensamos em uma forma poética para o poema em português. (Deixo para o leitor esta tarefa.) Observo que ED não brinca com palavras. Cada palavra tem sua alusão pertinente, sua conotação ou denotação apropriadas. Em muitos poemas o sentido vem muito mais das palavras deixando a sintaxe em segundo plano. Exatamente o que temos neste presente poema: a palavra “distância” é enfatizada através de conotações das palavras Raposa, Território, Revezamento e Pássaro. Reparem que todas elas aparecem com letra maiúscula no poema. Ainda, “Abatido”: o pássaro cansado é substituído por outro para continuar o percurso, um revezamento, “Relay”.

Distância - não é o Território de Raposa
Nem por Revezamento de Pássaro
Abatido - Distância é
Até a ti mesmo, querido.

Será querida em vez de querido? Quem está apenas lendo o poema sem saber a sua história vai ler querido. Até a ti mesma ou a ti mesmo? Pode estar se referindo à distância afetiva entre duas pessoas ou entre a pessoa e ela mesma, uma visão mais psicológica de autoconhecimento. Não importa! Abatido = sem força, prostrado, cansado. Aqui não se trata de abater no sentido de matar o animal, pois em inglês, “Abated” não tem este significado. “Relay” = revezamento, corrida de revezamento, substituir. Todo o poema se resume na frase: “Distance is until thyself”. Todas as outras situações do texto conotam “Distância”, exatamente o que a escritora quer: enfatizar, dar a devida importância, chamar a atenção, aumentar a percepção, o conceito e o sentido de Distância. Diria mesmo exagerar e dramatizar, para depois escrever a sublime conclusão a qual, sozinha, desacompanhada do resto do texto jamais teria a força poética desejada por ED.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F1449 (J1144) (FH433)


Emily Dickinson - Poema F1449 (J1144) (FH433)

Poema escrito em 1877, a lápis, em uma carta a Samuel Bowles. Tudo indica que ED esteja se referindo a uma fotografia de Bowles tirada quando ele comemorava 50 anos de idade. A carta encontra-se em Carta (J489). A fotografia de Bowles também se encontra publicada junto com a carta no Volume II do livro de T. H. Johnson citado acima.

O poema vem logo depois da frase:

You have the most triumphant Face out of the Paradise - probably because you are there constantly, instead of ultimately -

Tu tens a mais triunfante Face fora do Paraíso - provavelmente porque tu ficas lá constantemente, em vez de finalmente -

A terminação da frase é muito peculiar. Colocar dois advérbios juntos! Vejamos, porém, que “constantly” conjuga com “ultimately”, não só na rima, mas na pronúncia: as sílabas tônicas são as primeiras sílabas em ambas as palavras. Isso favorece o ritmo da frase e ainda se junta à palavra “probably”. Maravilha! O problema é a elipse, nada fácil! Uma zeugma! (Tu ficas lá constantemente em vez de ir para o paraíso só no final: finalmente foi para o paraíso, dizem, mas ele não, Bowles está lá constantemente, permanentemente.)

Na verdade a carta consiste somente nesta frase e o poema que vem em seguida, nada mais. Possivelmente, ED só está dando conhecimento de que recebeu uma cópia da fotografia.

Reparem que mesmo uma frase supostamente em prosa se transforma em um poema. Definitivamente ED é incapaz de se afastar da escrita poética. Muito se fala sobre a mania que ED tem de usar hífen ou travessão como sinal gráfico. Aparece constantemente em sua escrita e virou uma característica marcante da escritora. Há teses e estudos acadêmicos sobre isso - o academicismo - Coisa de intelectual que não tem o que fazer e quer publicar algo. Ora, ED gosta e acha bonito usar estes sinais gráficos, que, aliás, nunca se sabe se é hífen ou travessão, mas há intelectual que insiste em fazer diferença entre o uso dos dois. Não passa de um TOC da escritora, com valor estético certamente. Porém, acadêmicos gostam de inventar emendas acadêmicas. Vamos chamá-las de PEA, (projetos de emenda acadêmica).  Vejam o que fala a intelectual portuguesa Ana Luísa Amaral em seu Blog: “O seu uso recorrente de travessões, que fragmentam e questionam o verso, permitiu que deles se dissesse serem formas de dispersão da unidade discursiva, ou, sexualizados, uma espécie de hímen-hifen”. Fico a me perguntar: de onde esta mulher tirou este pensamento e este discurso, ambos vazios, ocos e completamente desnecessários.

Bem, falamos da carta e nos esquecemos do principal: o poema. Vamos a ele agora.

Ourselves - we do inter - with sweet derision
The channel of the Dust - who once achieves -
Invalidates the Balm of that Religion
That doubts - as fervently as it believes -

O poema foi publicado como poema, em 1955 e em 1960. Em prosa como carta, em 1894. No manuscrito a lápis encontramos o poema assim:

Ourselves - we
do inter - with
sweet derision
The channel of
the Dust - who
once achieves -
Invalidates the
Balm of that
Religion (muda de página)
That doubts - as
fervently as it
believes -

A primeira versão é como encontramos na carta enviada ao senhor Bowles. Vamos deixar desse jeito.

Nós mesmos - de fato nós enterramos - com gentil motejo
O leito do Pó - quem uma vez alcança -
Invalida o Bálsamo desta Religião
Que duvida - tão fervorosamente quanto crê -

Poema de uma força extraordinária. Denuncia fervorosamente a hipocrisia da comunidade cristã da qual ED pertencia. Denúncia sutil, bem observada e de difícil apreensão.

Acho razoável traduzir “The channel of the Dust” por “O leito do Pó”. A palavra “channel” não foi uma boa escolha de ED. Já, “Dust” faz alusão a funeral, pois, temos a expressão muito comum usada em todos os funerais, qual seja, “ashes to ashes, dust to dust”. A frase vem do Livro de Orações oficial da Inglaterra de 1662 e é uma adaptação do texto de Gênesis: “Lembra-te, homem. Do pó vieste e ao pó voltarás”.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F1079 (J897)


Emily Dickinson - Poema F1079 (J897)


How fortunate the Grave -
All Prizes to obtain,
Successful certain, if at last,
First Suitor not in vain.

Esta é a disposição do poema apresentada pelos editores. A versão original manuscrita por Emily Dickinson se dispõe assim:

How fortunate the Grave -
All Prizes to obtain,
Successful certain, if at
last,
First Suitor not in vain.

Há uma quebra de linha com a formação de um verso a mais. Essa inconformidade se deve ao fato de que Emily Dickinson despencava suas poesias em qualquer papel de pão, envelope, margem, sobra em branco, resto de anotação, etc.. Assim, nunca se sabe quando uma quebra de linha é intencional ou ocasionada pelos empecilhos dos primários suportes da tinta oriunda de sua pena.

O poema tem apenas um verbo empregado no infinitivo! Maravilhas de ED: concisão. Em um primeiro olhar somos tentados a apreender a conjunção “if” como condicional, mas logo vemos que isso não se ajusta ao texto. Percebemos que se trata de uma conjunção causal.

A disposição original dos versos, mesmo que seja acidental - o que na verdade não importa muito ou mesmo nada - me parece mais atrativa, pois suscita uma situação homoclínica: o alfa e o ômega, o princípio e o fim, o último e o primeiro, em uma perpétua órbita sem começo e sem fim. (last, first, last, first, ...)

Quão afortunado o túmulo -
Todos os prêmios a receber,
Exitoso certo, se
afinal,
Primeiro pretendente jamais em vão.


Imprescindível destacar a ironia do poema, nem parece ED! Pois é! Ela também sabe ser irônica!

Cabe uma observação gramatical. A palavra “certain” que é um adjetivo, ou pronome indefinido, funciona como advérbio. Não é incomum encontrar em ED sua própria gramática. Certamente ela se utilizou da palavra “certain” para conjugar com “obtain” e “vain”. A gramática se acomoda à estética de maneira muito pertinente. O poema flui maravilhosamente.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Emily Dickinson – F434 (J417)


Emily Dickinson – F434 (J417)

It is dead - Find it -
Out of sound - Out of Sight -
“Happy”? Which is wiser -
You, or the Wind?
“Conscious”? Wont you ask that -
Of the low Ground?

“Homesick”? Many met it -
Even through them - This cannot testify -
Themsef - as dumb -

Poema escrito no final de 1862, manuscrito em fascículo e publicado em 1929. Esta é a versão manuscrita original. Outras publicações corrigem e modificam o texto. Vejamos. Na linha 4 a frase foi modificada, em vez de You colocaram Sun; a linha 8 foi quebrada e ficou:

Even through them - This
Cannot testify -

Em J417 a quebra de linha já aparece. O erro gramatical foi corrigido: Themself por Themselves. A última linha além de corrigida gramaticalmente foi também mudada para Themselves dumb. Quem retirou o pronome “as” atrapalhou o uso do verbo testify.

Em algumas publicações, incluindo J417, o verbo Wont foi trocado por Won’t, contração de Will not.

Vamos à tradução.

Está morto - Encontrem -
Ausente do som - Ausente da Visão -
“Feliz”? Qual é mais sábio -
Você, ou o Vento?
“Consciente”? Você costuma perguntar isso -
 Do posto sob a terra?

“Com Saudades”? Muitos o receberam -
Mesmo assim - Não podemos testificá-los -
Como apoucados.

Bem, segui o texto original manuscrito. Não sei o motivo pelo qual T. H. Johnson achou que há uma quebra de linha. R. W. Franklin não concorda com isso. Talvez o manuscrito não esteja muito claro e dá margem a duvidas. Não sei quem trocou You por Sol. Tavez pelo fato de ED utilizar Which em vez de Who. Não justifica a mudança, pois ela pode muito bem evidenciar o vento em vez da pessoa.

Quanto ao verbo wont pergunto, por que achar que seria will not e que ED simplesmente se esqueceu do apóstrofo indicando a contração?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F500 (J685)


Emily Dickinson - Poema F500 (J685)

Havia dois manuscritos deste poema, um se perdeu. ED os escreveu em 1863. As linhas, apenas duas, apareceram como verso em uma carta a T. W. Higginson. A mesma carta em que está o Poema F499. Falamos sobre esta carta na tradução do Poema F499 e um fato curioso é que ED assina a carta com o nome: “Your Gnome -”. O próprio Higginson nunca soube explicar a razão pela qual ED usou esta assinatura.

Na carta há uma frase que precede o poema e eu acho que ela deve acompanhar os dois versos. A frase é a seguinte:

I was thinking, today - as I noticed, that the “Supernatural”, was only the Natural, disclosed -

(Eu estava pensando, hoje - quando eu percebi, que o “Supernatural”, era somente o Natural, manifestado -). De outra forma: O natural manifestado, revelado, exposto, era o que achávamos ser o sobrenatural. Este é o sentido da frase, mas não é o estilo de ED escrever.

Not “Revelation” - ‘tis - that waits,
But our unfurnished eyes -

Não a “Revelação” - é - que espera,
Mas nossos desguarnecidos olhos -

Outra maneira:

Não é a “Revelação” que espera,
Mas, nossos desguarnecidos olhos.

Reparem que a segunda tradução, afasta-se do original com a retirada da grande pausa feita para pronunciar o verbo. Acho que a primeira tradução está mais perto do estilo poético de ED.

No manuscrito o poema aparece assim:

Not “Revelation” - ‘tis -
that waits,
(quebra de página)
But our unfurnished
eyes -

A cunhada de ED, Susan Dickinson, casada com seu irmão mais velho, transcreveu o texto do manuscrito perdido em forma de prosa:

Not Revelation t’is that
waits, but our unfurnished
Eyes -

Reparem que há uma retificação feita pela cunhada: no lugar de “’tis” a cunhada colocou “t’is”. Algo descabido, pois a contração de “it is” é “’tis” e não “t’is”. Quem se confundiu foi a cunhada e ainda sumiu com o manuscrito! O uso “’tis” é comum em poemas, vários poetas utilizam esta forma de contração por causa da métrica. Aí me vem a cunhada e atrapalha o verso, e ainda pior, coloca uma forma de contração que não existe. Ela deve ter se distraído na hora de corrigir, só pode! Com certeza a irmã queria escrever “it’s” que é a forma usual da contração de “it is”. (Erro de digitação.)

Emily Dickinson - Poema F499 (J684) - Carta (J280)


Emily Dickinson - Poema F499 (J684) - Carta (J280)

Manuscrito em 1863 e copiado em uma carta enviada ao senhor T. W. Higginson quando ele, sem avisar à ED, foi para a Carolina do Sul em uma missão de guerra como comandante de um regimento de soldados negros. A carta é hilária, mas não vamos transcrevê-la aqui.

Carlo - still remained - and I told him -

Carlo - ainda vive - e eu disse a ele -

(Esta é a frase da carta que antecede o poema. Carlo é o cachorro de estimação de ED que estava para morrer.)

Best Gains - must have the Losse’ test -
To constitute them - Gains.

My Shaggy Ally assented -

Meu peludo Confederado concordou -

(Esta frase da carta vem logo após o final do poema de duas linhas apenas. ED provoca o senhor Higginton chamando o cão de “meu aliado”, em que a palavra aliado tem o sentido de confederado, ou seja, alude à confederação sulista a qual o senhor Higginson luta contra. ED não gostou nada do amigo Higginson partir sem avisá-la!)

Melhores Ganhos - têm que passar pelo teste das Perdas -
Para se constituírem - Ganhos.

Em Johnson encontramos “- Gains -” em vez de “- Gains.” como escreve Franklin. Na carta a escrita está como em Johnson. Significa que no manuscrito está como Franklin mostra e a mudança veio quando ED passou do manuscrito para a carta. Johnson usou a carta como referência, já Franklin buscou a fonte mais antiga. Franklin ainda mostra que no manuscrito há uma quebra de linha no verbete “must”:

Best Gains - must
have the Losses’ test -
To constitute them - Gains.

Há ainda um questionamento sobre o uso do genitivo “Losses’ test”. Geralmente, não se usa o genitivo quando o possuidor é um ser inanimado. Há exceções, mas não é o caso utilizado no poema. É possível que ao usar o genitivo na palavra “loss” no plural, ED queira conotar um grupo de pessoas perdedoras.

sábado, 30 de novembro de 2019

Emily Dickinson – Poema F37 (J55) (FH8)


Emily Dickinson – Poema F37 (J55) (FH8)

By Chivalries as tiny,
A Blossom, or a Book,
The seeds of smiles are planted -
Which blossom in the dark.

Poema escrito em outubro de 1858 num pedaço de papel e organizado em um fascículo no ano seguinte. Foi publicado somente em 1945.

Por gentilizas tão pequenas,
Uma Flor, ou um Livro,
As sementes dos sorrisos são plantadas -
Essas obscuramente florescem.


Um belo e simples poema. O uso do pronome “Which” não é usual. Este pronome é usado em frases interrogativas, mas pode ser usado no sentido de “as quais”. Mais apropriado seria utilizar “those”: “essas”. Porém, “Which” soa melhor e isso é importante em um poema.

A locução adverbial “in the dark” pode ser lida também como sendo uma locução de lugar: no escuro, na escuridão. Eu particularmente acho que um advérbio de modo é mais apropriado. Deixo o leitor decidir e ler da maneira que achar mais bonita.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F197 (J225) (FH50)


Emily Dickinson - Poema F197 (J225) (FH50)

Jesus! thy Crucifix
Enable thee to guess
The smaller size -

Jesus! thy second face
Mind thee - in Paradise -
Of Our’s.

Poema escrito no final de 1861 em uma carta enviada ao senhor Samuel Bowles. Emily finaliza a carta com estes versos. Mais tarde, já em 1862, este mesmo poema aparece escrito em um fascículo ligeiramente modificado em suas pontuações e sem a sublinha. O poema só foi publicado em 1945. Outras publicações corrigem o erro “Our’s” e já escrevem “Ours”. Inclusive T. H. Johnson apresenta o poema já corrigido. Outra correção também foi feita: no lugar de “Enable” puseram “Enables” para corrigir a concordância. Repare que o verbo to mind na segunda estrofe está no modo imperativo, logo não há erro de concordância. Eu pergunto: por que concluíram que o verbo To Enable não está também no imperativo? Eu leio a segunda linha no modo imperativo.

Jesus! thy Crucifix
Enable thee to guess
The smaller size!

Jesus! thy second face
Mind thee in Paradise
Of Our’s!

Apresento uma tradução bem próxima ao texto e sigo as pontuações da primeira versão.

Jesus! tua cruz
Habilita-te a adivinhar
O tamanho menor -

Jesus! tua segunda face
Lembra-te - no Paraíso -
De nossas.

sábado, 23 de novembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F443 (J447)


Emily Dickinson - Poema F443 (J447)

Could - I do more - for Thee -
Wert Thou a Bumble Bee -
Since for the Queen, have I -
Nought but Boquet?

Este poema foi escrito no final do ano de 1862. Notamos um erro ortográfico: “Boquet” em lugar de “Bouquet”. Várias publicações corrigem este erro. A tradução segue de perto o texto do poema:

Poderia - eu fazer mais - por Ti -
Fosses Tu uma abelha -
Uma vez que para a Rainha, tenho eu -
Nada, a não ser Bouquet?

Um belo poema enigmático, visto que não é claro quem é o interlocutor da autora.

Na tradução perderam-se a sonoridade e a conjunção ortográfica: “thee, bee, queen”.

“Bumble Bee” é uma espécie de abelha denominada em português “mamangaba”. Definitivamente esta não é uma palavra poética.

Percebemos a deterioração da língua inglesa ao suprimir a forma subjuntiva “wert”.

A posição do ponto de interrogação produz um estranhamento assaz poético: ele deveria estar na segunda linha, mas sua localização se torna irrelevante - a função é apresentar uma cogitação, mais do que uma indagação.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Emily Dickinson - Poema F47 (J38)


Emily Dickinson - Poema F47 (J38)

By such and such an offering
To Mr So and So -
The web of life is woven -
So martyrs albums show!

Esta é a versão que aparece nos cadernos de Emily Dickinson. Algumas publicações omitem o verbo “to be” do terceiro verso e colocam uma vírgula no lugar do traço final.

By such and such an offering
To Mr So and So,
The web of life woven -
So martyrs albums show!

Por tal oblação
Para fulano -
A trama da vida é tecida -
Desse modo mártires álbuns se tornam visíveis!

Por tal oblação
Para fulano,
A trama da vida tecida -
Desse modo mártires álbuns se tornam visíveis!

Vemos que a presença do verbo “ser” (to be) na terceira linha pode ser dispensada. Uma tradução como essa, colada no texto original, mutila o poema, visto que, quase elimina o ironizado perfil do mártir que faz do banal uma proeza. A secularização das oferendas através de sacrifícios do cotidiano: o provedor da família, a mãe que cuida, os afazeres, as tarefas diárias. Para preservar essa característica do poema temos que mudar um pouco o texto em português.

Por tais e tais oblações
Para este e aquele senhor fulano,
A trama da vida tecida -
Desse modo mártires álbuns se tornam visíveis.

O essencial do poema está no último verso: a ausência de conjunção entre os dois substantivos “martyrs” e “albums”, ambos no plural. A falta de ligação permite duas leituras: “álbuns de mártires” e “mártires de álbuns” ou “mártires dos álbuns”. Aqui culmina a ironia direcionada ao banal tido como proeza e sacrifício.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Emily Dickinson - Carta J498


Emily Dickinson - Carta J498

Dear friend.

I cannot let the Grass come without remembering you, and half resent my rapid Feet, when they are not your's - The power to fly is sweet, though one defer the flying, as Liberty is Joy, though never used.

I give you half my Birds - upon the sweet condition that you will bring them back - yourself, and dwell a Day with me, and Bliss without a price, I earned myself of Nature -

Of whose electric Adjunct
Not anything is known -
Though it's unique Momentum
Inebriate our own.

Forgive me if I come too much - the time to live is frugal - and good as is a better earth, it will not quite be this.

How could I find the way to you and Mr Higginson without a Vane, or any Road?

They might not need me - yet they might -
I'll let my Heart be just in sight -
A smile so small as mine might be
Precisely their necessity -

Carta de Emily Dickinson endereçada à Senhora Mary Channing Higginson em 1877. Na ocasião a Senhora Higginson encontrava-se seriamente doente e viria a falecer alguns meses depois.

Este texto é um exemplo de como não escrever uma carta, de como não escrever uma prosa. Principalmente para uma pessoa adoentada e preste a morrer. O assunto é descabido e revela uma esquizofrenia patente. O destinatário e a própria carta são apenas pretextos para uma construção literária! Ao moribundo o que interessa uma escrita livresca, ambígua, lacunar e metafórica? Imagino a expressão indagativa da Senhora Higginson ao ler a carta! Verão que há escassez de preposições, conjunções e pronomes no texto. Ora, como uma prosa pode existir na ausência de conectivos? Barbaridade!

Vamos à tradução.

Cara amiga.

Não posso deixar sobrevir a relva sem me lembrar de você, e quase ressentir meus pés ligeiros quando não são os seus - O poder de voar é doce, entretanto procrastina-se o voo, assim como Liberdade é Contentamento, entretanto nunca usada.

Eu te dou metade dos meus Pássaros - sobre a doce condição de que você os trará de volta - você mesma, e habitará um Dia comigo, e Alegria sem preço, eu mesma ganhei da Natureza -

Deste Acessório elétrico
Nada se conhece -
Embora seu único Momentum
Inebria nosso próprio.

Perdoe-me se eu venho com muita freqüência - o tempo de viver é frugal - e boa como é uma terra melhor, não será exatamente esta.

Como podia encontrar o caminho até você e o Senhor Higginson sem uma Grimpa, ou uma Rota (estrada, caminho)?

Podem não precisar de mim - por ora talvez não precisem -
Deixarei meu Coração bem à vista -
Um sorriso tão pequeno quanto o meu pode ser
Precisamente sua necessidade (a necessidade deles) -

Uma pieguice de menina colegial. Fala sentimental afetada. Emoção exagerada e descabida, fora de proporção. Metáforas esdrúxulas com uma sintaxe que não se livrou da forma poética. Será que a autora não teve aula de produção de texto?

Comentemos as estranhezas do texto.

 I cannot let the Grass come without remembering you, and half resent my rapid Feet, when they are not your's -

Metáfora infantil e piegas. Extremo descabimento ao utilizar a palavra “half” no lugar de “almost”.

The power to fly is sweet, though one defer the flying, as Liberty is Joy, though never used.

Bela forma poética que traduz concepções existenciais relevantes. Porém, a frase se atrapalha ao usar repetitivamente a conjunção “though” e a conjunção “as” ligando duas sentenças que já contêm cada uma delas, conjunção adversativa. Como disse antes, uma prosa que não se livrou da forma poética. O que temos então? Uma construção capenga e de mau gosto. Há um erro gramatical na conjugação do verbo “to defer”: “one defer the flying”; o sujeito é um pronome no singular, a saber, “one”; logo, o verbo deveria ser conjugado na terceira pessoa do singular, ou seja, “one defers the flying”. A idéia de um plural semântico não é descartável, mas plural semântico retrata pobreza intelectual: “people are”, “a gente fomos” etc.. Não existe semântica sem sintaxe; o pensamento é sintaxe e tudo que contraria isso não passa de emoção delirante. Por último, as duas frases estão completamente desconectadas, dois pensamentos jogados no texto e inapropriadamente ligados por um ridículo travessão. Um vocativo não teria sentido e precisaria de uma vírgula.

I give you half my Birds - upon the sweet condition that you will bring them back - yourself, and dwell a Day with me, and Bliss without a price, I earned myself of Nature

O final da frase é embolado e faltam conectivos para a sintaxe funcionar, caso contrário fica parecendo língua de índio como podemos notar na tradução feita. Na expressão “without a price” não cabe de forma alguma o artigo indefinido “a”. Deveria ser: “without price”.

Of whose electric Adjunct
Not anything is known -
Though it's unique Momentum
Inebriate our own.

Reparem no termo “of whose” e na denominação “electric Adjunct”. O primeiro simplesmente não existe e foi substituído por “of this” como aparece em outras versões do poema. O segundo: quem em sã consciência chamará um relâmpago de “acessório elétrico”?  Além disso, o apelo ao mistério reflete ignorância interiorana, visto que, o iluminista Benjamin Franklin já desvendara as crendices medievais com relação ás descargas elétricas no século 18, cerca de cem anos antes dessa carta. Outro erro gramatical de concordância verbal e um viracento sem sentido: “it’s unique momentum inebriate our own”. O sujeito “it’s unique momemtum” está no singular e o verbo “to inebriate” está no plural. Deveria ser: “it’s unique momentum inebriates our own”. O pronome possessivo é “its”, não há apóstrofo! Credo. O poema foi simplesmente enxertado no texto sem a mínima conexão com os outros parágrafos. Total esquizofrenia! Mesmo se “it’s” fosse “it is” a concordância estaria errada.

Forgive me if I come too much - the time to live is frugal - and good as is a better earth, it will not quite be this.

A primeira sentença é uma tremenda cacofonia semântica. Não sei como uma moça pode escrever uma coisa dessas para uma senhora moribunda. A terceira frase é simplesmente um amontoado de palavras tentando dizer algo, as classes gramaticais não se ajustam e a sintaxe se esvazia. Com isso o sentido fica louco. Quem escreve uma frase dessas certamente tem problema de cabeça! Possivelmente faltam modos subjuntivos e conexões apropriadas. Não estou disposto a descobri-las e fazer o trabalho do autor que deveria saber produzir um texto e usar corretamente a gramática.

O poema final, no entanto, é belíssimo e compensa todo o texto anterior. Deve ser lido separadamente da carta, pois ninguém sabe quem são eles “They who?” cara pálida! Na verdade não é uma carta, é um mosaico de poemas e pedaços de poemas completamente desarticulados.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Escola Sem Partido


Escola Sem Partido

Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espírito, porque segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos. Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Porquanto ao que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conforme à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou. Se Deus é por nós, quem será contra nós? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? Se é Deus quem os justifica. Quem os condenará? Se é Cristo Jesus, à direita de Deus, quem intercede por nós.

Rom8.26-34

Em 2004 começaram uma discussão que foi chamada de Escola Sem Partido. Bem, este assunto já era conhecido em Magdalen College School na cidade de Oxford provavelmente desde a sua fundação no século XV. A alegação é muito simples, qual seja, toda escola só pode ensinar a verdade. Só isso! Sandrine Piau, professora de história da Escola Magdalen sabe muito bem disso e suas aulas são realmente impecáveis; seguem estritamente o conceito da Escola Sem Partido.

Sandrine nasceu na Inglaterra, mas sua mãe é francesa, uma famosa cantora lírica especialista em áreas e recitativos barrocos. Atualmente trabalha no Jacqueline du Pré Music Building. O pai, britânico, nascido em Oxford é um puritano. Calvinista fervoroso! Formado em geografia, trabalha no Instituto de Mudança Ambiental, (Environmental Change Institute). A família mora na Iflley Rd. número 19.

Magdalen é uma escola de ensino secundário que ostenta tanto sua qualidade quanto a qualidade de seus alunos. Quase todos vão direto para importantes e qualificadas universidades da Inglaterra. Sandrine, apesar de professora de história, não gosta muito dos termos Reino Unido e Grã-Bretanha. Tudo é Inglaterra, assim como Alemanha e Germânia, Canal da Mancha ou Canal Inglês. São detalhes como muitos outros. Morada do diabo, foram criados por Elohim como torpe tarefa dada aos filhos dos homens para atarefá-los. Entre os detalhes se procuram causas para efeitos e se vangloriam, perdem a fé e assim, se desviam da verdade. Sandrine dizia: a um pedaço de terra chamado Inglaterra, juntam-se algumas montanhas do norte e outras do oeste. Esse pedaço de terra passa agora a se chamar Grã-Bretanha. Acrescenta-se ainda uma minúscula porção de terra que está ao oeste, tão pequena e mesmo assim consegue se dividir em duas. A Grã-Bretanha mais a parte menor dessa minúscula e insignificante região passa a se chamar Reino Unido. Ela se pergunta: pode isso? E a Bretanha mesmo fica na França! Mais detalhes: eles não são bretões, são anglo-saxões da Germânia e da Dinamarca. Entorpece qualquer estudo!

Estamos às vésperas dos exames finais e como de costume, Sandrine faz revisões sucintas sobre história da Inglaterra. Este ano ela discorrerá sobre a esquadra invencível, a revolução puritana e a revolução gloriosa.

Sempre com tom irônico, como todos os ingleses, Sandrine chamava a frota de guerra ibérica de esquadra invencível. Os espanhóis queriam o domínio comercial na região dos países baixos, para isso teriam que eliminar ou neutralizar a atuação da Inglaterra e seus hábeis e fieis corsários. Porém, vencer a Inglaterra era algo impossível. O Senhor dos Exércitos estava com a Rainha Isabel que estabelecera uma igreja protestante na Inglaterra. Além disso, os jejuns e orações dos puritanos para a proteção da pátria a tornava inexpugnável. Por isso não seria a esquadra de Felipe II capaz de invadir a ilha. O próprio mar se encarregou de destruir mais da metade da esquadra espanhola e o canal da mancha em seu estreito impediu qualquer desembarque em terras britânicas. Para baterem em retirada, os navios foram obrigados a voltear as ilhas e descer pelo atlântico norte, pois os navios ingleses bloquearam a retaguarda da invencível esquadra. Derrotado, Felipe II se viu frustrado em sua tentativa de agredir o protestantismo inglês. A Rainha Isabel, o último Tudor, se tornou um ícone da realeza. Derrotou bravamente os idólatras colocando-os no obscurantismo. Assim, a tripudiante vitória estabeleceu de vez a identidade protestante e a rejeição global ao mundo católico. Deus mostrou que tudo contribui para o bem de seus escolhidos. Até as ações dos corsários liderados por Sir Francis Drake foram importantes para o desarranjo desastroso da esquadra ibérica. O vento marítimo e a geografia do canal foram generais do Senhor dos Exércitos. Os puritanos se estabeleceram, mas a reforma ainda não estava completa, o anglicanismo muito próximo ao catolicismo e a igreja episcopal deveria se tornar presbiteriana para ficar de acordo com a igreja primeira descrita por Lucas no livro de Atos.

Finda a dinastia Tudor com a magnífica Rainha Isabel, entra em cena o inimigo que está sempre à espreita e não desiste, mesmo sabendo que já está derrotado. A dinastia Stuart instala o absolutismo, desconsideram o parlamento e se volta para o catolicismo idólatra. O Rei Carlos persegue os puritanos e dissolve o parlamento. Tudo isso dura muito pouco. O militar puritano Oliver Cromwell forma um exército inédito cujo posto de cada soldado se baseia em sua capacidade e não em sua linhagem. (New Model Army). Era o início da meritocracia, o meio mais eficaz de se fundamentar qualquer sociedade. Certamente o inimigo não aguenta o golpe e o Rei Carlos é degolado em praça pública. Cromwell faz questão de espremer a cabeça até a última gota de sangue para mostrar que não há nada de divino em um rei, seu sangue é vermelho como qualquer outro. (Curioso que a França se gaba de ter feito a mesma coisa com Luis XVI. Gaba-se de ineditismo! Uma revolução ridícula e risível que depois de tanto horror coloca um Imperador no trono, contrariando tudo que combateu). Uma grande vitória dos puritanos que retomam o regime republicano e o poder do parlamento.

O inimigo em seu último suspiro faz mais uma tentativa. Aproveitando-se de uma distração de Cromwell que deveria estar vigilante, dissolve o parlamento novamente. Não contava com a capacidade dos eleitos: se Deus é por nós quem poderá ser contra e nos deter? Habilmente, os puritanos tecem um acordo de moderação e fundam um reinado parlamentar. Nada mais astucioso e sagaz: temos ao mesmo tempo um reinado e um parlamento! Sem nenhuma gota de sangue derramada; eis a Revolução Gloriosa!

Como tudo concorre para o bem dos escolhidos, Cromwell deixa um valioso legado: Os Atos de Navegação. Esta medida cria a exclusividade do comércio marítimo nos portos da Inglaterra aos navios de bandeira inglesa. Só os ingleses podiam comprar e levar mercadorias para a Inglaterra. A base para o desenvolvimento do imperialismo marítimo da Inglaterra está estabelecida.

Ao final da revisão, Sandrine comenta: no exame, provavelmente, haverá perguntas sobre detalhes inúteis, nomes e datas. Esta parte é muito fácil e grande porção dela é desnecessária, só serve para alimentar a vaidade de acadêmicos que buscam causas entre os meios utilizados por Deus para cumprir os seus propósitos. Torpe tarefa!
Desviando do assunto da aula, Sandrine resolveu acrescentar outros feitos do Senhor dos Exércitos. Os puritanos perseguidos por considerarem a reforma incompleta fugiram para a Nova Inglaterra ao nordeste do Novo Mundo, a grandiosa América de Américo Vespúcio que medindo as longitudes avisou que não se tratava da Índia. Nesta nova terra, já de antemão preparada para eles como uma nova Terra Prometida, prosperaram e se tornaram a mais rica nação do globo, prosperidade oriunda da bênção divina: os abençoados são prósperos, pois Deus tudo provê para aqueles que o amam, os seus filhos em Cristo Jesus. A resignação não faz parte da vida do cristão, pois como filhos de Deus lhes cabe a prosperidade, vida plena e vida em abundância.

Napoleão, com seu ridículo bloqueio continental bloqueou o próprio continente e não a Inglaterra, pois isolou este da civilização. Precisava comprar armamentos para manter seus domínios. Vejam bem como Deus age: quem foi que socorreu Napoleão? O presidente dos Estados Unidos, da Nova Inglaterra. Simplesmente comprou da França todo o vale do Mississipi desde o extremo norte em Wisconsin até o extremo sul na Louisiana. Comprou nada menos que o Middle West americano por um milhão de dólares. Este ato ficou conhecido como The Louisiana Purchase. Deste ponto em diante o limite era o Pacífico. E assim se formou um novo povo de Deus, do Atlântico ao Pacífico testemunhamos a glória de Deus. E o que aconteceu com Napoleão? Esmagado, humilhado e tripudiado em Waterloo assim como foi a esquadra invencível dos idólatras.

Na próxima aula, Sandrine comentará a Quarta Querra Árabe-Israelense: Guerra do Yom Kippur, guerra de outubro, o Ramadã. Antes de sair da sala disse aos alunos: vocês conhecerão, neste novo episódio, como Deus age em prol de seu povo, não só no passado como no presente; e continuará sempre, pois Ele é fiel e sempre será.